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Arquitetura Gótica |
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Parte II
A Evolução da Arquitetura Gótica
Na evolução da arquitetura gótica podem distinguir-se diversas etapas que, no entanto, não têm as mesmas características nem a mesma cronologia nos diferentes países. A linha geral evolutiva vai desde a flutuação e persistência de algumas formas românicas no estilo protogótico - segunda metade do século XII - , ao barroquismo decorativo e estrutural que caracteriza o flamejante do século XV mas sem que se possa assinalar uma cronologia uniforme para toda a Europa, senão apenas a linha de paulatino enriquecimento que, nos seus aspectos essenciais, se referiu anteriormente. Estas diversas etapas antecipam-se geralmente na França, enquanto que na Inglaterra e na Itália segue-se uma evolução mais independente do que nos restantes países europeus. A partir do século XIV contudo, o estilo adquire em cada um deles uma fisionomia peculiar. Corresponde principalmente ao século XIII a etapa clássica do estilo, em que se concretizam as formas características com a construção das grandes catedrais francesas. Já na segunda metade desse século nota-se na França uma tendência para aumentar a decoração e para procurar efeitos de maior riqueza, com o aparecimento das abóbadas de terceletes, a proliferação de molduras verticais e a fragmentação do espaço nos janelões, onde os traços apresentam os típicos triângulos curvilíneos ao mesmo tempo que se observa um maior afilamento dos arcos. Pelo contrário, no século XV no chamado estilo flamejante, abundam as molduras sinuosas e as abóbadas adquirem grande complexidade na sua decoração ao proliferarem as nervuras ou nervos meramente ornamentais, facilmente reconhecíveis porque não se apoiam nos ângulos nem no centro ou pólo da abóbada. A arquitetura monástica desta etapa, sobretudo a cisterciense, oferece-nos o grupo de edifícios mais homogêneo e numeroso dentre as obras do estilo gótico. Não se pode considerar realmente como promotora da nova arquitetura, já que a sua evolução é paralela à de outros edifícios não monásticos; mas deve-se dizer que, pelo seu caráter internacional, contribuiu fortemente para o seu desenvolvimento. Isso justifica que lhe dediquemos umas palavras prévias antes de entrar no estudo do Gótico dos diferentes países europeus. Coexistindo com o esplendor da arte românica surge a reforma cisterciense, encarada como um regresso aos princípios da primitiva Regra beneditina. Iniciou-a nos finais do século XI S. Roberto, abade de Molesmes, com a sua retirada para o lugar que seria a casa matriz da ordem: Cîteaux (Cisterium em latim), de onde se deriva a palavra Cister. Em 1112 incorpora-se na nova comunidade S. Bernardo, que seria o autêntico pilar da ordem: dois anos depois fundaria Claraval (Clairvaux), de que seria abade até a sua morte em 1153, momento em que a ordem cisterciense contava já com 343 casas repartidas por toda a Europa, das quais não menos de 160 haviam sido fundação do próprio S. Bernardo. |
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| Cabeceira
gótica da igreja de Sainte Madeleine - 1165/85 Iniciada em 1120 - Princípios do século XIIIVézelay |
Os três elementos fundamentais da reforma cisterciense são a reza do oficio divino, a leitura espiritual e o trabalho manual. Elimina-se da vida monástica tudo o que pareça excessivo ou supérfluo, em aras da simplicidade. Inclusive, por disposição do capítulo geral de 1134, tenta-se que as fundações evitem os lugares próximos de núcleos urbanos, preferindo locais afastados onde a solidão contribua para a pureza da ordem; uma pureza simbolizada na troca do hábito negro beneditino pelo branco. O mosteiro cisterciense ergue-se, pois, em lugares até então ermos, contribui poderosamente para a arroteia dos campos, para o desenvolvimento da agricultura e, também, para a incorporação na cultura cristã de vastas zonas até então desérticas e improdutivas. Nas construções cistercienses imperam a simplicidade e o funcionalismo arquitetônico. Interessa fazer um edifício útil em função da finalidade das suas diversas partes - igreja, convento, dependências agrícolas... - e com os meios econômicos mais modestos. Tende-se, portanto, a suprimir os elementos supérfluos, o que tem implícito - por causa da economia - utilizar os modelos e processos arquitetônicos mais funcionais e baratos. Surge assim, conseqüentemente, uma arquitetura