sem valor
sobre a obsolescência da sociedade do trabalho e da mercadoria

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O DIREITO À PREGUIÇA

Paul Lafargue
1880

INTRODU��O

O Sr. Thiers, no seio da Comiss�o sobre a Instru��o Prim�ria de 1849, dizia: "Quero tornar a influ�ncia do clero todo-poderosa, porque conto com ele para propagar esta boa filosofia que ensina ao homem que ele veio a este mundo para sofrer e n�o aquela outra filosofia que, pelo contr�rio, diz ao homem: �Goza�." O Sr. Thiers formulava a moral da classe burguesa cujo ego�smo feroz e intelig�ncia estreita encarnou.

A burguesia, quando lutava contra a nobreza, apoiada pelo clero, arvorou o livre exame e o ate�smo; mas, triunfante, mudou de tom e de comportamento e hoje conta apoiar na religi�o a sua supremacia econ�mica e pol�tica. Nos s�culos XV e XVI, tinha alegremente retomado a tradi��o pag� e glorificava a carne e as suas paix�es, que eram reprovadas pelo cristianismo; atualmente, cumulada de bens e de prazeres, renega os ensinamentos dos seus pensadores, os Rabelais, os Diderot, e prega a abstin�ncia aos assalariados. A moral capitalista, lament�vel par�dia da moral crist�, fulmina com o an�tema o corpo trabalhador; toma como ideal reduzir o produtor ao m�nimo mais restrito de necessidades, suprimir as suas alegrias e as suas paix�es e conden�-lo ao papel de m�quina entregando trabalho sem tr�guas nem piedade.

Os socialistas revolucion�rios t�m de recome�ar o combate que os fil�sofos e os panflet�rios da burguesia j� travaram; t�m de atacar a moral e as teorias sociais do capitalismo; t�m de demolir, nas cabe�as da classe chamada � a��o, os preconceitos semeados pela classe reinante; t�m de proclamar, no rosto dos hip�critas de todas as morais, que a terra deixar� de ser o vale de l�grimas do trabalhador: que, na sociedade comunista do futuro que fundaremos "pacificamente se poss�vel, sen�o violentamente", as paix�es dos homens ter�o r�dea curta, porque "todas s�o boas pela sua natureza, apenas temos de evitar a sua m� utiliza��o e os seus excessos" (1), e s� ser�o evitadas pelo seu m�tuo contrabalan�ar, pelo desenvolvimento harm�nico do organismo humano, porque, diz o Dr. Beddoe, "s� quando uma ra�a atinge o seu ponto m�ximo de desenvolvimento f�sico � que ela atinge o seu mais elevado n�vel de energia e de vigor moral". Era esta tamb�m a opini�o do grande naturista Charles Darwin (2)

A refuta��o do direito ao trabalho, que reedito com algumas notas adicionais, foi publicado no seman�rio L'Egalit� de 1880, segunda parte.

Pris�o de Sainte-P�lagie, 1883.P. L.

NOTAS:
(1) Descartes, As Paix�es da Alma.

(2) Doutor Beddoe, Memoirs of the Anthropological Society; Ch. Darwin, Descent of man.

 

I - UM DOGMA DESASTROSO

"Sejamos pregui�osos em tudo, exceto em amar e em beber, exceto em sermos pregui�osos." LESSING

Uma estranha loucura se apossou das classes oper�rias das na��es onde reina a civiliza��o capitalista. Esta loucura arrasta consigo mis�rias individuais e sociais que h� dois s�culos torturam a triste humanidade. Esta loucura � o amor ao trabalho, a paix�o moribunda do trabalho, levado at� ao esgotamento das for�as vitais do indiv�duo e da sua progenitora. Em vez de reagir contra esta aberra��o mental, os padres, os economistas, os moralistas sacrossantificaram o trabalho. Homens cegos e limitados, quiseram ser mais s�bios do que o seu Deus; homens fracos e desprez�veis, quiseram reabilitar aquilo que o seu Deus amaldi�oara. Eu, que n�o confesso ser crist�o, economista e moralista, recuso admitir os seus ju�zos como os do seu Deus; recuso admitir os serm�es da sua moral religiosa, econ�mica, livre-pensadora, face �s terr�veis conseq��ncias do trabalho na sociedade capitalista.

Na sociedade capitalista, o trabalho � a causa de toda a degeneresc�ncia intelectual, de toda a deforma��o org�nica. Comparem o puro-sangue das cavalari�as de Rothschild, servido por uma criadagem de b�manos, com a pesada besta das quintas normandas que lavra a terra, carrega o estrume, que p�e no celeiro a colheita dos cereais. Olhem para o nobre selvagem, que os mission�rios do com�rcio e os comerciantes da religi�o ainda n�o corromperam com o cristianismo, com a s�filis e o dogma do trabalho, e olhem em seguida para os nossos miser�veis criados de m�quinas (1)

Quando, na nossa Europa civilizada, se quer encontrar um tra�o de beleza nativa do homem, � preciso ir procur�-lo nas na��es onde os preconceitos econ�micos ainda n�o desenraizaram o �dio ao trabalho. A Espanha, que infelizmente degenera, ainda se pode gabar de possuir menos f�bricas do que n�s pris�es e casernas; mas o artista regozija-se ao admirar o ousado Andaluz, moreno como as castanhas, direito e flex�vel como uma haste de a�o; e o cora��o do homem sobressalta-se ao ouvir o mendigo, soberbamente envolvido na sua capa esburacada, chamar amigo aos duques de Ossuna. Para o Espanhol, em cujo pa�s o animal primitivo n�o est� atrofiado, o trabalho � a pior das escravaturas (2) Os Gregos da grande �poca tamb�m s� tinham desprezo pelo trabalho: s� aos escravos era permitido trabalhar, o homem livre s� conhecia os exerc�cios f�sicos e os jogos da intelig�ncia. Tamb�m era a �poca em que se caminhava e se respirava num povo de Arist�teles, de F�dias, de Arist�fanes; era a �poca em que um punhado de bravos esmagava em Maratona as hordas da �sia que Alexandre ia dentro em breve conquistar. Os fil�sofos da antig�idade ensinavam o desprezo pelo trabalho, essa degrada��o do homem livre; os poetas cantavam a pregui�a, esse presente dos Deuses:

O Meliboe, Deus nobis hoec otia fecit (3)

Cristo pregou a pregui�a no seu serm�o na montanha:
"Contemplai o crescimento dos l�rios dos campos, eles n�o trabalham nem fiam e, todavia, digo-vos, Salom�o, em toda a sua gl�ria, n�o se vestiu com maior brilho." (4)
Jeov�, o deus barbudo e rebarbativo, deu aos seus adoradores o exemplo supremo da pregui�a ideal; depois de seis dias de trabalho, repousou para a eternidade.

Em contrapartida, quais s�o as ra�as para quem o trabalho � uma necessidade org�nica? Os "Auvergnats"; os Escoceses, esses "Auvergnats" das ilhas brit�nicas; os Galegos, esses "Auvergnats" da Espanha; os Pomeranianos, esses "Auvergnats" da Alemanha; os Chineses, esses "Auvergnats" da �sia. Na nossa sociedade, quais s�o as classes que amam o trabalho pelo trabalho? Os camponeses propriet�rios, os pequeno-burgueses, uns curvados sobre as suas terras, os outros retidos pelo h�bito nas suas lojas, mexem-se como a toupeira na sua galeria subterr�nea e nunca se endireitam para olhar com vagar para a natureza.

E, no entanto, o proletariado, a grande classe que engloba todos os produtores das na��es civilizadas, a classe que, ao emancipar-se, emancipar� a humanidade do trabalho servil e far� do animal humano um ser livre, o proletariado, traindo os seus instintos, esquecendo-se da sua miss�o hist�rica, deixou-se perverter pelo dogma do trabalho. Rude e terr�vel foi a sua puni��o. Todas as mis�rias individuais e sociais mereceram da sua paix�o pelo trabalho.

