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Arquitetura Gótica |
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Parte I
FORMAS E CRIAÇÕES DA ARQUITETURA GÓTICA
São dois, na realidade, os elementos fundamentais da arquitetura gótica: a abóbada de cruzaria e o arco agudo. A eles vamos referir-nos a seguir. Basicamente, a abóbada de cruzaria é formada por dois arcos que se cruzam no espaço e sobre os quais se apóia a plementaría ou casco da abóbada. Com este sistema, os empuxos do peso da abóbada concentram-se nos ângulos - isto é, nos arranques dos referidos arcos e nos pilares que os sustentam - , pelo que a parede deixa de desempenhar uma função de sustentação da abóbada, de forma que é possível aligeirá-lo, abrir grandes vãos nele e inclusive suprimi-lo. Em contrapartida, tornam-se precisos poderosos contrafortes que absorvam os empuxos a que estão submetidos aqueles pilares e que se exercem obliquamente, tendendo a deslocá-los para fora. A princípio o sistema seguido para a construção destas abóbadas consistia em dispor independentemente os arcos cruzados, apoiando sobre o seu trasdorso o casco da abóbada. Estes arcos chamaram-se ogivas. E convém distinguir claramente este termo, alusivo à função do arco - e que deriva do latim augere, aumentar (neste caso a resistência, a segurança) - , do homônimo ogiva, que é sinônimo de arco agudo. Em rigor, os arcos a que temos chamado ogivas tanto poderiam ser agudos, como semicirculares ou rebaixados; mas de fato as primeiras abóbadas de cruzaria construíram-se sobre dois arcos de meio ponto cruzados. Mais tarde a arquitetura gótica mostraria uma clara preferência pelo arco agudo, mas nessa altura o sistema de construção mais comum consistia em encaixar as ogivas - agora chamadas nervos - no casco da abóbada: a abóbada concebe-se como um todo; não só se apóia sobre uma cruzaria, como antes, mas é toda ela cruzaria: é a verdadeira abóbada de cruzaria, que mantém o seu equilíbrio como um todo homogêneo. Os nervos que a percorrem mudam os empuxos para os ângulos, contrabalançam-nos, articulam-nos em complexo sistema e, ao mesmo tempo, embelezam o seu casco. Com o tempo esta função decorativa acentuar-se-á, de forma que, em data muito avançada, muitos destes arcos ou nervos estarão meramente adossados ao casco. |
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Nave lateral da Catedral de Bourges - iniciada em 1195 Altura da nave central, 38m; naves laterais, 21m; naves colaterais, 9m |
O que acabamos de expor permite-nos precisar uma terminologia que por vezes se utiliza com certa confusão. Dentro do conceito geral de abóbada de cruzaria distinguiremos a abóbada de ogivas - sobre arcos que não costumam ser ogivais, mas de meio ponto - , a abóbada de cruzaria propriamente dita - que emprega toda a espécie de arcos e de preferência os ogivais - realizada como um todo homogêneo, e a abóbada de nervos, conceito este que não precisa a função de tais nervos, mas que indica simplesmente a sua evidência. O que importa sublinhar é que com a utilização deste tipo de abóbadas se modificaram por completo os princípios técnicos construtivos de anteriores etapas. Em primeiro lugar, como se disse, os empuxos já não se produzem ao longo dos dois lados da abóbada, antes se concentram nos ângulos. Em segundo lugar, a estrutura da abóbada e o emprego de arcos agudos aumenta a obliqüidade desses empuxos. E, finalmente, o encaixe de arcos e paredes, tanto na abóbada como nos arranques dos arcos e nos contrafortes, articula os conjuntos arquitetônicos e imprime-lhes flexibilidade e dinamismo. |
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| Abóbada da nave
central da Catedral de Amiens - 1220/69 Altura da nave, 42,50m |
Pilares e paredes são os elementos arquitetônicos mais afetados pelo novo conceito gótico da abóbada. Já dissemos que os empuxos desta se concentram, precisamente nos pilares, o que obriga, por um lado, a dispor os contrafortes necessários e, por outro, a modificar a sua forma e estrutura, uma vez que, além da maior solidez que devem ter, deles partem múltiplos arcos e nervos em diferentes direções. Constam, por isso, de um núcleo ou maciço central a que se adossam colunas que, ao complicar-se a nervura da abóbada, se multiplicam, adelgaçam e adquirem o perfil dos nervos da abóbada ou tornam-se uma espécie de colunetas cilíndricas (baquetões), já que, propriamente, mais do que colunas são molduras que arrancam de uma base e se rematam num capitel alongado ou numa faixa decorativa. De fato o pilar é concebido como uma totalidade: os silhares que o formam têm talhada a parte correspondente aos baquetões