em que têm primazia as soluções construtivas mais utilitárias, sempre e quando essas soluções não vão em detrimento da solidez e da adequação ao fim que se persegue. Por outro lado, a existência de uma Regra comum por que se regem todas as casas e a estreita dependência das novas fundações em relação à casa matriz de onde saíram os monges fundadores sentam as bases de uma uniformidade extremamente característica. A novidade técnica fundamental reside no sistema de abobadamento, que influi, como já foi dito, em paredes e suportes. Utiliza-se a abóbada de berço agudo, que determina o freqüente traçado de arcos do mesmo tipo e o progressivo desaparecimento do arco de meio ponto românico. Este arco agudo costuma apresentar-se dobrado, de grande solidez, quando muito decorado com grossas molduras ou motivos geométricos (dentes de serra). Do mesmo modo, utiliza-se sistematicamente a partir de 1180 a abóbada de ogivas, que, ao concentrar os empuxos nos ângulos, permite construir paredes mais leves, feitas às vezes com lajes, silhares ou materiais de pouco peso, como se faz habitualmente no casco da abóbada. No que se refere ao suporte, é habitual a disposição do pilar com colunas adossadas que não chegam ao chão, mas se embutem no núcleo do pilar. As paredes reforçam-se com contrafortes, que adquirem o perfil escalonado, mais largos e altos do que os românicos, e que na parte superior têm cornijas oblíquas ou escorredouros de água. A iluminação interior obtém-se através dos rasgados janelões, os rosetões na fachada do cruzeiro e na fachada, e a disposição de um zimbório sobre o cruzeiro; observa-se também a tendência para caiar os interiores, com o conseqüente aumento da luminosidade. Por último, deve-se assinalar a substituição da torre do campanário por um simples campanário, com os correspondentes buracos para os sinos, escadaria por detrás e remate de duas águas. O mosteiro cisterciense configura um tipo que se repete com certa uniformidade embora, como é lógico, as influências locais determinem algumas variantes. O modelo que serve de base consta de uma igreja de três naves, mais larga e alta a central, cruzeiro com zimbório e cabeceira que em alguns casos, por arcaísmo, segue modelos românicos, mas que geralmente corresponde a dois tipos que imitam as soluções dadas nas casas-matriz de Cîteaux e Claraval: três ou cinco capelas retangulares, a central mais larga e profunda, que dão para o cruzeiro (Cîteaux), ou charola com coroa de capelas e outras, às vezes, nos extremos dos braços do cruzeiro (Claraval), modelo este menos utilizado pelo seu elevado custo. |
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| Mosteiro de
las Huegas - Segundo quartel do século XIII Burgos |
O mosteiro organiza-se em volta do claustro processional, que habitualmente se situa no lado meridional da igreja. Este claustro cisterciense distingue-se por organizar cada galeria em tramos cobertos com abóbadas de ogivas, que se abrem para o jardim mediante um arco agudo que, ao mesmo tempo, serve de enlace para os contrafortes que dão para o mesmo jardim. Para o claustro dá, na mesma direção que a capela-mor, a sala capitular; a ela acede-se por uma grande porta ladeada por outros dois vãos como janelas; distribui o seu espaço quadrado em nove tramos mediante quatro colunas ou pilares centrais. Também dão para o claustro o refeitório, a cozinha, a biblioteca, etc. No refeitório há um púlpito lateral para a leitura; resolve-se o problema de cobrir e iluminar convenientemente, uma grande nave ou espaço retangular, que em numerosos casos se obtém com o emprego da abóbada hexapartida - isto é, de cruzaria com um nervo transversal - , que permite abrir maior número de vãos nas paredes laterais. A cozinha, geralmente quadrada, com lareira central, fica junto ao refeitório, tal como o refeitório dos leigos. O mosteiro completa-se com os dormitórios e demais dependências para a vida monástica, assim como com a parte utilitária dedicada à exploração agrícola: silos, armazéns, quadras, etc. Todo o recinto é rodeado por um muro e abre-se a porta do convento formando ângulo com a da igreja, criando um adro ou pátio dianteiro que vai até à porta exterior e para onde dão os acessos à parte agrícola do mosteiro. Um dos traços fundamentais desta arquitetura monástica reside na eliminação de toda a decoração figurada, em particular a de caráter fantástico, contra a qual clamava S. Bernardo por considerá-la inútil, ocasião de irreverências, de