Diário de Bordo
página 13
24 de Agosto de 2000
Dublin- República da Irlanda

Chegámos ao terminal dos autocarros mesmo antes das onze num stress brutal! Só conseguimos levantar o dinheiro absolutamente necessário para comprar os bilhetes! Só nos sobraram 18 libras irlandesas... o suficiente para uma refeição para duas pessoas ou uma noite no Youth Hostel...
Mesmo assim não foi mau! Chegámos a temer ficar em Killarney sem dinheiro para a viagem para Dublin! Conseguimos enfiar as bicicletas dentro da bagageira do autocarro, com bagagens montadas e tudo! Mas tivemos que pagar o bilhete completo porque não temos o cartão ISIC ou seja o cartão internacional de estudante! O cartão jovem não serve em Killarney!
Entretanto,assim que chegámos a Dublin deixámos as bicicletas no terminal e fomos tentar levantar dinheiro. Cada ATM tinha uma fila enorme. O primeiro banco que enconrámos foi o Bank of Ireland que nos negou o levantamento de qualquer importância! Um stress! E assim foi em todos os ATMs que tentámos e não foram poucos! Quando já nos estávamos a capacitar para passar mais uma noite ao relento tentámos a última vez e o Pedro conseguiu levantar 20 Libras! E depois mais 20 e mais 20 e mais 20... enfim o suficiente para a estadia das duas noites que faltam e respectivas refeições! Ufff!
Para comemorar voltarmos a ser ricos outra vez, perguntámos a um jovem que passava onde é que se podia comer um suculento bife! Esse jovem era nem mais nem menos um estudante espanhol, do País Basco, que decidiu abdicar das suas férias na costa brava, por umas remuneradas em Dublin, a trabalhar no Burger King! Ele acompanhou-nos até um restaurante espanhol onde fizémos uma mega-refeição! Saímos de lá com os quilitos que tinhamos perdido na viagem!
Fomos depois buscar as bicicletas que tinhamos deixado presas junto às dezenas delas que estão na O'Connell St. Quando lá chegámos fomos abordados por um homem que nervosamente nos avisou que era uma sorte encontrarmos ali as nossas bicicletas intactas com as bagagens! É que a Garda, a policia irlandesa tem a rua fortemente vigilada com câmaras e em caso de suspeita se bagagens abandonadas ou embalagens estranhas, simplesmente apreendem e destroem-nas de imediato, para o caso de ser uma tentativa de atentado bombista! Ficamos avisados... No final ficámos a pensar que o homem era um policia à paisana, mas a nossa suspeita carece de confirmação...

Em Dublin practicamente toda a gente saudavel circula de bicicleta, ou a pé! São tantas as bicicletas que não há um gradeamento que não tenha um aviso de "proibido parquear bicicletas"! Os incautos ciclitas que se atrevem a desrespeitar o aviso vêem as suas montadas completamente destruidas! De vez em qunado lá está um esqueleto de bicicletas a apodrecer acorrentado ao gradeamento da entrada de um edificio.
Em Dublin practicamente toda a gente saudavel come MacDonalds ou Burger King! Devem ser quase uma dezena na baixa ou melhor centro de Dublin. É que Dublin é uma cidade completamente plana banhada por dois canais (o Royal Canal a Norte e o Grand Canal a Sul) e atravessada por um rio, o River Liffey que desagua na baía de Dublin.
Dublin surgiu-nos como uma cidade movimentada e cosmopolita, com um nervoso tipico de capital europeia. Faz quase lembrar Londres, numa escala bem mais pequena e sem a pluricidade de culturas da capital inglêsa, mas com muito mais charme e simpatia.
Prova disso foi quando procuravamos a localização do International Youth Hostel (o único onde arranjámos vaga para a noite!), fomos de imediato abordados, sem pedir, por um casal que nos perguntou se precisavamos de ajuda! Viemos a saber, em conversa, que a rapariga tinha passado o último Verão na Praia da Rocha, no Algarve!!!
Uns quarteirões mais adiante cruzámo-nos com uma multidão de homens de cachecol que cantavam bem alto, iam a caminho de um "football match"! Perguntámos quem jogava mas não reconhecemos o nome das equipas... Logo a seguir, numa esquina, mais uma dúvida e logo um dublinense mais idoso nos pergunta: "Are you lost, lads?" rápidamente nos explicou o caminho e chegámos ao Hostel. Os irlandeses vão certamente ficar na nossa memória como das pessoas mais simpáticas do mundo!
Depois do magnifico jantar e da cena com as bicicletas fomos vestir umas calças ao Hostel e pôrmo-nos bonitos para a noite de Dublin! Depois de uma volta de reconhecimento, atacámos as nossas pints num bar modernista com muito estilo! Seguimos o crowd até umas ruelas mais apertadas até um tipo de bar-discoteca que fechou cedissimo. Estavamos um bocado cansados e decidimos que tinhamos que nos poupar para a última noite! Não conseguimos arranjar quarto em nenhum hostel por isso decidimos fazer uma directa (o voo é às 7 da manhã de sexta-feira) e seguir da noitada para o aeroporto!
25 de Agosto de 2000
Dublin- República da Irlanda

