sem
valor
sobre a obsolescência
da sociedade do trabalho e da mercadoria
Um zumbi assombra o mundo
Rall
O mundo volta a sorrir. A economia dá sinais de crescimento consistente. O
emprego, após três anos em baixa, começa a reagir na locomotiva do mundo. Os
analistas econômicos andam ocupados, explicando para a mídia que a recessão
acabou. Mas alguma coisa não bate com a alegre aparição desses simpáticos
senhores na tela de notícias. As bolsas de valores, que deveriam acompanhar
esse movimento ascendente da economia mundial, sinalizam um movimento em sentido
contrário, principalmente no terceiro mundo. O risco-país dispara e, na cor
rosada das gordas bochechas dos analistas, já dá para ver alguma palidez.
A primeira vista não deixa de ser estranho em plena retomada econômica o
"humor do mercado". Mercado onde não se busca mais produtos para
satisfazer necessidades, mas acumulam-se e vendem-se papéis de variados
formatos e valores. Os sinais, cada vez mais fortes, de que os juros nos EEUU
vão subir abalam a credibilidade dos retardatários. O capital, que vinha
abundantemente se oferecendo ao mundo dos pobres, volta rapidamente ao seu porto
seguro de suposto risco zero. A bolha financeira, expandida ao máximo, ameaça
um brusco movimento de contração em direção ao centro.
Vamos analisar mais de perto o que vem acontecendo. Todos devem lembrar o
estouro da bolha, três anos atrás, que atingiu em cheio as bolsas da Europa e
principalmente a dos Estados Unidos, levando consigo a chamada "new economy"
do ponto.com, que se dizia dotada de novos paradigmas de crescimento sem crise.
Declarando-se preocupado com a recessão, o governo Bush adotou como primeiras
medidas distribuir fartamente dólares, através de cortes generosos de
impostos, beneficiando principalmente os mais ricos. Por outro lado reduziu os
juros a quase zero e pôs em movimento o complexo industrial-militar para
produzir bombas e outros artefatos, ao declarar guerra ao Iraque.
O resultado disso foi que parte do capital financeiro, acomodado aos papéis do
governo americano, ao ser mal remunerado pelos baixos juros resolve dar uma
volta ao mundo. É o chamado excesso de liquidez que aporta nas bolsas do
terceiro mundo e as fazem subir de forma avassaladora, sem que a economia desse
qualquer sinal de geração de riqueza. Um dos exemplos é o Brasil: apesar do
crescimento negativo, a bolsa subiu 97% em 2003. Os títulos do governo, antes
desvalorizados, também tiveram o seu momento de glória.
Para que o capital se movimente mais à vontade, alguns indicadores foram
criados pelos fundos de investimentos como pista para os investidores. Um deles
é o chamado risco-país. Quando desce é a hora do assalto. Quando sobe é
melhor sair de baixo. O momento é de subida do risco-país no terceiro mundo
que ao se antecipar ao anunciado aumento dos juros pelo Fed, sinaliza para que
deixem o barco. Mas será que todos conseguem se salvar do naufrágio? Nesse
jogo se há ganhadores há também os perdedores. Os últimos geralmente são o
capital nativo e o médio e pequeno que, não dispondo dos mesmos recursos dos
mega-investidores, chegam atrasados nos botes salva-vidas. Esses capitais quando
saem, geralmente deixam, no rastro, um chão árido e um gosto amargo na boca
dos perdedores.
O aumento dos juros pelo Fed era uma certeza, a única dúvida: quando
ocorreria. Os déficits comerciais e orçamentários dos EEUU devem
ultrapassar 1 trilhão de dólares este ano de 2004. O governo americano
precisa desesperadamente de recursos financeiros para fechar suas contas e a
melhor forma para tê-los de volta é remunerá-los melhor. Porém, era de se
esperar que as bolsas dos assim chamados países desenvolvidos, com o
aquecimento da economia mundial, mantivessem seu vigor. Não é o que estamos
vendo. Parece que o estouro da bolha, que teve início no segundo semestre de
2000, foi interrompida no início de 2003, com as medidas tomadas pelo governo
americano que despejou no mercado uma enorme quantidade de dinheiro. Esse
capital, não tendo como se reproduzir, vai em parte para o consumo, gerando no
mercado imobiliário mais uma bolha, e em parte para a especulação nas bolsas,
já que os papéis americanos, com os juros baixos, não são atrativos.