NOTAS:
(1) Os exploradores europeus param espantados diante da beleza f�sica e da atitude orgulhosa dos homens das tribos n�mades primitivas, n�o manchadas pelo que Paeppig chamava o "bafo envenenado da civiliza��o". Ao falar dos abor�genes das ilhas da Oceania, lord George Champbell escreve: "No mundo n�o h� povo que impressione mais � primeira vista. A sua pele lisa e de um tom ligeiramente acobreado, os seus cabelos louros e ondulados, o seu belo e alegre rosto, numa palavra, toda a sua pessoa formava uma nova e espl�ndida amostra do genus homo; o seu aspecto f�sico dava a impress�o de uma ra�a superior � nossa." Os civilizados da Roma antiga, os C�sares, os T�citos, contemplavam com a mesma admira��o os germanos das tribos comunistas que invadiam o Imp�rio Romano. - Tal como T�cito, Salviano, o padre do s�culo V, a que chamaram o mestre dos bispos, apresentava os b�rbaros como exemplo aos civilizados e aos crist�os: "Somos impudicos no meio do b�rbaros, que s�o mais castos do que n�s. Mais do que isso, os b�rbaros ficam magoados com a nossa lasc�via, os Godos n�o suportam que haja entre eles debochados da sua na��o; entre eles, s� os Romanos, pelo triste privil�gio da sua nacionalidade e do seu nome, t�m o direito de serem impuros. [A pederastia estava ent�o em grande moda entre os pag�os e os crist�os...] Os oprimidos v�o para junto dos b�rbaros procurar a humanidade e um abrigo" (De Gubernatione Dei). - A velha civiliza��o e o cristianismo nascente corromperam os b�rbaros do velho mundo, tal como o cristianismo envelhecido e a moderna civiliza��o capitalista corrompem os selvagens do novo mundo. O Sr. F. le Play, cujo talento de observador devemos reconhecer, mesmo quando se repelem as suas conclus�es sociol�gicas, manchadas de prudhomismo filantr�pico e crist�o, diz no seu livro Les Ouvriers europ�ens ("Os Oper�rios Europeus") (1885): "A propens�o dos Bachkires para a pregui�a [os Bachkires s�o pastores semin�mades da vertente asi�tica dos Urais], as distra��es da vida n�made, os h�bitos de medita��o que fazem nascer nos indiv�duos mais dotados comunicam por vezes a estes uma distin��o de maneiras, uma subtileza de intelig�ncia e de Ju�zo que raramente se notam no mesmo n�vel social numa civiliza��o mais desenvolvida... O que mais lhes repugna s�o os trabalhos agr�colas; fazem tudo exceto aceitar a profiss�o de agricultor." De fato, a agricultura � a primeira manifesta��o do trabalho servil na humanidade. Segundo a tradi��o b�blica, o primeiro criminoso, Caim, � um agricultor.


(2) O prov�rbio espanhol diz: Descansar es salud (Descansar � sa�de).
(3) � Melibeu, um Deus deu-nos esta ociosidade. Virg�lio, Bucolicas (Ver ap�ndice).
(4) Evangelho segundo S�o Mateus, cap. VI.

 

II- B�N��OS DO TRABALHO

Em 1770 apareceu em Londres um escrito an�nimo intitulado: An Essay on Trade and Commerce (1). Fez na �poca um certo barulho. O seu autor, grande filantropo, indignava-se pelo fato de a plebe manufatureira da Inglaterra ter metido na cabe�a a id�ia fixa de que na qualidade de Ingleses todos os indiv�duos que a compunham terem, por direito de nascimento, o privil�gio de serem mais livres e mais independentes do que os oper�rios de qualquer outro pa�s da Europa. Esta id�ia pode ter a sua utilidade para os soldados cuja bravura estimula, mas quanto menos os oper�rios das manufaturas dela estiverem imbu�dos, tanto melhor para eles pr�prios e para o Estado. Os oper�rios nunca deveriam considerar-se independentes dos seus superiores. � extremamente perigoso encorajar semelhantes manias num Estado comercial como o nosso, onde talvez sete oitavos da popula��o tenham pouca ou nenhuma propriedade. A cura n�o ser� completa enquanto os nossos pobres da ind�stria n�o se resignarem a trabalhar seis dias pela mesma soma que eles ganham agora em quatro".

Assim, cerca de um s�culo antes de Guizot, pregava-se abertamente em Londres o trabalho como um trav�o �s nobres paix�es do homem.

"Quanto mais os meus povos trabalharem, menos v�cios existir�o, escrevia Napole�o de Osterode no dia 5 de Maio de 1807. Eu sou a autoridade [...] e estaria disposto a ordenar que ao domingo, passada a hora dos of�cios divinos, as lojas estivessem abertas e os oper�rios fossem para o seu trabalho."

Para extirpar a pregui�a e curvar os sentimentos de orgulho e de independ�ncia que esta gera, o autor de Essay on Trade propunha encarcerar os pobres nas casas ideais do trabalho (ideal workhouses) que se tornariam "casas de terror onde se fariam trabalhar 14 horas por dia, de tal maneira que, subtra�do o tempo das refei��es, ficariam 12 horas de trabalho completas".

Doze horas de trabalho por dia, eis o ideal dos filantropos e moralistas do s�culo XVIII. Como ultrapassamos esse nec plus ultra! As oficinas modernas tornaram-se casas ideais de corre��o onde se encerram as massas oper�rias, onde se condena a trabalhos for�ados, durante 12 e 14 horas, n�o s� os homens, como tamb�m as mulheres e as crian�as (2)

E dizer que os filhos dos her�is do Terror se deixaram degradar pela religi�o do trabalho ao ponto de aceitarem depois de 1848, como uma conquista revolucion�ria, a lei que limitava o trabalho nas f�bricas a doze horas; proclamavam, como um princ�pio revolucion�rio, o direito ao trabalho. Que vergonha para o proletariado franc�s! S� escravos teriam sido capazes de uma tal baixeza. Seriam necess�rios vinte anos de civiliza��o capitalista a um grego dos tempos her�icos para conceber um tal aviltamento.

E se as dores do trabalho for�ado, se as torturas da fome se abateram sobre o proletariado, mais numerosas do que os gafanhotos da B�blia, foi ele que as chamou.

Este trabalho, que em Junho de 1848 os oper�rios reclamavam de armas na m�o, impuseram-no eles �s suas fam�lias; entregaram, aos bar�es da ind�stria, as suas mulheres e os seus filhos. Com as suas pr�prias m�os, demoliram o lar, com as suas pr�prias m�os, secaram o leite das suas mulheres; as infelizes, gr�vidas e amamentando os seus beb�s, tiveram de ir para as minas e para as manufaturas esticar a espinha e esgotar os nervos; com as suas pr�prias m�os, quebraram a vida e vigor dos seus filhos. - Que vergonha para os prolet�rios! Onde � que est�o essas bisbilhoteiras de que falam as nossas trovas e contos antigos, ousadas nas afirma��es, francas de boca, amantes da divina garrafa? Onde est�o essas mulheres prazenteiras, sempre apressadas, sempre a cozinhar, sempre a cantar, sempre a semear a vida gerando a alegria, dando � luz sem dores filhos s�os e vigorosos?... Temos hoje as raparigas e as mulheres da f�brica, insignificantes flores de p�lidas cores, com um sangue sem rutil�ncia, com o est�mago deteriorado, com os membros sem energia!... Nunca conheceram o prazer robusto e n�o seriam capazes de contar atrevidamente como quebraram a sua concha! E as crian�as? Doze horas de trabalho para as crian�as.

O mis�ria! - Mas todos os Jules Simon da Academia das Ci�ncias Morais e Pol�ticas, todos os Germiny da jesuitaria, n�o teriam podido inventar um v�cio mais embrutecedor para a intelig�ncia das crian�as, mais corruptor dos seus instintos, mais destruidor do seu organismo do que o trabalho na atmosfera viciada da oficina capitalista.