esquecimento das Escrituras sagradas e de esbanjamentos supérfluos. Assim, as arquivoltas das portadas não se decoram, desaparecem os tímpanos com esculturas e os capitéis deixam-se lisos ou, quando muito, com decoração vegetal. Com singular uniformidade, os mosteiros cistercienses espalharam-se por toda a Europa. Na Espanha os modelos desta arquitetura vão-se escalonando a partir de 1140 - fundação de Fitero, por freiras de monjas de Morimond, segundo o modelo de cabeceira sem charola - e de 1141, em que os monges de Claraval fundam Osera, com charola. Entre os mosteiros que correspondem àquele primeiro modelo sem charola, o de Cîteaux, podem referir-se como mais representativos os de Fontenay, Frontfroide, Fossanova, Casamari, Meira, Oya, La Oliva, Las Huelgas de Burgos, Iranzu, Santes Creus e Santa Maria de Huerta, entre outros. O modelo de cabeceira com charola, como a grande abadia de Claraval, segue-se em Pontigny, Alcobaça, Veruela, Moreruela, Poblet, Osera, Carboeiro e Gradefes, entre os de uma lista que, como já foi dito, é muito mais curta. |
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O Gótico é, fundamentalmente, criação da França. Aí, na região banhada pelo Sena, na Île-de-France, conservam-se os mais primitivos e belos monumentos desta arquitetura que correspondem a uma longa série de ensaios e de progressos técnicos aparentemente insensíveis. Como em qualquer outro estilo há, por conseguinte, um obscuro período - de diversa duração conforme os países - durante o qual os edifícios apresentam um caráter misto, vislumbrando-se neles o Gótico só pelo emprego mais ou menos hábil de alguns dos seus elementos constitutivos. Entre os primeiros edifícios em que se usou a abóbada de cruzaria sistematicamente, e que pelo seu prestígio significou o fim da nova arquitetura, está a célebre abadia parisiense de Saint-Denis, que se reconstruiu sob a direção do abade Suger (1132/44). Restaurada depois, e destruida grande parte daquela reconstrução, restam hoje apenas algumas abóbadas de ogivas nos pés e na cabeceira do edifício atual. Pela mesma altura reconstrói-se também a catedral de Sens, que é a primeira catedral gótica conservada: três naves, cabeceira com charola, emprego de abóbadas hexapartidas - que leva a alternância de suportes pela diferente resistência que devem ter os pilares que deverão suportar o arranque dos arcos transversais e de cambota mais os cruzados, e os que só seguram os arcos transversais - , e reduzido trifório em vez de tribuna. As catedrais de Noyon, Senlis e Laon começam também nesta altura. Em 1163 o bispo Maurice de Sully dá início às obras da catedral de Notre-Dame de Paris, que será consagrada em l182 embora se continue a trabalhar nela até bem entrado o século XIII. Este magnífico templo significará o triunfo do Gótico. É de cinco naves, e a central, de 38,5 m de altura, é coberta com abóbadas hexapartidas, embora nos suportes se abandone a alternância. Conta com dupla charola e o cruzeiro não legível em planta, pelo que oferece o modelo denominado de planta de salão. Em alçado nota-se o desaparecimento da galeria sobre a tribuna, que tende a converter-se em trifório, ainda que em princípio a disposição de um pequeno rosetão debaixo das janelas e sobre os vãos da tribuna mantenha em esquema a divisão em quatro corpos como nas catedrais de Noyon e Laon. Muito característica é a fachada, terminada por volta de 1250, que aparece dividida em três ruas e três corpos com torres terminadas em terraço: é o seu traçado um dos melhores exemplos da racionalidade da arquitetura gótica. |
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Catedral de
Notre-Dame - 1163/82
Paris |
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Fachada da
Catedral de Notre-Dame -
Século XIII
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A primeira metade do século XIII assiste ao início das grandes catedrais que, com a de Paris, são as mais representativas do gótico francês e são consideradas como os monumentos clássicos do estilo. A este período corresponde o essencial da reconstrução da catedral de Chartres, depois do incêndio de l194, que, se bem que terminada em finais do primeiro terço do século XIII, só foi consagrada solenemente em 1260. É de três naves central de 37m de altura, - com pilares cantonados - isto é, com colunas adossadas nos eixos - e alternando os de seção cilíndrica e os poligonais, a nave central coberta com abóbadas barlongas, cruzeiro legível em planta