E.E. LEONICE DE AQUINO OLIVEIRA
PROFª Deborah Adriana Tonini Martini Cesar

TRABALHANDO COM CONTOS
Relato de experiência
Durante o mês de abril, logo após a última conferência, resolvi aproveitar as idéias da penúltima conferência, posto que eu ainda não estava inscrita.Desenvolvi um trabalho sobre contos populares. Utilizei o livro Contos Tradicionais de Câmara Cascudo, uma vez que não recebemos os módulos de paradidáticos neste ano, e provavelmente não os receberemos, já que nossa escola optou por uma reposição maciça dos livros didáticos. O livro é excelente e comecei a ler diariamente um conto para os alunos, já início de cada aula, antes mesmo de fazer a chamada e de outras formalidades. Resultado: a sala já ficava em silêncio para ouvir , dispensando outros recursos para obter a atenção dos alunos. Eu lia gesticulando, fazendo interrupções para que os alunos tentassem descobrir a continuidade, fazendo suspense. O negócio foi indo tão bem que, ao colocar os pés na sala de aula, já era imediatamente cobrada a leitura de outro conto e depois: “_Conte mais um!” Após a leitura do conto reconstruíamos sua seqüência oralmente e era muito divertido porque, às vezes, algum aluno se confundia mudando um nome, uma fruta, um acontecimento e a classe ria e corrigia. Falei-lhes da máxima popular já por eles conhecida: Quem conta um conto, aumenta um ponto. E isso pegou. Um trabalho muito interessante adveio da leitura do conto A MENINA ENTERRADA VIVA, que foi imediatamente reconhecido pelos alunos que assistiram o seriado HOJE É DIA DE MARIA , que trazia em sua trama uma série de contos populares. Os alunos, imediatamente, começaram a comentar sobre as semelhanças e as diferenças entre o conto e o filme. Como o conto trazia no final a partitura da canção cantada por Maria, tentei com meus parcos conhecimentos de violão, o único instrumento disponível na escola no momento, dedilhar as notas da canção para ensiná-la aos alunos. (Infelizmente, nossos alunos violonistas só sabem ler cifras). Quando comecei a cantar a canção, uma das alunas lembrou-se de que a avó já lhe havia contado a estória e lembrou-se da melodia, que era idêntica, mas que a letra da última estrofe tinha uma pequena variação e cantou para a sala.
Trabalhando o mesmo conto com outra turma na biblioteca da escola, pedi que o recontassem no caderno, com suas palavras e como estavam em grupinhos, um podia contribuir com o reconto do outro. Uma aluna pediu para que eu escrevesse na lousa a letra da cantiga e depois quiseram cantar. Enquanto cantávamos, nossa coordenadora que estava próxima ouviu e entrou na biblioteca, surpresa com aquela cantiga, dizendo que a reconhecia. Pedi a ele que participasse e ela nos contou uma experiência pessoal fascinante que tivera em sua infância. Sua mãe,todas as noites reunia os filhos em uma roda e lhes contava esses fantásticos contos populares, aos quais ouviam atentamente desfrutando da atenção e do carinho da mãe. Esse momento foi lindo. Os alunos ficaram atentos às palavras de Iraci que terminou seu relato contando que a versão que sua mãe lhe contava tinha um final diferente, até mais trágico. A madrasta era amarrada a um cavalo pelo marido e arrastada pelos campos até a morte e finalizou cantando a canção que sua mãe lhe ensinara que tinha variações na letra e na melodia.
O interesse pelos contos foi aumentando e
o outro exemplar do livro que há na biblioteca passou a ser perseguido pelos
alunos. Alguns começaram a garimpar os contos em outros livros e trazer para me
mostrar.Alguns alunos me vendo na biblioteca perguntavam onde poderiam achar
mais contos. Tornou-se uma febre. Alguns alunos traziam livros com partituras
que acompanhavam os contos e comecei a tirar a melodia com a flauta doce.
Comecei por esse motivo ensinar em algumas salas alguns rudimentos da teoria
musical para que os alunos possam aprender as cantigas que encontrem.Muitos já
trazem as flautinhas na aula e nos minutinhos finais treinamos um pouco.
Aprendendo e relaxando ao mesmo tempo. Uma aluna, espontaneamente, fez um
caderninho só para recontos. Ela fez o reconto que pedi em sala e fez por conta
própria outros que não pedi para fazer por escrito. Tudo ilustrado. Eu nem lhe
disse que os contos estavam com seus dias contados e que a poesia em breve os
substituiria. Aproveitando seu interesse, penso em propor-lhe a fazer por conta
própria leituras de contos que temos disponíveis na biblioteca e recontá-los
em seu caderninho e ler para a classe oportunamente. Como o conto tem por si
essa natureza oral, aproveitamos para ler em voz alta os recontos dos alunos
que, aproveitando a brecha que o conto oferece para transformação, aumentaram
os pontos em seus contos. No conto da MENINA ENTERRADA VIVA, alguns alunos foram
muito criativos e a madrasta, em vez de casar, queria “ficar” com o pai de
Maria e, segundo outro, matou a menina com tiros de metralhadora. Eles se
divertiram bastante na leitura. Alguns alunos foram extremamente fiéis ao conteúdo
do conto, esmiuçando os detalhes e preservando a seqüência na íntegra.
Interessante que não foi preciso teorizar muito a respeito da estrutura do
conto, os próprios alunos notaram através das várias leituras que o herói
geralmente era alguém muito simples e que mudava sua trajetória de vida pela
astúcia, sorte ou perseverança.Também lhes foi notório que o conto popular não
tem qualquer compromisso com o científico e acharam muito absurdo o tamanho do
piolho do conto COURO DE PIOLHO. Também
cheguei a contar-lhes uma novela do livro Decameron de Boccaccio, autor clássico
italiano cuja produção se assemelha ao conto popular.
Apesar de não ter havido um planejamento
prévio colocado por escrito, as atividades com contos foram muito agradáveis e
proveitosas para todos nós. Os alunos ganharam em divertimento; em redação,
especialmente no que diz respeito à organização da seqüência dos fatos; em conhecimento popular; em
criatividade; em expressão oral e, em especial, foram despertos para a leitura
desse tipo de gênero.
Profª Deborah Adriana Tonini Martini Cesar- Abril 2005