ou colunetas, e dispõem-se de maneira que deixem no centro um buraco para encher com alvenaria e proporcionar-lhe assim maior flexibilidade. A segurança dos pilares através de contrafortes não apresenta dificuldade nos edifícios de uma só nave, pois dispõem-se pelo exterior; o problema ocorre quando o edifício é de três ou mais naves, onde então, os pilares centrais - precisamente os que têm de suportar maior peso - ficam livres. A solução que dá a isso a arquitetura gótica consiste em transferir os empuxos para o exterior volteando ramos de arcos, chamados arcobotantes, que se apóiam nos arranques da abóbada e se prendem nos contrafortes exteriores. Este sistema permite distinguir inclusive dois tipos de arcobotantes: os que realmente se apóiam na parede e evitam o deslocamento deste para fora, e os que geralmente se colocam a maior altura, como tirantes por cima do arranque das abóbadas e realmente prendem-se na parede e evitam o movimento desta tanto para fora como para dentro quando o vento faz pressão sobre as superfícies altas do edifício. Para a flexibilidade desta parte alta das paredes contribui, nas primeiras etapas do Gótico, a disposição em dupla parede articulada que já vimos aparecer na arquitetura românica normanda. Encontramo-nos, pois, com um sistema que exige a ciência de grandes especialistas, pois à problemática do equilíbrio das abóbadas deve-se acrescentar a da articulação de todo o conjunto mediante parapeitos, adornos, etc. Pense-se, por exemplo, que por cima dos arcobotantes fazem-se calhas para facilitar o escoamento da água da chuva, que através das gárgulas cai longe dos alicerces do edifício; para já não referir o movimento ascendente que se imprime a todos os elementos do templo, desde os arcos agudos aos pináculos em forma de pirâmides alongadas que rematam os contrafortes e que têm também uma função arquitetônica concreta, como a de contribuir para fixá-los. |
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| Arcobotantes da Catedral
de Estrasburgo - iniciada em 1220 Erwin Von Steinbach (desde 1268) |
O problema das origens da abóbada de cruzaria coloca uma problemática interessante. É costume reconhecer-se que o seu emprego consciente e sistemático é o contributo da arquitetura gótica, tomando-se como ponto de partida o primeiro terço do século XII na região que se conhece como Île-de-France. Mas isso não impede que se possa acrescentar uma longa série de exemplos anteriores que vão desde as termas de Diocleciano até à arquitetura românica normanda (campanário da catedral de Bayeux, catedral de Durham, entre outros). Nem tão pouco se deve recusar uma muito verossímel inspiração oriental, de que seriam elos obras análogas na Geórgia e na Armênia desde o século VII, os edifícios islâmicos de Córdova e Toledo nos séculos X e XI, e até alguns exemplos do românico espanhol. Por outro lado, a abóbada de cruzaria reflete na sua tipologia as diversas fases do estilo. Numa primeira etapa, a proto-gótica, emprega-se a já citada abóbada de ogivas, que se mantém na segunda metade do século XII. Nos finais do século surge a verdadeira abóbada de cruzaria, adelgaçando-se os arcos e convertendo-se propriamente em nervos, que se traçam freqüentemente em forma de arco agudo, de modo que a chave central da abóbada se eleve em relação às dos arcos de cambota e transversais. Dentro da variabilidade de tipologia que afeta a disposição e aparelho da plementería, quer dizer, a concepção dos plementos como superfícies contínuas ou quebradas formando ângulos diedros que se apóiam nos nervos, distinguem-se três tipos de abóbadas de cruzaria. A mais primitiva é a hexapartida, formada por dois nervos que se cruzam no centro, geralmente de meio ponto, com outro transversal agudo; o casco fica assim dividido em seis plementos. Outro tipo de abóbada extremamente característico é a barlonga - isto é, a muito larga e pouco profunda - , cujos nervos ou arcos cruzeiros desenham o perfil de arcos rebaixados. E um terceiro tipo, mais freqüente, é o de planta levemente retangular com dois nervos cruzeiros e a peculiaridade dos plementos se quebrarem formando ângulos diedros, com o que se pode alcançar mais altura e os arcos cruzeiros adquirirem também a forma de arcos agudos, ao mesmo tempo que se entalham ou acoplam no casco da abóbada. |
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| Abóbada da nave
central da Catedral de Salisbury - 1220/80 Altura da nave, 25m |