também de três naves, cabeceira com dupla charola e capelas. Em alçado sobressai a amplitude das janelas com magníficos cristais, e igualmente a tendência para reduzir a tribuna, cuja função estrutural se substitui exteriormente pelos arcobotantes, enquanto no interior se dispõe uma estreita galeria como trifório. Repetindo na sua organização as formas essenciais da catedral de Chartres inicia-se em 1211 a construção da grande catedral de Reims, em que trabalham sucessivamente os arquitetos Jean de Orbais, Jean Le Loup, Gaucher de Reiius e Bernard de Soissons. Com os seus 150m de comprimento e 38 m de altura na nave central, é uma das mais grandiosas catedrais. Na sua magnífica fachada - já do terceiro quartel do século XIII - busca-se a impressão da unidade do conjunto, perdendo-se as claras divisões estruturais que víamos na de Notre-Dame de Paris. Em 1220 dá-se início, pela base do templo, à catedral de Amiens, dirigindo as obras o arquiteto Robert de Luzarches, a quem sucedem três anos depois Thomas de Cormont e depois seu filho Renaud. Mede 145m de coniprimento e 42,3m de altura na nave central, e tem um amplo cruzeiro de três naves e dupla charola com coroa de capelas, um conjunto que faz deste edifício talvez o mais impressionante da arquitetura gótica francesa. Em alçado é interessante a cabeceira pelo aparecimento do trifório-janelão, que acentua a graça e a luminosidade do interior. Em sua fachada reflete-se a influência do modelo de Paris, e serve de modelo intermédio relativamente à de Reims. A esta mesma época corresponde a catedral de Bourges, de cinco naves, com planta de salão - quer dizer, com cruzeiro saliente - e cabeceira com dupla charola. Esta oferece-nos, em alçado, uma curiosa disposição, com trifório também sobre as naves colaterais. Em 1254 consagrava-se a magnífica cabeceira da catedral de Le Mans, com charola organizada em tramos triangulares e trapezoidais e coroa de capelas, que mostra certas relações com a organização da cabeceira da catedral de Toledo. A meados do século XIII, com S. Luís, inicia-se na arquitetura francesa uma perceptível mudança de estilo que se relaciona sobretudo com as obras do arquiteto Pierre de Montereau ou de Montreuil, "flor perfeita de bons costumes, em vida doutor em pedra", segundo a sua inscrição funerária. A este arquiteto, que trabalhou na sobras da catedral de Paris, restaurando a cabeceira, e na reconstrução da igreja de Saint-Denis, deve-se especialmente a belíssiina Sainte-Chapelle parisiense (1245/48), construída para guardar as relíquias da Paixão enviadas a Luís IX pelo imperador bizantino. Nela triunfa a arquitetura diáfana ao suprimir praticamente as paredes e substituí-las por amplos janelões. É de dois corpos, o inferior dividido em três naves e o superior de uma só, em que se tornam mais finos e esbeltos os elementos arquitetônicos. |
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| Interior da nave superior da Sainte-Chapelle - 1245/48Vista para leste Pierre de Montreuil Paris |
| Esta tendência mantém-se na catedral de Troyes, em que se constrói um dos primeiros trifórios de clarabóia da arquitetura gótica francesa, e culmina na maravilhosa igreja de Saint-Urbain da mesma povoação. Neste templo, de fato, obra do arquiteto Jean Langlois que terminou a cabeceira por volta de 1266, a tentativa de adelgaçar as paredes, aligeirar os pilares e dar maior importância aos janelões alcança a sua solução mais avançada e perfeita, só superada, em projeto, pela cabeceira da catedral de Beauvais, acabada em 1272. Esta catedral, de 47,5m de altura na nave central, totalmente aberta por amplos janelões, teve que ser reconstruída depois de 1284, reforçando pilares e contrafortes, e substituindo as abóbadas barlongas por hexapartidas. As obras estiveram interrompidas até princípios do século XVI, quando Martin Chambiges trabalhou no cruzeiro. Depois, ein 1588, ergueu-se uma flecha de 153m de altura, proporcional à do edifício, que caiu em 1573. Apesar destas vicissitudes, a catedral de Beauvais exerceu extraordinária influência pela sua grande elegância e beleza. Nela, como em nenhuma outra, encontramos o espírito que anima as aéreas construções góticas, em que a leveza é a sua nota característica. |
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| Muralhas de Carcassone - Século XII/XVRestaurada por Viollet-Le-Duc no século XIX |
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| Palácio de Jacques Coeur - 1443/53Bourges |