sem
valor
sobre a obsolescência
da sociedade do trabalho e da mercadoria
HENRY DAVID THOREAU
(excertos de Walden, 1854)
É um prazer falar de algo que diz respeito mais a vós que ledes estas páginas e viveis na Nova Inglaterra, do que aos chineses ou aos habitantes das ilhas Sandwich; algo sobre a vossa situação, em especial o vosso ambiente ou circunstâncias neste mundo, nesta cidade, o que está aí, se é necessário que seja tão ruim quanto é, se pode ou não ser melhorado. Tenho andado muito por Concord, e em toda parte, lojas, escritórios e campos, os habitantes me parecem estar fazendo penitência de mil maneiras extraordinárias. O que ouvi dizer dos brâmanes sentados entre quatro fogos a encararo sol, ou suspensos de cabeças para baixo sobre as chamas, ou fitando os céus por cima dos ombros "até que se tornasse impossível retormarem suas posturas normais, enquanto devido à torção do pescoço só líquidos podiam entrar no estômago"; ou morando ao pé de uma árvore algemados para sempre; ou feito lagartas, medindo com seus corpos a extensão de vastos impérios; ou ainda erguendo-se sobre uma perna no alto de pilares - mesmo essas formas de penitência intencional a custo são mais inacreditáveis e estarrecedoras do que as cenas que presencio diariamente. Os doze trabalhos de Hércules eram ninharias comparados com os que vizinhos meus têm empreendido, porque aqueles eram apenas doze e tiveram um fim, ao passo que eu nunca pude ver esses homens matarem ou capturarem monstro algum, nem sequer acabarem qualquer trabalho. Além disso não tem um amigo como Iolas para queimar com ferro em brasa a raiz da cabeça de Hydra; pelo contráio, mal uma cabeça é esmagada, duas brotam.
Vejo rapazes, concidadãos meus, cuja má sorte é terem herdado fazendas, casas, celeiro, gado e instrumentos agrícolas, porque essas coisas é mais fácil adquiri-las do que descartar-se delas. Melhor seria se tivessem nascido em pasto aberto e sido amamentados por uma loba a fim de que pudessem enxergar melhor a terra a que foram chamados a cultivar. Quem os fez servos do solo? Por que comeriam de seus vinte e quatro hectares quando o homem está condenado a comer apenas a porção de seu barro? Por que começariam a cavar seus túmulos logo que nascem? Têm é que viver a vida, deixando todas essas coisas para trás e continuando o melhor que puderem. Quantas pobres almas mortais já não encontrei esmagadas e sufocadas sob suas cargas, rastejando e empurrando pela estrada da vida afora celeiros de vinte e cinco metros por quinze, com seus estábulos de Augias nunca limpos, mais de quarenta hectares de terra para amanho, sega, pastagem, sem falar nos bosques! Quem nada possui não luta contra os encargos desnecessários herdados e já considera bastante a tarefa de sujeitar e cultivar seu quinhão de carne.
Contudo os homens trabalham à sombra de um erro, lançando ao solo para adubo o que têm de melhor. Por uma sina ilusória, vulgarmente chamada necessidade, desgastam-se, como se diz num velho livro, a amontoar tesouros que a traça e a ferrugem estragarão e que surgem ladrões para roubar. É uma vida de imbecis, como perceberão ao fim dela, se não antes. Diz-se que Deucalião e Pirra gerarm homens atirando pedra para trás, por cima de suas cabeças:
Inde genus durum sumus, experiensque laborum,
Et documenta damus quâ simus origine nati.
Ou, como verseja Raleigh a seu jeito sonoro:
Daí sermos raça de coração encouraçado
suportando sofrimentos e cuidados
comprovando a natureza de pedra
em que nossos corpos foram talhados
Tanto transtorno por causa da obediência cega a um desatinado oráculo, ao atirar pedras para trás, por cima das cabeças, sem prestar atenção aonda caíam.
Por simples ignorância e equívoco, muita gente, mesmo neste país relativamente livre, se deixa absorver de tal modo por preocupações artificiais e tarefas superfluamente ásperas, que não pode colher os frutos mais saborosos da vida. A excessiva lida torna-lhe os dedos demasiado trêmulos e desajeitados para isso. Na realidade, o trabalhador não dispõe de lazer para um genuína integridade dia a dia, nem se pode permitir a manutenção de relações mais humanas com outros homens, pois seu trabalho seria depreciado no mercado. Não há condições para que seja outra coisa senão uma máquina. Como pode ele ter em mente a sua ignorância - atitude indispensável ao crescimento interior - quando tem de usar seus conhecimentos com tanta freqüência? Às vezes, antes de julgá-lo, deveríamos dar-lhe roupa e comida, além de chamá-lo para beber conosco. As qualidade mais requintadas de nossa natureza, feito a pelúcia de certos frutos, só podem ser preservadas pelo manuseio delicado. E contudo, não nos tratamos assim eternamente, nem a nós mesmos, nem aos outros.