sem valor
sobre a obsolescência da sociedade do trabalho e da mercadoria

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A MIRAGEM DO CRESCIMENTO ECONÔMICO

Rall

Os analistas econômicos têm saudado nas últimas semanas o "vigor" da recuperação americana. Todos indicadores analisados por essas figuras são positivos, sendo exceção a criação de novos postos de trabalho. Como a economia americana é a grande locomotiva, presume-se que os vagões europeus e asiáticos começam a decolar, puxando o resto da economia mundial. Por outro lado, esses mesmos analistas dizem que a Europa anda resmungando pelos cantos contra a política americana de desvalorização do dólar para aumentar as exportações e reduzir a ociosidade da sua indústria. Dizem que a inversão de papéis dos EUA, de grande sorvedouro de mercadorias e capitais de todo o mundo para país exportador, levará, fatalmente, à retração econômica da Europa e da Ásia, com conseqüências imprevisíveis para os demais Continentes. Para complicar ainda mais, fala-se que o imenso déficit externo dos EUA só pode ser coberto com os fluxos de capitais advindos dos superávits das exportações européias e asiáticas, que de quebra ajudam a inflar a bolha de ações, imóveis e títulos, alimentando o efeito riqueza e o mercado interno americano.

Desse imbróglio podemos tirar algumas conclusões. Se a indústria americana de bens de consumo encontra-se ociosa e carente de novos investimentos apesar dos enormes subsídios governamentais, o aumento das exportações e o crescimento da industria armamentista em torno de 45% com a guerra do Iraque aparentemente são os responsáveis pelo crescimento da economia americana nos últimos trimestres. Talvez, nesse momento, o consumo interno não tenha o papel que lhes querem atribuir alguns desses analistas, e um indicador importante para isso é que as taxas de emprego continuam de ladeira abaixo. Uma outra questão: o consumo americano, sustentado pelo capital fictício, depende, em grande parte, dos fluxos de capitais europeus e principalmente asiáticos, utilizados nas compras de notas do tesouro e outros ativos. Ora, uma redução dos superávits dessas regiões em função do aumento das exportações e redução das importações pelo EUA, inibe os fluxos desses capitais e, conseqüentemente, os gastos dos consumidores, repercutindo negativamente na situação interna americana e na cobertura do déficit comercial. Quando se mexe de um lado o desequilíbrio esparrama-se para os outros, rápida e perigosamente. Limitando uma fonte importante de combustível do consumo interno e de equilíbrio nas contas, a locomotiva americana pode parar bruscamente. Os vagões europeus e asiáticos, emperrados há um bom tempo, sentirão o tranco e correm o risco de sair dos trilhos.

Na busca de um crescimento a qualquer preço e com a proximidade das eleições, o governo dos Estados Unidos tem pressionado fortemente Pequim e outros países para que tomem medidas que possam valorizar suas moedas, reduzindo com isso as exportações para o mercado americano. O obstáculo está no fato de que a quase totalidade das empresas exportadoras instaladas na China são americanas e japonesas que "terceirizaram" parte de sua produção pelo mundo afora como política de redução de custos, forçadas a isso pela predadora concorrência global. Medidas como essas poderiam afetar os capitais que daí estão fluindo para ativos americanos, agravando mais ainda a situação interna e a administração do déficit comercial.

Fala-se em profundo endividamento das famílias e das empresas estadunidenses. A circunstância em que se encontra o governo, que para cobrir o déficit fiscal do setor público de mais 4%, resultante dos cortes de impostos beneficiando os ricos, da freada na economia e dos gastos para movimentar a colossal máquina de guerra, deve elevar o endividamento aos céus. Li recentemente um resumo do estudo de um economista norte- americano, que mostra que os preços das ações estão bem acima dos lucros e que a relação histórica preço/lucro era de 14 para 1 para as 500 maiores empresas americanas. Em 2003 a média dessa relação atingiu 33 para 1, chegando a mais de 180 para 1 em algumas empresas mais audaciosas. Ou seja, a bolha financeira continua se expandindo tanto quanto o Universo, inflada pela crise do valor. O que até agora vazou do seu conteúdo etéreo com a queda das ações, foi uma simples brisa do capital fictício. Haverá choros e ranger de dentes quando, em sua contração, os ventos ao escaparem da bolha atingirem a velocidade dos tufões, desmanchando tudo que na terra ou no mar encontrava-se aparentemente sólido.

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