A nossa �poca �, dizem, o s�culo do trabalho; de fato, � o s�culo da dor, da mis�ria e da corrup��o.

E, no entanto, os fil�sofos, os economistas burgueses, desde o penosamente confuso Augusto Comte at� ao ridiculamente claro Leroy-Beaulieu; os intelectuais burgueses, desde o charlatanescamente rom�ntico Victor Hugo at� ao ingenuamente grotesco Paul de Kock, todos entoaram cantos nauseabundos em honra do deus Progresso, o filho mais velho do Trabalho. Ao ouvi-los, a felicidade ia reinar sobre a terra: j� se sentia a sua chegada.. Iam aos s�culos passados vasculhar o p� e a mis�ria feudais para trazerem sombrios contrastes �s del�cias dos tempos presentes. - Acaso nos fatigaram, esses saciados, esses satisfeitos, outrora ainda membros da domesticidade dos grandes senhores, hoje criados de pena da burguesia, generosamente alugados; acaso nos fatigaram com o campon�s do ret�rico La Bruyere? Ora, eis o brilhante quadro dos prazeres prolet�rios no ano do progresso capitalista de 1840, pintado por um dos deles, pelo Dr. Villerm�, membro do Instituto, o mesmo que, em 1848, fez parte daquela sociedade de s�bios (Tiers, Cousin, Passy, Blanqui, o acad�mico, estavam l�) que propagou nas massas os disparates da economia e da moral burguesa.

� da Als�cia manufatureira que fala Villerm�, da Als�cia dos Kestner, dos Dol�fus, essas flores da filantropia e do republicanismo industrial. Mas antes que o doutor esboce diante de n�s o quadro das mis�rias prolet�rias, escutemos um manufatureiro alsaciano, o Sr. Th. Mieg, da Casa Dol�fus, Mieg e C.�, descrevendo a situa��o do artes�o da antiga ind�stria:

"Em Mulhouse, h� cinq�enta anos (em 1813, quando nascia a moderna ind�stria mec�nica), os oper�rios eram todos filhos do solo, que habitavam a cidade ou as aldeias pr�ximas e possu�am quase todos uma casa e muitas vezes um pequeno terreno." (3)

Era a idade de ouro do trabalhador. Mas ent�o a ind�stria alsaciana n�o inundava o mundo com os seus tecidos de algod�o e n�o tornava milion�rios os seus DolIfus e os seus Koechlin. Mas vinte e cinco anos depois, quando Villerm� visitou a Als�cia, o minotauro moderno, a oficina capitalista tinha conquistado a regi�o; na sua bulimia de trabalho humano, tinha arrancado os oper�rios dos seus lares para melhor os torcer e para melhor espremer o trabalho que continham. Era aos milhares que os oper�rios acorriam ao apito da m�quina.

"Muitos, diz Villerm�, cinco mil em dezassete mil, eram obrigados, pela carestia das rendas, a instalar-se nas aldeias vizinhas. Alguns habitavam a duas l�guas e um quarto da manufatura onde trabalhavam.
Em Mulhouse, em Dornach, o trabalho come�ava �s cinco horas da manh� e acabava �s cinco horas da tarde tanto no Ver�o como no Inverno [...]. Era preciso v�-los chegar todas as manh�s � cidade e v�-los partir � noite. H� entre eles uma multid�o de mulheres p�lidas, magras, caminhando de p�s descal�os por cima da lama e que, � falta de guarda-chuva, trazem, atirados sobre a cabe�a, quando chove ou neva, os aventais e as saias de cima para protegerem o rosto e o pesco�o, e um n�mero mais consider�vel de crian�as pequenas n�o menos sujas, n�o menos p�lidas e macilentas, cobertas de farrapos, todas engorduradas do �leo dos teares que lhes cai em cima enquanto trabalham. Estas �ltimas, melhor preservadas da chuva pela impermeabilidade das suas roupas, nem sequer t�m no bra�o, como as mulheres de que acabamos de falar, um cesto onde est�o as provis�es do dia; mas trazem na m�o, ou escondem debaixo do seu casaco ou como podem, o bocado de p�o que os deve alimentar at� � hora do seu regresso a casa.
Assim, � fadiga de um dia de trabalho excessivamente longo, visto que tem pelo menos quinze horas, vem juntar-se para estes desgra�ados a das idas e vindas t�o freq�entes, t�o penosas. Daqui resulta que � noite chegam a suas casas oprimidos pela necessidade de dormir e que no dia seguinte saem antes de terem repousado completamente para se encontrarem na oficina � hora da abertura."

Eis agora as espeluncas onde se amontoavam aqueles que habitavam na cidade:
"Vi, em Mulhouse, em Dornach e nas casas vizinhas, dessas miser�veis instala��es onde dormiam duas fam�lias cada uma a seu canto, sobre a palha colocada sobre o tijolo e retida por duas t�buas... Esta mis�ria em que vivem os oper�rios da ind�stria do algod�o no distrito do Alto-Reno � t�o profunda, que produz este triste resultado: enquanto que nas fam�lias dos fabricantes, mercadores de panos, diretores de f�bricas, metade das crian�as atinge os vinte e um anos, essa mesma metade deixa de existir antes mesmo de completar os dois anos nas fam�lias de tecel�es e de oper�rios de f�bricas de fia��o de algod�o."

Falando do trabalho da oficina, Villerm� acrescenta:

"N�o � um trabalho, uma tarefa, � uma tortura e infligem-na a crian�as de seis a oito anos. [...] � esse longo supl�cio de todos os dias que mina sobretudo os oper�rios nas f�bricas de fia��o de algod�o."

E, a prop�sito da dura��o do trabalho, Villerm� observa que os for�ados das gal�s s� trabalhavam dez horas, os escravos das Antilhas uma m�dia de nove horas, enquanto que existia na Fran�a que tinha feito a Revolu��o de 89, que tinha proclamado os pomposos Direitos do Homem, manufaturas onde o dia de trabalho era de dezasseis horas, nas quais davam aos oper�rios uma hora e meia para as refei��es (4).

O miser�vel aborto dos princ�pios revolucion�rios da burguesia! O l�gubre presente do seu deus Progresso! Os filantropos proclamam benfeitores da humanidade aqueles que, para se enriquecerem na ociosidade, d�o trabalho aos pobres; mais valia semear a peste ou envenenar as fontes do que erguer uma f�brica no meio de uma povoa��o r�stica. Introduzam o trabalho de f�brica, e adeus alegria, sa�de, liberdade; adeus a tudo o que fez a vida bela e digna de ser vivida (5)

E os economistas continuam a repetir aos oper�rios: Trabalhem para aumentar a fortuna social! E, no entanto, um economista, Destutt de Tracy, responde-lhes: nas na��es pobres que o povo est� � sua vontade; � nas na��es ricas que de um modo geral ele � pobre."

E o seu disc�pulo Cherbuliez continua:

"Os pr�prios trabalhadores, ao cooperarem na acumula��o dos capitais produtivos, contribuem para o acontecimento que, mais tarde ou mais cedo, os deve privar de uma parte do seu sal�rio."

Mas, ensurdecidos e tornados idiotas pelos seus pr�prios berros, os economistas continuam a responder: Trabalhem, trabalhem sempre para criarem o vosso bem-estar! E, em nome da bondade crist�, um padre da Igreja Anglicana, o reverendo Townshend, prega: "Trabalhem, trabalhem noite e dia! Ao trabalharem, fazem crescer a vossa mis�ria e a vossa mis�ria dispensa-nos de vos impor o trabalho pela for�a da lei. A imposi��o legal do trabalho exige demasiado esfor�o, demasiada viol�ncia e faz demasiado estardalha�o; a fome, pelo contr�rio, n�o s� � uma press�o calma, silenciosa, incessante, como tamb�m o m�bil mais natural do trabalho e da ind�stria, ela provoca tamb�m os mais poderosos esfor�os."