O indicativo de que a bolha financeira retomou sua expansão nas bolsas
americanas é que a relação entre preços e lucros (relação P/L) das ações
negociadas atualmente está bem acima da média histórica, situação muito
semelhante aos primeiros meses do ano 2000 quando o capital fictício atingiu o
topo e logo em seguida as bolsas começaram a despencar. O aumento dos juros e a
corrida do capital para se abrigar nos papéis americanos, depois de se expandir
artificialmente em outros mercados, pode ser o gatilho para um novo estouro das
bolhas nos países "desenvolvidos" e "em desenvolvimento", o
que pode mergulhar o mundo numa crise sem precedentes.
E o crescimento da economia americana? Cabe aqui analisar se esse crescimento é
sustentável, como defendem os arautos do capital. Como já foi dito, a farta
distribuição de dólares com os cortes nos impostos e juros subsidiados, algum
impacto causaria. O movimento da colossal máquina militar americana com a
guerra no Afeganistão e no Iraque tem intensificado as atividades da indústria
bélica como há muito não se via. Parte significativa do crescimento do PIB
como também a geração de empregos deveu-se ao esforço de guerra. Se por um
lado isso mobiliza a economia é bom lembrar que armas, bombas, equipamentos
militares de um modo geral e homens para manuseá-los, destruí-los e serem
destruídos, apesar de aparecerem na indústria bélica como produção, para o
governo são contabilizados como custos. E custos que aumentam ainda mais o
déficit orçamentário, que por sua vez exige recursos de algum lugar para
cobrir o rombo.
O desequilíbrio nas contas americanas, sem solução à vista mesmo com a
redução do valor do dólar em relação às moedas européias e japonesas,
pode trazer inflação, pressionando mais ainda os juros. O câmbio
flutuante, ao beneficiar os produtos americanos no mercado mundial, tem acirrado
a concorrência e impulsionado a produtividade com incorporação de novas
tecnologias e a destruição de postos de trabalho. Na esperança de que a
grande locomotiva não pare e continue puxando o resto do mundo, muitos países
são obrigados a pagarem as contas do déficit americano.
Qual a repercussão disso no Brasil, com contas a pagar em dólar, que vai dos
royalties aos serviços da dívida externas, e com uma boa parte da dívida
interna indexada à moeda norte-americana, crucial para garantir a entrada de
novos capitais? Apesar da melhora da situação da balança comercial, que
passou a ser superavitária, a dependência do Brasil desses capitais é enorme.
Com a bolsa em baixa e os investimentos produtivos vacilantes, a única forma de
garantir o fluxo de capital de curto prazo é manter os juros nas alturas. O
investidor externo, de olho no risco-país, exige juros proporcionais. Portanto,
a crise na bolsa pode interromper o tímido declínio que vinha sendo observado
nos patamares astronômicos dos juros, com repercussões na combalida atividade
econômica.
O discurso de setores da esquerda de não-pagamento da dívida externa, apesar
de correto, erra no seu objetivo ao acreditar que o dinheiro destinado à
amortização e aos juros poderia ser investido internamente, garantindo
crescimento econômico e melhoras sociais. Uma reivindicação como essa só
poderia ter alguma envergadura se envolvesse todos os países endividados.
Medidas isoladas ou meias medidas despertariam a fúria do capital global e
fariam o país descer pelo ralo. Segundo, o não-pagamento da dívida não seria
a garantia de um surto de crescimento econômico e criação de empregos.
Poderia sobrar alguns trocados para o execrável fome zero. Mas, o mais
provável seria um aprofundamento da crise do capitalismo, exigindo novas
saídas.
Hoje o mundo é totalmente dependente do capital internacionalizado para
qualquer investimento. O chamado capital nacional é uma ficção. O problema é
que o capital não tem mais como se reproduzir na economia "real". Seu
destino é girar em falso, sem rumo como um zumbi, produzindo bolhas financeiras
aqui e acolá, simulando acumulação. É a forma que encontrou de se manter
morto-vivo na sociedade do trabalho em crise.