sem
valor
sobre a obsolescência
da sociedade do trabalho e da mercadoria
CAPITALISMO GENÉTICO
Qual o valor da vida?
Daniel Cunha
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(03.10.2003)
A última polêmica no Brasil são os transgênicos. Produtores que plantaram ilegalmente soja transgênica reivindicam a liberação da safra, enquanto os ambientalistas tentam resistir. O argumento mais utilizado a favor da liberação é que "não há provas de que os transgênicos tragam malefícios à saúde humana". Argumento falacioso, que pode ser facilmente rebatido fazendo-se uso da lógica elementar: ausência de provas de malefícios não é prova de ausência de malefícios. Há casos em que o que foi considerado seguro transformou-se em pesadelo, vide o remédio Talidomida.
Então, por que a pressa? Por que, afinal, os produtores resolveram plantar soja transgênica, sabendo inclusive que era ilegal, fazendo uso inclusive de contrabando, arriscando-se a perder a safra? A resposta é simples: produtividade. Em uma sociedade regida pela lei tautológica da valorização do valor, da transformação de dinheiro em mais dinheiro, é inevitável que aquilo que é mais lucrativo prevaleça. Críticas moralistas a esse respeito são inócuas e ingênuas. Qualquer crítica ambientalista que se pretenda séria deve fazer menção ao capitalismo, ao fetiche da mercadoria, ao valor de troca.
Pois o valor de troca, que está no coração do processo de valorização capitalista, é insensível, abstrato: 100 dólares ganhos vendendo soja transgênica são iguais a 100 dólares ganhos vendendo automóveis, que são iguais a 100 dólares ganhos vendendo armas para matar crianças iraquianas, que são iguais a 100 dólares ganhos vendendo madeira da Amazônia. Não há considerações qualitativas no valor de troca. Pouco importa se o cultivo de transgênicos agride o meio ambiente, caso a sua rentabilidade seja maior. Guy Debord nunca foi tão atual: o "devir-mundo da mercadoria é o devir-mercadoria do mundo"; "a economia transforma o mundo, mas o transforma apenas em mundo da economia". Nem o código genético dos seres vivos escapa a esta colonização.
Enquanto a humanidade não atacar de frente a sociabilização baseada na mercadoria, na valorização tautológica do valor, os fundamentos da vida continuarão a ser destruídos. Pois, para usar termos biológicos, o capitalismo possui o gene da destruição: como o "crescimento econômico" abstrato é um imperativo de sua lógica, a destruição dos recursos naturais é infinita, mesmo que seja em atividades cujo único sentido é a própria atividade; o que importa é que a roda continue girando, revalorizando o valor. A crítica ambientalista é indissociável da crítica social. Aquele que fala de ecologia e meio ambiente sem se referir explicitamente ao que há de mortal no capitalismo e no valor de troca, este tem na boca o cadáver da natureza.