Trabalhem, trabalhem, prolet�rios, para aumentar a fortuna social e as vossas mis�rias individuais, trabalhem, trabalhem, para que, tornando-vos mais pobres, tenham mais raz�o para trabalhar e para serem miser�veis. Eis a lei inexor�vel da produ��o capitalista.

Porque, ao prestarem aten��o �s insidiosas palavras dos economistas, os prolet�rios se entregaram de corpo e alma ao v�cio do trabalho, precipitam toda a sociedade numa destas crises de superprodu��o que convulsionam o organismo social. Ent�o, porque h� superabund�ncia de mercadorias e pen�ria de compradores, as oficinas encerram e a fome fustiga as popula��es oper�rias com o seu chicote com mil loros. Os prolet�rios, embrutecidos pelo dogma do trabalho, n�o compreendem que � o supertrabalho que infligiram a si pr�prios durante o tempo da pretensa prosperidade a causa da sua mis�ria presente, em vez de correrem ao celeiro de trigo e de gritarem: "Temos fome e queremos comer!... Sim, n�o temos nem uma moeda, mas, pobres como estamos, fomos n�s quem ceifou o trigo e vindimou a uva... " - Em vez de cercarem os armaz�ns do Sr. Bonnet de Jujureux, o inventor dos conventos industriais, e de clamar: "Sr. Bonnet, aqui est�o as vossas oper�rias ovalistas (8), moulineuses (7), fiandeiras, tecedeiras, elas tremem de frio nos seus tecidos de algod�o passajados de modo a condoer os olhos de um judeu e, no entanto, foram elas que fiaram e teceram os vestidos de seda das cocotes de toda a cristandade. As desgra�adas, trabalhando treze horas por dia, n�o tinham tempo de pensar na "toilette", agora, elas est�o desempregadas e podem ostentar um grande luxo com as sedas que trabalharam. Mal perderam os dentes de leite, dedicaram-se � sua fortuna e viveram na abstin�ncia; agora, elas t�m tempos de lazer e querem gozar um pouco dos frutos do seu trabalho. Vamos, Sr. Bonnet, entregue as suas sedas, o Sr. Harmel fornecer� as suas musselinas, o Sr. Pouyer-Quertier os seus paninhos, o Sr. Pinet as suas botinas para os seus queridos pezinhos frios e h�midos... Vestidas dos p�s � cabe�a, dar-vos-� prazer contempl�-las. Vamos, nada de hesita��es o Sr. � amigo da humanidade, n�o � verdade? E crist�o ainda por cima! Ponha � disposi��o das suas oper�rias a fortuna que estas lhe constru�ram com a carne da sua carne. - � amigo do com�rcio? - Facilite a circula��o das mercadorias; eis consumido-res acabados de encontrar; abra-lhes cr�ditos ilimitados. � obrigado a faz�-lo a negociantes que n�o conhece de parte nenhuma, que n�o lhe deram nada, nem sequer um copo de �gua. As suas operarias pagar�o como puderem: se, no dia do vencimento, elas fogem e deixam protestar a letra, leva-las-� � fal�ncia e, se elas n�o tiverem nada para penhorar, exigir� que elas lhe paguem em ora��es: elas envi�-lo-�o ao para�so, melhor do que os seus sacos negros com o nariz cheio de tabaco."

Em vez de se aproveitarem dos momentos de crise para uma distribui��o geral de produtos e uma manifesta��o universal de alegria, os oper�rios, morrendo � fome, v�o bater com a cabe�a contra as portas da oficina. Com rostos p�lidos e macilentos, corpos emagrecidos, discursos lament�veis, assaltam os fabricantes: "Bom Sr. Chagot, excelente Sr. Schneider, d�em-nos trabalho, n�o � a fome, mas a paix�o do trabalho que nos atormenta!" E esses miser�veis, que mal t�m for�as para se manterem de p�, vendem doze e catorze horas de trabalho duas vezes mais barato do que quando tinham trabalho durante um certo tempo. E os filantropos da ind�stria continuam a aproveitar as crises de desemprego para fabricarem mais barato.

Se as crises industriais se seguem aos per�odos de supertrabalho t�o fatalmente como a noite se segue ao dia, arrastando atr�s de si o desemprego for�ado, e a mis�ria sem sa�da, tamb�m levam � bancarrota inexor�vel. Enquanto o fabricante tem cr�dito, solta a r�dea � raiva do trabalho, faz empr�stimos, volta a fazer empr�stimos para fornecer mat�ria-prima aos oper�rios. Tem de se produzir, sem refletir que o mercado se obstrui e que, se as mercadorias n�o chegarem a serem vendidas, as suas ordens de pagamento acabar�o por se vencer. Encurralado, vai implorar ao Judeu, lan�a-se a seus p�s, oferece-lhe o seu sangue, a sua honra. "Um bocadinho de ouro ser-lhe-ia mais �til, responde o Rothschild, tem 20 000 pares de meias em armaz�m, valem vinte soldos, compro-lhas por quatro soldos." Obtidas as meias, o Judeu vende-as a seis e a oito soldos e embolsa as bulicosas moedas de cem soldos que n�o devem nada a ningu�m: mas o fabricante recuou para melhor saltar. Chega finalmente o degelo e os armaz�ns despejam-se; lan�a-se ent�o tanta mercadoria pelas janelas que n�o se sabe como � que elas entraram pela porta. � em centenas de milh�es que se cifra o valor das mercadorias destru�das: no s�culo passado, queimavam-nas ou lan�avam-nas � �gua (8).

Mas antes de chegar a esta conclus�o, os fabricantes percorreram o mundo � procura de coloca��o para as mercadorias que se amontoavam; for�am o seu governo a anexar Congos, a apoderar-se de Tonquim, a demolir com fogo dos canh�es as muralhas da China, para a� darem sa�da aos seus tecidos de algod�o. Nos s�culos passados, era um duelo de morte entre a Fran�a e a Inglaterra para saber quem teria o privil�gio exclusivo de vender na Am�rica e nas Indias. Milhares de homens jovens e vigorosos purpurearam os mares com o seu sangue durante as guerras coloniais dos s�culos XV, XVI e XVII.

Os capitais abundam como as mercadorias. Os financeiros j� n�o sabem onde coloc�-los; v�o ent�o para as na��es felizes que passeiam ao sol a fumar cigarros p�r caminhos de ferro, construir f�bricas e importar a maldi��o do trabalho. E esta exporta��o de capitais franceses termina uma bela manh� em complica��es diplom�ticas: no Egito, a Fran�a, a Inglaterra e a Alemanha estavam prestes a agarrar-se pelos cabelos para saber quais os usur�rios que seriam pagos em primeiro lugar; em guerras no M�xico para onde s�o enviados os soldados franceses exercerem a profiss�o de oficial de dilig�ncias para encobrir m�s d�vidas (8).

Estas mis�rias individuais e sociais, por muito grandes e numerosas que sejam, por eternas que pare�am, desaparecer�o como as hienas e os chacais � aproxima��o do le�o, quando o proletariado disser: "Quero isso." Mas para que ele venha a ter consci�ncia da sua for�a, � preciso que o proletariado calque aos p�s os preconceitos da moral crist�, econ�mica, livre-pensadora; � preciso que ele regresse aos seus instintos naturais, que proclame os Direitos da Pregui�a, milhares de vezes mais nobres e sagrados do que os t�sicos Direitos do Homem, digeridos pelos advogados metaf�sicos da revolu��o burguesa; que ele se obrigue a trabalhar apenas tr�s horas por dia, a mandriar e a andar no regabofe o resto do dia e da noite.

