sem
valor
sobre a obsolescência
da sociedade do trabalho e da mercadoria
"Entrar para uma fábrica têxtil ou qualquer outra aos 5 anos de idade e sentar lá todos os dias, primeiro 10, depois 12 e finalmente 14 horas por dia, fazendo sempre o mesmo trabalho mecânico, é pagar muito caro pelo prazer de respirar"
Arthur Schoppenhauer, O mundo como vontade e representação, 1818
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De: Claudio R. Duarte
Data: 09.03.2004
Colegas, segue uma bonita frase de Schoppenhauer para a memória social contra o trabalho... (www.semvalor.cjb.net)
"Entrar para uma fábrica têxtil ou qualquer outra aos 5 anos de idade e sentar lá todos os dias, primeiro 10, depois 12 e finalmente 14 horas por dia, fazendo sempre o mesmo trabalho mecânico, é pagar muito caro pelo prazer de respirar", Arthur Schoppenhauer, O mundo como vontade e representação, 1818.
De: Juca
Data: 09.03.2004
Claudio e demais Essa frase do Schoppenhauer critica o trabalho só enquanto quantidade (trabalhar desde criança o dia inteiro). Qualquer político, de direita ou de esquerda, repete essa frase em todas as suas campanhas eleitorais. Porque todos são à favor da “boa medida” e jamais contra o trabalho enquanto tal. Ou seja, a frase é muito fraca e vai cagar a nossa página. Portanto sou absolutamente contrário à sua colocação na página. O que vocês acham?
Abraços
Juca
De: Claudio R. Duarte
Data: 09.03.2004
Desculpe Juca, não tinha percebido esse aspecto. Você está completamente
certo. Quando a mandei tinha pensado no aspecto fenomenológico da verdade, isto
é, Schoppenhauer guarda-nos a memória de uma fase da industrialização sangrenta.
É assim também que ele não propõe uma saída relativa dessa condição (diminuir
o trabalho), mas questiona a própria razão de viver num mundo assim, beirando
o suicídio. Por isso gosto da frase, mas não acho ela boa pra página.
abraço,
Cláudio
De: Juca
Data: 09.03.2004
Claudio e demais
Por favor, não se desculpe, pois não estou dizendo que existem culpados seja lá do que for. Eu só critiquei a proposta, nada mais.
Talvez haja mesmo na frase esse aspecto fenomenológico que você disse. Só que eu não consigo encontrá-lo porque tal como a frase está (“é melhor morrer do que trabalhar o dia inteiro desde criancinha”), ela não permite uma autosuperação conteitual, pelo contrário, ela leva à estagnação do entendimento. Tanto isso é verdade que desde sempre (inclusive quando Shoppenhauer disse essa frase), ela é tomada como uma verdade que se basta a si mesma, sendo mais uma frase do catálogo de verdades lado-a-lado umas das outras do entendimento. O entendimento, como sabemos, vê a necessidade de trabalho como uma verdade eterna que se sustenta por si mesma, ao mesmo tempo que vê a necessidade de lazer como outra verdade eterna que se sustenta por si mesma (estas duas “verdades” estão exteriormente “lado-a-lado” uma da outra e são unificadas mecanicamente pelo entendimento, enquanto exteriores, em uma outra “verdade” “mais” eterna, seja “deus”, “natureza”, “forças produtivas”, “espírito absoluto”, “essência do homem”, “primeiro motor”...). O entendimento é incapaz de compreender a negatividade, o autosurgimento e o autodesaparecimento necessários das verdades, ele se contenta em congelar a realidade e eternizá-la. Por isto, o movimento social que ele vê e incentiva é sempre a “justa medida” da mecânica (os mecanismos existentes lado-a-lado devem estar ajustados nem com excesso e nem com falta para que eles funcionem), no caso da frase de Shoppenhauer, a “justa medida” entre trabalho e lazer, como categorias a-históricas, e cuja falta de possibilidade de “meio termo” é sentida como necessidade de suicídio.
Desculpe eu ter me estendido tanto, mas eu só consegui exprimir esse conceito assim. Valeu?
Abraços
Juca
De: Claudio R. Duarte
Data: 09.03.2004
Juca,
Gostei do que escreveu sobre Schoppenhauer. Valeu pelo diálogo. Realmente é uma frase do entendimento. Ele não vê auto-superação, não há saída do negativo. Mas justamente aí vejo algo de uma dialética negativa. Por isso os frankfurtianos gostavam de Schoppenhauer. Não há para mim a busca conciliatória, tipicamente hegeliana, de uma justa medida entre lazer e trabalho, há sim o questionamento em bloco da racionalidade do mundo existente (que para ele é governado pela Vontade metafísica). Entendimento sim. Mas o entendimento coloca muitos vezes a Razão idealista (que pretende resolver todos os conflitos no tempo) em apuros, ridicularizando-a às vezes, desvelando o beco sem saída das aporias reais da história, limitando-a de forma materialista. O suicídio não seria justa medida aliás, porque para Schoppenhauer isso seria se identificar com a Vontade Cega... o suicídio não é solução, mas apenas a música, a arte... uma ideologia estética portanto, mas isso já é muito pano pra manga de nossa pequena e pontual discussão...
(...)
um abraço,
Claudio
De: Juca
Data: 09.03.2004
Claudio e demais
Eu não tinha siquer imaginado esse aspecto negativo radical da frase do Shoppenhauer. Valeu por mostrá-lo. Na verdade, nunca li nada do Shoppenhauer. É, rapá, tenho que ler mais...
(...)
Abraços
Juca