Na segunda metade do século XIII, iniciando a fase maneirista do estilo, aparece o tipo de abóbada de terceletes. É constituída por dois nervos cruzeiros e outros que, arrancando dos pilares, vão a umas chaves secundárias, que são os terceletes, chaves que se enlaçam com a central mediante uns nervos de ligação. De cada pilar saem, portanto, três nervos - o cruzeiro e os dois terceletes - , além dos arcos formeiros e torais ou transversais, com o que adquire a complexidade a que antes se fez referência. Estas abóbadas de cinco chaves - a central mais as quatro secundárias - são o esquema básico para as abóbadas do século XV, que correspondem à fase barroca do estilo, quando aparecem as nervuras: nervos decorativos que adquirem formas muito diversas e que são sustentados pelo casco da abóbada. Vemo-los pela primeira vez no gótico inglês do século XIV na fase denominada ornamental ou decorated style, que no resto da Europa corresponde aos séculos XV e XVI. Além do que acabamos de dizer do arco na sua fundamental função na abóbada, deve-se acrescentar agora que no fechamento de vãos a arquitetura gótica utiliza de preferência o arco agudo, mais ou menos agudo conforme a época e o país. No século XIV dá-se uma certa preferência generalizada pelo arco muito agudo, e já no século XV surgem o arco conopial de quatro centros - desenhando curva e contracurva em cada um dos seus ramos - , o carnapel - de três centros - e o escarção ou rebaixado de um só centro, além de outros de formas muito diversas que caracterizam a obra de um mestre ou de uma escola. O traçado de janelas e rosetões é também muito característico do estilo. Nos séculos XII e XIII é freqüente a divisão da janela mediante dois arcos agudos e rosetão em cima, susceptível cada um destes arcos de ter análoga divisão. Os grandes rosetões de traçado radial também se organizam de modo semelhante: arcos agudos dispostos radialmente e rosetão entre eles. No século XIV complicam-se os traçados e vemos surgir triângulos curvilíneos, figuras geométricas, rosetões tangentes e maior número de arcos, o que faz com que se percam a simplicidade e clareza dos traços da etapa anterior. Por último, no século XV os traços adquirem perfis flamejantes, isto é, com proliferação de molduras de formas sinuosas, em composições eminentemente decorativas por si mesmas - não já como suporte de vitral onde o motivo da curva e a contracurva é o seu elemento mais distintivo. É muito típica a chamada "bolha", em que o pequeno rosetão que se situa entre os arcos se prolonga como se surgisse entre eles, e no interior dispõe-se uma moldura sinuosa. No gótico a arquitetura deixa de ser fundamentalmente monástica para converter-se, através dos seus melhores edifícios, na expressão mais nítida da vida comunal e do seu profundo espírito religioso. A catedral é o monumento que melhor encarna essa vida e esse espírito pois, ao mesmo tempo que é testemunho de uma fé, a sua própria construção une a cidade no tempo sendo obra de várias gerações e é tarefa comum possível graças apenas aos esforços dos cidadãos. |
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| Nave central da Catedral
de León - iniciada em 1225 Mestre Enrique (m.1277) e Juan Pérez (m.1296) Altura da nave, 30m |
Abundam os textos que interpretam os elementos arquitetônicos da catedral como uma alegoria da espiritualidade cristã. Os alicerces e paredes, por exemplo, são o fundamento físico e espiritual da obra. Os silhares, como as pedras no seu multiforme aspecto, simbolizam o povo cristão unido pela argamassa da caridade. Os pilares são os santos e os dogmas da fé, que orientam o olhar para os nervos ou arcos como caminhos de salvação. As janelas são os escritores sagrados através dos quais nos chega a luz divina: essa luz que desce do alto e ilumina os cristãos acolhidos sob a abóbada, assinalando claramente o seu caráter de recinto sagrado face às inclemências e ao desassossego da vida cidadã do exterior. Por outro lado a catedral constróe-se graças ao contributo econômico dos cidadãos, seja com esmolas, seja comprando nela o lugar para a sepultura, seja com fundações ou através das contribuições dos grêmios que nela têm as suas capelas. E as cidades rivalizam para que a sua catedral seja o edifício mais amplo, mais elevado. Esta tendência para o alto, para ganhar altura sobre os edifícios circundantes, exprime-se claramente na carta de indulgência que escreveu em 1275 o bispo de Estrasburgo: "A catedral de Estrasburgo ergue-se como as flores de maio na sua infinita magnificência, conduzindo sempre mais alto para o céu os olhares dos que a contemplam e enchendo os corações de suaves delícias". E outro tanto pode-se dizer dos freqüentes desejos de edificar a catedral maior da cristandade, conforme vemos, por exemplo, numa carta do bispo de Amiens (1236) ou nos