At� aqui, a minha tarefa tem sido f�cil, tinha apenas de descrever males reais que todos n�s conhecemos muito bem infelizmente. Mas convencer o proletariado de que a palavra que lhe inocularam � perversa, que o trabalho desenfreado a que se dedica desde o in�cio do s�culo � o mais terr�vel flagelo que j� alguma vez atacou a humanidade, que o trabalho s� se tornar� um condimento de prazer da pregui�a, um exerc�cio ben�fico para o organismo humano, uma paix�o �til ao organismo social, quando for prudentemente regulamentado e limitado a um m�ximo de tr�s horas por dia, � uma tarefa �rdua superior �s minhas for�as; s� fisiologistas, higienistas, economistas comunistas poder�o empreend�-la. Nas p�ginas que se seguem, limitar-me-ei a demonstrar que, atendendo aos meios de produ��o modernos e � sua pot�ncia reprodutiva ilimitada, tem de se dominar a paix�o extravagante dos oper�rios pelo trabalho e obrig�-los a consumir as mercadorias que produzem.

NOTAS:
(1)Um ensaio sobre o neg�cio e o com�rcio.

(2) No primeiro congresso de benefic�ncia realizado em Bruxelas, em 1857, um dos mais ricos manufatureiros de Marquette, perto de Lilie, o Sr. Scrive, aplaudido pelos membros do congresso, contava com a mais nobre satisfa��o de um dever cumprido: "Introduzimos alguns meios de distra��o para as crian�as. Ensinamo-lhe a cantar durante o trabalho, a contar tamb�m enquanto trabalham: isto distrai-as e faz-lhes aceitar com coragem aquelas doze horas de trabalho que s�o necess�rias para lhes proporcionar os meios de exist�ncia" - Doze horas de trabalho, e que trabalho! impostas a crian�as que n�o t�m doze anos! - Os materialistas lamentar�o sempre que n�o haja um inferno para nele p�r estes crist�os, esses filantropos, carrascos da inf�ncia!

(3) Discurso pronunciado na Sociedade Internacional de Estudos Pr�ticos de Economia Social de Paris em Maio de 1863 e publicado em L'Economiste fran�ais da mesma �poca.

(4) L.-R. Villerm�, Tableau de l'�tat Physique et Moral des Ouvriers dans les Fabriques de Coton, de Laine et de Soie (Quadro do Estado F�sico e Moral dos Oper�rios nas F�bricas de Algod�o, de L� e de Seda), 1840. N�o era pelo fato dos Koechlin e de outros fabricantes alsacianos serem republicanos, patriotas e filantropos protestantes que tratavam desta maneira os seus oper�rios; porque Blanqui, o acad�mico, Reybaud, o prot�tipo de Jer�me Paturot, e Jules Simon, o mestre Jacques pol�tico, constataram as mesmas amenidades para a classe oper�ria nos fabricantes muito cat�licos e muito mon�rquicos de Lilie e de Lyon. Trata-se de virtudes capitalistas que se harmonizam �s mil maravilhas com todas as convic��es pol�ticas e religiosas.
(5) Os �ndios das tribos guerreiras do Brasil matam os seus doentes e os seus velhos; testemunham a sua amizade acabando com uma vida que j� n�o � animada por combates, por festas, por dan�as. Todos os povos primitivos deram aos seus estas provas de afei��o: os Messagetas do mar C�spio (Her�doto), bem como os Wens da Alemanha e os Celtas da G�lia. Nas igrejas da Su�cia, ainda h� pouco se conservavam davas chamadas davas familiares que serviam para libertar os parentes das tristezas da velhice. Como est�o degenerados os prolet�rios modernos para aceitarem com paci�ncia as terr�veis mis�rias do trabalho de f�brica!
(6) Ovaliste: oper�rio que torna as sedas ovais.

(7) Moulineur: oper�rio que fia e torce mecanicamente Os fios de seda crua.
(8) No congresso industrial realizado em Berlim em 21 de Janeiro de 1879, avaliava-se em 568 milhares de francos o preju�zo que a ind�stria de ferro tinha sofrido na Alemanha durante a �ltima crise.
(9) La Justice, do Sr. Clemenceau, na sua parte financeira, dizia a 6 de Abril de 1880: "Ouvimos defender a opini�o de que, � excep��o da Pr�ssia, os milhares da guerra de 1870 foram igualmente perdidos pela Fran�a, e isto sob a forma de empr�stimos peri�dica mente emitidos para o equil�brio dos or�amentos estrangeiros; esta � tamb�m a nossa opini�o." Avalia-se em cinco mil milh�es o preju�zo dos capitais ingleses nos empr�stimos �s Rep�blicas da Am�rica do Sul. Os trabalhadores franceses n�o s� produziram os cinco mil milh�es pagos ao Sr. Bismarck, como continuam a servir os juros da indeniza��o de guerra aos Oluvier, aos Girardin, aos Bazaine e outros portadores de t�tulos de rendimento que originaram a guerra e a derrota. No entanto, resta-lhes um pr�mio de consola��o: esses milh�es n�o ocasionar�o guerra de recupera��o.

 

III - O QUE SE SEGUE � SUPERPRODU��O

Um poeta grego do tempo de C�cero, Antiparos, cantava deste modo a inven��o da azenha (para moer os cereais): ia emancipar as mulheres escravas e voltar a trazer a idade de ouro:
"Poupai o bra�o que faz girar a m�, � moleiras, e dormi tranq�ilamente! Que o galo vos avise em v�o de que j� � dia! Dao imp�s �s ninfas o trabalho das escravas e ei-las que saltitam alegremente sobre a roda e eis que o eixo agitado rola com os seus raios, fazendo rodar a pesada pedra rolante. Vivamos da vida dos nossos pais e ociosos regozijemo-nos dos dons que a deusa nos concede."

Infelizmente, os tempos livres que o poeta pag�o anunciava n�o vieram; a paix�o cega, perversa e homicida do trabalho transforma a m�quina libertadora em instrumento de sujei��o dos homens livres: a sua produtividade empobrece-os.

Uma boa oper�ria s� faz com o fuso cinco malhas por minuto, alguns teares circulares para tricotar fazem trinta mil no mesmo tempo. Cada minuto � m�quina equivale, portanto, a cem horas de trabalho da operaria; ou ent�o cada minuto de trabalho da m�quina d� � oper�ria dez dias de repouso. Aquilo que se passa com a ind�stria de malhas � mais ou menos verdade para todas as ind�strias renovadas pela mec�nica moderna. Mas que vemos n�s? A medida que a m�quina se aperfei�oa e despacha o trabalho do homem com uma rapidez e uma precis�o incessantemente crescentes, o oper�rio, em vez de prolongar o seu repouso proporcionalmente, redobra de ardor, como se quisesse rivalizar com a m�quina. � concorr�ncia absurda e mortal!

Para que a concorr�ncia do homem e da m�quina tomasse livre curso, os prolet�rios aboliram as s�bias leis que limitavam o trabalho dos artes�os das antigas corpora��es; suprimiram os dias feriados (1) Porque os produtores de ent�o s� trabalhavam cinco dias em sete, julgavam eles ent�o, assim o contam os economistas mentirosos, que viviam s� de ar e de �gua fresca? Ora vamos! Eles tinham tempos livres para gozar as alegrias da terra, para fazer amor, para se divertirem, para se banquetearem em honra do alegre deus da Mandriice. A triste Inglaterra, engaiolada no protestantismo, chamava-se ent�o a "alegre Inglaterra" (Merry England).

Rabelais, Quevedo, Cervantes, os autores desconhecidos dos romances picarescos, fazem-nos crescer �gua na boca com as suas narrativas daquelas monumentais patuscadas (2) com que se regalavam ent�o entre duas batalhas e duas devasta��es e nas quais tudo "era medido aos pratos". Jordaens e a escola flamenga escreveram-nas nas suas alegres telas. Sublimes est�magos gargantuescos, que � feito de v�s? Sublimes c�rebros que abarc�veis todo o pensamento humano, que � feito de v�s? Estamos muito diminu�dos e muito degenerados. A vaca atacada de raiva, a batata, o vinho com fucsina e a aguardente prussiana sabiamente combinados com o trabalho for�ado debilitaram os nossos corpos e diminu�ram os nossos esp�ritos. E foi ent�o que o homem encolheu o seu est�mago e que a m�quina alargou a sua produtividade, � ent�o que os economistas nos pregam a teoria malthusiana, a religi�o da abstin�ncia e o dogma do trabalho? Mas era preciso arrancar-lhes a l�ngua e deit�-la aos c�es.