Acordámos tardissimo! Os cartões de acesso aos quartos deixam de permitir a entrada a partir das 10:30! Não tivemos tempo de tomar banho! Fomos a correr tomar o breakfast, que foi servido na antiga capela do colégio que era a Pousada da Juventude, e em seguida montámos as bicicletas pela última vez! Ficaram guardadas no depósito do Hostel até à noite.
Passámos o dia a ir buscar as caixas para as embalarmos, a revelar as fotos, a dar uma mega-volta pela cidade e a apanhar uma molha violenta! De vez em quando cái uma chuvada brutal e as pessoas abrigam-se todas nas arcadas que quase todos os prédios têm! Passado um pouco a chuva pára e o sol recomeça a brilhar, timido, por entre as nuvens! Começa toda a gente a correr para o seu lado! É o máximo!
Jantámos num restaurante chinês péssimo! Depois de procurarmos por entre os fast foods um restaurante tipico irlandês em vão! O único em que estivemos foi na cidade de Cork o "Nash 19" onde comemos muito bem um peito de frango recheado e um puré de maçã e batata cozida! Uma mistura estranha mas muito apetitosa...
Ao jantar decidimos dispensar o taxi que tinhamos reservado para as 3 da manhã, para o aeroporto. Pensei eu que iriamos antes no Aero-Bus e poupávamos umas Libras... BIG MISTAKE! Tivemos que carregar as pesadas caixas com as bicicletas uns 200 metros no meio de uma chuvada, com as caixas de cartão a rasgarem-se com o peso! Perdemos o último autocarro por 10 segundos, MESMO! Foi frustrante! Arranjámos abrigo nas arcadas de um hospital na rua onde era a paragem do autocarro. Decidimos telefonar e tentar chamar um táxi, mas em vão! Começávamos a desesperar quando uma senhora que ouviu os meus telefonemas veio têr comigo e ofereceu os serviços de um primo que era taxista e que nos vinha buscar! Impressionante! Mas explicamos que precisavamos de uma mini-van para poder carregar as caixas... Entretanto o Pedro foi a uma praça de táxis de que nos lembrámos! Passados dez minutos seguiamos calmamente numa Mercedes Vito a caminho do aeroporto! A viagem foi baratissima por isso demos uma boa gratificação ao simpático taxista!
Chegámos às 3 horas ao aeroporto e tivemos que esperar até às 6 horas pelo check-in. Nessas três horas improvisámos no chão uns assentos e umas camas juntamente com algumas dezenas de pessoas de todas as idades que faziam o mesmo. A imagem era decadente, mas o cansaço era enorme e a sesta soube mesmo bem!!! É impressionante como a maioria dos aeroportos internacionais tem uma área minuscula antes do check-in!
Veio-me à ideia o susto que apanhei quando decidi ir esvaziar o gás que restava no fogão portátil, por causa do avião. Fui até ao exterior do Hostel, em Dublin, e num beco escuro, sem saída comecei a esvaziar o gás. Pensei que podia estar ali com uma bomba que ninguém descobria, quando de repente entra um carro pelo beco adentro com dois policias que me perguntaram ameaçadoramente de onde eu era e o que estava a fazer! Rapidamente lhes expliquei o que estava a fazer e eles com um sorriso foram-se embora, não sem antes dizer: "Don't blow yourself up!". Fica provado que em Dublin a policia está em todo o lado e quando menos se espera eles aparecem!

Antes do check-in a confusão foi total! Um grupo de pessoas com montes de bicicletas chegou e só no aeroporto as começou a desmontar! Ainda ajudámos um jovem casal de alemães stressadissimo a desmontar as coisas e a ensaca-las nos enormes e resistentes sacos de plástico fornecidos gratuitamente pela Aer Lingus, uma das companhias de aviação irlandesas. Um exemplo a seguir pela facilidade no transporte de bicicletas.
Não tivemos que pagar excesso de bagagem porque o peso das bicicletas e bagagens, sem água nem comida, não ultrapassa os 25Kg!
Neste momento a nossa viagem está preste a extinguir-se. O regresso já não depende das nossas pedaladas, mas sim da habilidade do piloto do avião...
Pedro a babar-se, completamente extasiado depois de um irish breakfast!
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