ambiciosos projetos da catedral de Beauvais ou de S. Petrônio de Bolonha. Exprime-o ainda mais graficamente a famosa frase dos cônegos sevilhanos em princípios do século XV quando, segundo a tradição, resolveram: "Façamos uma igreja tão grande que aqueles que a virem acabada nos tomem por loucos". No traçado das catedrais os arquitetos mostram os seus profundos conhecimentos matemáticos. Em linhas gerais correspondem a dois tipos. O primeiro deles baseia-se no triângulo (ad trianguium): destaca-se a nave central e a combinação de triângulos determina tanto a planta como o alçado. O segundo, ou ad quadratum, baseia-se na combinação de quadrados, que podem ter pentágonos ou hexágonos inscritos, tendendo à igualdade de altura das naves. A catedral gótica segue na planta a tradição românica; quer dizer, é um templo basilical, de três ou cinco naves, cruzeiro - que às vezes unicamente se assinala em planta pela maior largura do tramo - e cabeceira com charola, para onde dão as capelas de planta poligonal. Em alçado sobressai a nave central, geralmente muito mais alta do que as laterais, para onde dão os agudos vãos de um estreito trifório que, com o tempo, se vai unificando com as janelas superiores até converter-se num único e enorme janelão. As entradas situam-se nos extremos da nave de cruzeiro e aos pés, em grandes fachadas que geralmente se dividem em tantas ruas ou zonas verticais como naves e em três corpos ou faixas horizontais: uma correspondente às portas, outra ao rosetão e vãos, e a terceira às torres. Ladeiam estas a fachada aos pés e com freqüência rematam-se numa flecha ou agulha que sublinha o movimento ascendente de todo o edifício, para o que contribuem igualmente os múltiplos pináculos que rematam os contrafortes que rodeiam todo o perímetro do edifício. |
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| Castelo de Karlstein - meados do século XIV Próximo de Praga |
Junto à imponência e simbolismo do edifício religioso, é justo assinalar a importância que nesta época alcançam a arquitetura militar e civil. O castelo estritamente militar do românico adquire agora características que, se por um lado o fortalecem, convertem-no também em segura e confortável morada, aspecto que ir-se-á tornando de dia para dia cada vez mais predominante, até transformá-lo, nos finais da Idade Média, num verdadeiro palácio. Este castelo gótico é constituído basicamente por uma série de muralhas ou recintos que se adaptam às condições do terreno em que se ergue, mais um núcleo central - geralmente de planta quadrada - que dá para a praça de armas e que é formado pela grande torre de menagem e as diversas dependências em volta de um pátio. Na organização urbanística das cidades oscila-se entre o traçado retilíneo e o tipo de traçado irregular, sendo este último o que prevalecerá. Freqüentemente o seu perfil é determinado pela adaptação à topografia do lugar onde assenta a cidade, surgindo ruas sinuosas que seguem as curvas de nível e que se cruzam com outras em íngreme encosta que as enlaçam. Estas ruas são, em geral, apertadas, com chão empedrado às vezes e com esgotos nas de urbanização mais avançada já no século XIV As casas costumam ter pórtico ou átrio, que pode servir para postos de venda de produtos diversos; por vezes sobressaem as vigas que seguram o primeiro andar, a modo de beirado saliente, como traves para andaimes, para sustentar saliências. A própria rua constitui em si mesma um reflexo da cidade, pois, junto às nobiliárias, com casas nobres, estão as dos grêmios agrupados e as que conduzem desde a praça ou da porta da cidade a um lugar público determinado - igreja, câmara municipal, universidade, etc. - sendo a Maior a que leva à praça principal. Na cidade gótica é essencial a atividade comercial, que se desenvolve em função da concentração urbana e também da segurança oferecida pelas muralhas. A cidade gótica, de fato, costuma-se conceber com muralhas, ainda que a proliferação de arrabaldes conduza ao seu paulatino desaparecimento. O centro da atividade mercantil é a praça do mercado, que se situa junto à catedral ou à câmara municipal. Nela os pórticos e átrios e as lojas que se abrem no rés-do-chão das casas dos mercadores, assim como as feiras ocasionais que se estabelecem no seu centro, são os lugares das transações comerciais e também o lugar das festas. A importância do tráfego comercial e o desenvolvimento das oficinas de artesãos determinarão, por um lado, o aparecimento dos armazéns de comércio para contratação e venda de produtos em grande escala e, por outro, que, como foi dito, as oficinas se agrupem em certas ruas ou zonas da cidade. |