Porque a classe oper�ria, com a sua boa f� simplista, se deixou doutrinar, porque, com a sua impetuosidade nativa, se precipitou cegamente para o trabalho e para a abstin�ncia, a classe capitalista achou-se condenada � pregui�a e ao prazer for�ado, � improdutividade e ao superconsumo. Mas, se o supertrabalho do oper�rio magoa a sua carne e atormenta os seus nervos, ele tamb�m � fecundo em dores para o burgu�s.

A abstin�ncia � qual a classe produtiva se condena Obriga os burgueses a dedicarem-se ao superconsumo dos produtos que ela manufatura desordenadamente. No in�cio da produ��o capitalista, h� um ou dois s�culos, o burgu�s era um homem ajuizado, de h�bitos razo�veis e calmos; contentava-se com a sua mulher ou quase; bebia e comia moderadamente. Deixava aos cortes�os e �s cortes�s as nobres virtudes da vida debochada. Hoje, n�o h� filho de arrivista que n�o se julgue obrigado a desenvolver a prostitui��o e a mercurializar o seu corpo para dar um objetivo ao trabalho que os oper�rios das minas de merc�rio se imp�em; n�o h� burgu�s que n�o se farte de cap�es trufados e de Laffitte navegado, para encorajar os criadores de La Fleche e os vinhateiros do Bordelais. Nesta profiss�o, o organismo deteriora-se rapidamente, os cabelos caem, os dentes descarnam-se at� � raiz, o tronco deforma-se, o ventre entripa-se, a respira��o complica-se, os movimentos tornam-se pesados, as articula��es tornam-se anquilosadas, as falanges enodam-se. Outros, demasiado fracos para suportar as fadigas do deboche, mas dotados da bossa do prudhomismo, dessecam o seu c�rebro como os Garnier da economia pol�tica, como os Acolias da filosofia jur�dica, a elucubrar grossos livros sopor�ficos para ocupar os tempos livres dos compositores e dos tip�grafos.

As mulheres da alta sociedade t�m uma vida de m�rtir. Para provarem e fazerem valer as "toilettes" fe�ricas que as costureiras se matam a fazer, andam de manh� � noite de um lado para o outro, de um vestido para outro; durante horas abandonam a sua cabe�a oca aos artistas capilares que, a todo o custo, querem saciar a sua paix�o pelos mont�es de posti�os. Apertadas nos seus espartilhos, pouco � vontade nas suas botinas, decotadas de maneira a fazer corar um sapador, voltejam noites inteiras nos seus bailes de caridade para recolherem alguns soldos para os pobres. Santas almas!

Para desempenhar a sua dupla fun��o social de n�o produtor e de superconsumidor, o burgu�s teve n�o s� de violentar os seus gostos modestos, perder os seus h�bitos de trabalho de h� dois s�culos e entregar-se a um luxo desenfreado, �s indigest�es trufadas e aos deboches sifil�ticos, mas tamb�m teve de subtrair ao trabalho produtivo uma enorme massa de homens para conseguir ajudantes.

Eis alguns n�meros que provam como � colossal essa diminui��o de for�as produtivas: de acordo com o recenseamento de 1861, a popula��o de Inglaterra e do Pa�s de Gales compreendia 20066244 pessoas, das quais 9 776259 do sexo masculino e 10289965 do sexo feminino. Se deduzirmos os que s�o demasiado velhos ou demasiado novos para trabalhar, as mulheres, os adolescentes e as crian�as improdutivas, em seguida as profiss�es ideol�gicas como por exemplo governantes, pol�cia, clero, magistratura, ex�rcito, prostitui��o, artes, ci�ncias, etc., depois as pessoas exclusivamente ocupadas a comer o trabalho de outrem sob a forma de renda fundi�ria, de juros, de dividendos, etc., restam por alto oito milh�es de indiv�duos dos dois sexos e de todas as idades, incluindo os capitalistas que funcionam na produ��o, no com�rcio, na finan�a, etc. Nesses oito milh�es contam-se:

Trabalhadores agr�colas (incluindo os pastores, os criados e criadas de lavoura que habitam na quinta) � 1098261

Operarios de f�bricas de algodao, de l�, de c� nhamo, de linho, de seda, de malha � 642607

Oper�rios de minas de carvao e de metal - 565 835

Oper�rios metal�rgicos (alto-fornos, laminadores, etc.) � 396998

Classe dom�stica - 1 208648

"Se somarmos o n�mero dos trabalhadores t�xteis ao dos das minas de carv�o e de metal, obteremos o total de 1 208442; se somarmos os primeiros e os das f�bricas metal�rgicas, temos um total de 1 039 605 pessoas; ou seja, de ambas as vezes um n�mero inferior ao dos modernos escravos dom�sticos. Eis o magn�fico resultado da explora��o capitalista das m�quinas." (3)

A toda esta classe dom�stica, cuja grandeza indica o grau atingido pela civiliza��o capitalista, tem de se acrescentar a numerosa classe dos infelizes exclusivamente dedicados � satisfa��o dos gostos dispendiosos e f�teis das classes ricas, lapidadores de diamantes, rendeiras, bordadoras, encadernadores de luxo, costureiras de luxo, decoradores das casas de recreio, etc. (4)

Uma vez acocorada na pregui�a absoluta e desmoralizada pelo prazer for�ado, a burguesia, apesar das dificuldades que teve nisso, adaptou-se ao seu novo estilo de vida. Encarou com horror qualquer altera��o. A vis�o das miser�veis condi��es de exist�ncia aceites com resigna��o pela classe oper�ria e a da degrada��o org�nica gerada pela paix�o depravada pelo trabalho aumentava ainda mais a sua repulsa por qualquer imposi��o de trabalho e por qualquer restri��o de prazeres.

Foi precisamente ent�o que, sem ter em conta a desmoraliza��o que a burguesia tinha imposto a si pr�pria como um dever social, os prolet�rios resolveram infligir o trabalho aos capitalistas. Ing�nuos, tomaram a s�rio as teorias dos economistas e dos moralistas sobre o trabalho e maltrataram os rins para infligir a sua pr�tica aos capitalistas. O proletariado arvorou a divisa: Quem n�o trabalha, n�o come; Lyon, em 1831, levantou-se pelo chumbo ou pelo trabalho, os federados de 1871 declararam o seu levantamento a revolu��o do trabalho.
A estes �mpetos de furor b�rbaro, destrutivo de todo o prazer e de toda a pregui�a burguesas, os capitalistas s� podiam responder com uma repress�o feroz, mas sabiam que, se tinham conseguido reprimir estas explos�es revolucion�rias, n�o tinham afogado no sangue dos seus gigantescos massacres a absurda id�ia do proletariado de querer infligir o trabalho �s classes ociosas e fartas, e foi para desviar essa infelicidade que se rodearam de pretorianos, de pol�cias, de magistrados, de carcereiros mantidos numa improdutividade laboriosa. J� n�o se podem ter ilus�es sobre o car�ter dos ex�rcitos modernos, s�o mantidos em perman�ncia apenas para reprimir "o inimigo interno"; e assim que os fortes de Paris e de Lyon n�o foram constru�dos para defender a cidade contra o estrangeiro, mas para o esmagar no caso de revolta. E se fosse preciso um exemplo sem r�plica, citemos o ex�rcito da B�lgica, desse pa�s de Cocagne do capitalismo; � sua neutralidade � garantida pelas pot�ncias europ�ias e, no entanto, o seu ex�rcito � um dos mais fortes em propor��o da popula��o. Os gloriosos campos de batalha do bravo ex�rcito belga s�o as plan�cies do Borinage e de Charleroi, � no sangue dos mineiros e dos oper�rios desarmados que os oficiais belgas ensang�entam as suas espadas e ganham os seus gal�es. As na��es europ�ias n�o tem ex�rcitos nacionais, mas sim ex�rcitos mercen�rios, que protegem os capitalistas contra o furor popular que os queria condenar a dez horas de mina ou de f�brica de fia��o.
Portanto, ao apertar o cinto, a classe oper�ria desenvolveu para al�m do normal o ventre da burguesia condenada ao superconsumo.

Para ser aliviada no seu penoso trabalho, a burguesia retirou da classe oper�ria uma massa de homens muito superior � que continuava dedicada � produ��o �til e condenou-a, por seu turno, � improdutividade e ao superconsumo. Mas este rebanho de bocas in�teis, apesar da sua voracidade insaci�vel, n�o basta para consumir todas as mercadorias que os oper�rios, embrutecidos pelo dogma do trabalho, produzem como man�acos, sem os quererem consumir e sem sequer pensarem se se encontrar�o pessoas para os consumir.
Em presen�a desta dupla loucura dos trabalhadores, de se matarem de supertrabalho e de vegetarem na abstin�ncia, o grande problema da produ��o capitalista j� n�o � encontrar produtores e multiplicar as suas for�as, mas descobrir consumidores, excitar os seus apetites e criar-lhes necessidades fict�cias. Uma vez que os oper�rios europeus, que tremem de frio e de fome, recusam usar os tecidos que eles pr�prios tecem, beber os vinhos que eles pr�prios colhem, os pobres fabricantes, como espertalh�es, devem correr aos ant�podas para procurar quem os usar� e quem os beber�: s�o centenas de milh�es e de bili�es que a Europa exporta todos os anos para os quatro cantos do mundo, para popula��es que n�o t�m nada que fazer com esses produtos (5) Mas os continentes explorados j� n�o s�o suficientemente vastos, s�o necess�rios pa�ses virgens. Os fabricantes da Europa sonham noite e dia com a �frica, com o lago sariano, com o caminho de ferro do Sud�o, seguem com ansiedade os progressos dos Livingstone dos Stanley, dos Du Chailiu, dos de Brazza; de boca aberta, escutam as hist�rias mirabolantes desses corajosos viajantes. Que maravilhas desconhecidas encerra o "continente negro"! Campos s�o plantados de dentes de elefantes, rios de �leo de coco arrastam no seu curso palhetas de ouro, milh�es de cus negros, nus como o rosto de Dufaure ou de Girardin esperam pelos tecidos de algod�o para aprenderem a dec�ncia, pelas garrafas de aguardente e pelas b�blias para conhecerem as virtudes da civiliza��o.

Mas tudo � insuficiente: o burgu�s que se farta, a classe dom�stica que ultrapassa a classe produtiva, as na��es estrangeiras e b�rbaras que se enchem de mercadorias europ�ias; nada, nada pode conseguir dar vaz�o �s montanhas de produtos que se amontoam maiores e mais altas do que as pir�mides do Egito: a produtividade dos oper�rios europeus desafia todo o consumo, todo o desperd�cio. Os fabricantes, doidos, j� n�o sabem que fazer, j� n�o conseguem encontrar mat�ria-prima para satisfazer a paix�o desordenada, depravada, que os seus oper�rios t�m pelo trabalho. Nos nossos distritos onde h� l�, desfiam-se trapos manchados e meio podres, fazem-se com eles panos chamados de renascimento, que duram o mesmo que as promessas eleitorais; em Lyon, em vez de deixar � fibra sedosa a sua simplicidade e a sua flexibilidade natural, sobrecarregam-na de sais minerais que, ao acrescentarem-lhe peso, a tornam fri�vel e de pouco uso. Todos os nossos produtos s�o adulterados para facilitar o seu escoamento e abreviar a sua exist�ncia. A nossa �poca ser� chamada a idade da falsifica��o, tal como as primeiras �pocas da humanidade receberam os nomes de idade da pedra, idade de bronze, pelo car�ter da sua produ��o. Os ignorantes acusam de fraude os nossos piedosos industriais, enquanto que na realidade o pensamento que os anima � o de fornecer trabalho aos oper�rios, que n�o conseguem resignar-se a viver de bra�os cruzados. Estas falsifica��es, que t�m como �nico m�bil um sentimento humanit�rio, mas que rendem soberbos lucros aos fabricantes que as praticam, se s�o desastrosas para a qualidade das mercadorias, se s�o uma fonte inesgot�vel de desperd�cio de trabalho humano, provam a filantr�pica habilidade dos burgueses e a horr�vel pervers�o dos oper�rios que, para saciarem o seu vicio do trabalho, obrigam os industriais a abafar os gritos da sua consci�ncia e at� mesmo a violar as leis da honestidade comercial.
E, no entanto, apesar da superprodu��o de mercadorias, apesar das falsifica��es industriais, os oper�rios atravancam o mercado em grandes grupos implorando: trabalho! trabalho! A sua superabund�ncia devia obrig�-los a refrear a sua paix�o; pelo contr�rio, ela leva-a ao paroxismo. Mal uma possibilidade de trabalho se apresenta, logo se atiram a ela; ent�o s�o doze, catorze horas que reclamam para estarem fartos at� � saciedade e no dia seguinte ei-los de novo na rua, sem mais nada para alimentarem o seu vicio. Todos os anos, em todas as ind�strias, os despedimentos surgem com a regularidade das esta��es. Ao supertrabalho perigoso para o organismo sucede-se o repouso absoluto durante dois ou quatro meses; e, n�o havendo trabalho, n�o h� a ra��o di�ria. Uma vez que o v�cio do trabalho est� diabolicamente encavilhado no cora��o dos oper�rios; uma vez que as suas exig�ncias abafam todos os outros instintos da natureza; uma vez que a quantidade de trabalho exigida pela sociedade � for�osamente limitada pelo consumo e pela abund�ncia de mat�ria-prima, por que raz�o devorar em seis meses o trabalho de todo o ano? Porque n�o distribu�-lo uniformemente por doze meses e for�ar todos os oper�rios a contentar-se com seis ou cinco horas por dia, durante o ano, em vez de apanhar indigest�es de doze horas durante seis meses? Seguros da sua parte di�ria de trabalho, os oper�rios j� n�o se invejar�o, j� n�o se bater�o para arrancarem mutuamente o trabalho das m�os e o p�o da boca; ent�o, n�o esgotados de corpo e de esp�rito, come�ar�o a praticar as virtudes da pregui�a.

Embrutecidos pelo seu v�cio, os oper�rios n�o conseguiram elevar-se � intelig�ncia deste fato segundo o qual, para ter trabalho para todos era preciso racion�-lo como � �gua num navio em perigo. No entanto, os industriais, em nome da explora��o capitalista, j� h� muito que pediram um limite legal do dia de trabalho. Perante a Comiss�o de 1860 sobre o ensino profissional, um dos maiores manufatureiros da Als�cia, o Sr. Bourcart, de Guebwiller, declarava:
"O dia de trabalho de doze horas era excessivo e devia ser reduzido para onze e aos s�bados devia-se suspender o trabalho �s duas horas. Posso aconselhar a ado��o desta medida embora pare�a onerosa � primeira vista; experimentamo-la nos nossos estabelecimentos industriais h� j� quatro anos e demo-nos bem e a produ��o m�dia, longe de diminuir, aumentou."

No seu estudo sobre as m�quinas, o Sr. F. Passy cita a seguinte carta de um grande industrial belga, o Sr. M. Ottavaere:

"As nossas m�quinas, embora sejam as mesmas que as das f�bricas de fia��o inglesas, n�o produzem o que deveriam produzir e o que produziriam essas mesmas m�quinas em Inglaterra, embora as f�bricas de fia��o funcionem menos duas horas por dia. [...] Trabalhamos todos duas longas horas a mais, estou convencido de que, se trabalh�ssemos onze horas em vez de treze, ter�amos a mesma produ��o e, por conseguinte, produzir�amos mais economicamente. "

Por outro lado, o Sr. Leroy-Beaulieu afirma que "um grande manufatureiro belga observa muito bem que nas semanas em que calha um dia feriado a produ��o n�o � inferior �s das semanas normais" (6).

Aquilo que o povo, logrado na sua ingenuidade pelos moralistas, nunca ousou, ousou-o um governo aristocr�tico. Desprezando as elevadas considera��es morais e industriais dos economistas, que, como as aves de mau agoiro, cacarejavam que diminuir uma hora ao trabalho das f�bricas era decretar a ru�na da ind�stria inglesa, o governo de Inglaterra proibiu por lei, estritamente observada, trabalhar mais de dez horas por dia; e, depois disso tal como antes, a Inglaterra continua a ser a primeira na��o industrial do mundo.

Eis a grande experi�ncia inglesa, eis a experi�ncia de alguns capitalistas inteligentes, ela demonstra irrefutavelmente que, para refor�ar a produtividade humana, tem de se reduzir as horas de trabalho e multiplicar os dias de pagamento e os feriados, e o povo franc�s n�o est� convencido. Mas se uma miser�vel redu��o de duas horas aumentou em dez anos a produ��o inglesa em cerca de um ter�o (7), que ritmo vertiginoso imprimiria � produ��o francesa uma redu��o geral de tr�s horas no dia de trabalho? Os oper�rios n�o conseguem compreender que, cansando-se excessivamente, esgotam as suas for�as antes da idade de se tornarem incapazes para qualquer trabalho; que absorvidos, embrutecidos por um �nico v�cio, j� n�o s�o homens, mas sim restos de homens; que matam neles todas as belas faculdades para s� deixarem de p�, e luxuriante, a loucura furiosa do trabalho.

Ah! como papagaios de Arc�dia repetem a li��o dos economistas: "Trabalhemos, trabalhemos para aumentar a riqueza nacional." O idiotas! � porque trabalhais demais que a ferramenta industrial se desenvolve lentamente. Deixai de vociferar e escutai um economista; ele n�o � um �guia, n�o � o Sr. L. Reybaud, que tivemos a felicidade de perder h� alguns meses:

"De um modo geral, � na base das condi��es de m�o-de-obra que se regula a revolu��o nos m�todos de trabalho. Enquanto a m�o-de-obra fornece os seus servi�os a baixo pre�o, esbanjam-na; procuram poup�-la quando os seus servi�os se tornam mais caros." (8)

Para for�ar os capitalistas a aperfei�oarem as suas m�quinas de madeira e de ferro, � preciso elevar-se os sal�rios e diminuir as horas de trabalho das m�quinas de carne e osso. As provas? Podemos fornec�-las �s centenas. Na f�brica de fia��o, o tear mec�nico (self acting mule) foi inventado e aplicado em Manchester, porque os fiandeiros se recusavam a trabalhar tanto tempo como antes.

Na Am�rica, a m�quina invadiu todos os ramos da produ��o agr�cola, desde o fabrico da manteiga at� � sacha dos trigos: porqu�? Porque o Americano, livre e pregui�oso, preferiria morrer mil vezes a ter a vida bovina do campon�s franc�s. A lavra, t�o penosa na nossa gloriosa Fran�a, t�o rica de aguamentos, �, no Oeste americano, um agrad�vel passatempo ao ar livre que se pratica sentado, fumando descuidadamente o seu cachimbo.

NOTAS:
(1) No Antigo Regime, as leis da Igreja garantiam ao trabalhador 90 dias de descanso (52 domingos e 38 dias feriados) durante os quais era estritamente proibido trabalhar. Era o grande crime do catolicismo, a causa principal da irreligi�o da burguesia industrial e comercial. Na Revolu��o, mal esta foi senhora da situa��o, aboliu os dias feriados e substituiu a semana de sete dias pela de dez. Libertou os oper�rios do jugo da Igreja para melhor os submeter ao jugo do trabalho. O �dio pelos dias feriados s� aparece quando a moderna burguesia industrial e comerciante ganha corpo, entre os s�culos XV e XVI. Henrique IV pediu a sua redu��o ao Papa; este recusou, porque "uma das heresias que correm atualmente diz respeito �s festas" (carta do cardeal d'Ossat). Mas, em 1666, Perefixe, arcebispo de Paris suprimiu 17 na sua diocese. O protestantismo, que era a religi�o crist� adaptada �s novas necessidades industriais e comerciais da burguesia, preocupou-se menos com o descanso popular; destronou no c�u os santos para abolir na terra as suas festas. A reforma religiosa e o livre pensamento filos�fico n�o eram sen�o pretextos que permitiram � burguesia jesu�ta e voraz escamotear os dias de festa do popular.

(2) Estas festas pantagru�licas duravam semanas. Don Rodrigo de Lara ganha a sua noiva expulsando os Mouros de Calatrava-a-velha e o Romancero narra que:

Las bodas fueron en Burgos,
Las tornabodas en Salas:
En bodas y tornabodas
Passaron siete semanas

Tantas vienen de las gentes,

Que no caben por las plazas...

(As bodas foram em Burgos, o regresso das bodas em Salas; em bodas e regresso de bodas passaram sete semanas; acorrem tantas pessoas que n�o cabem nas pra�as...) Os homens destas bodas de sete semanas eram os her�icos soldados das guerras da independ�ncia.

(3) Karl Marx, O Capital, t. III.

(4) "A propor��o segundo a qual a popula��o de um pais � empregada como dom�stica, ao servi�o das classes abastadas, indica o seu progresso em riqueza nacional e em civiliza��o.)" (R. M. Martin, Ireland before and after the Union, 1818.) Gambetta, que negava a quest�o social, depois de j� n�o ser advogado pobre do Caf� Procope, queria certamente referir-se a essa classe dom�stica sempre crescente quando ele reclamava o advento das novas camadas sociais.


(5) Dois exemplos: o governo ingl�s, para agradar aos pa�ses indianos que, apesar das fomes peri�dicas que desolam o pa�s, teimam em cultivar a dormideira em vez de arroz ou de trigo, viu-se obrigado a empreender guerras sangrentas para impor ao governo chin�s a livre introdu��o do �pio indiano. Os selvagens da Polin�sia, apesar da mortalidade que da� adveio, viram-se obrigados a vestirem-se e a embriagarem-se � inglesa para consumirem os produtos das destilarias da Esc�cia e das tecelagens de Manchester.
(6) Paul Leroy-Beaulieu, La Question Ouvriere au XIV siecle, 1872.
(7) Eis, segundo o c�lebre estat�stico R. Giffen, do Departamento de Estat�stica de Londres, a progress�o crescente da riqueza nacional da Inglaterra e da Irlanda em:
1814 - ela era de 55 mil milh�es de francos1865- 162,5 mil milh�es de francos
1875- 212,5 mil milh�es de francos
(8) Louis Reybaud, Le Coton, son R�gime, ses Probl�mes, 1863.

IV - PARA NOVA M�SICA, NOVA CAN��O

Se, diminuindo as horas de trabalho, se conquista para a produ��o social novas for�as mec�nicas, obrigando os oper�rios a consumir os seus produtos, conquistar-se-� um enorme ex�rcito de for�as de trabalho. A burguesia, liberta ent�o da sua tarefa de consumidor universal, apressar-se-� a licenciar a barafunda de soldadas, de magistrados, de vigaristas, de proxenetas, etc., que retirou do trabalho �til para a auxiliar a consumir e a desperdi�ar. � ent�o que o mercado do trabalho ficar� a transbordar, � ent�o que ser� necess�ria uma lei de ferro para proibir o trabalho: ser� imposs�vel encontrar trabalho para este bando de anteriores improdutivos, mais numerosos do que os piolhos da madeira. E a seguir a eles ser� necess�rio pensar em todos aqueles que proviam as suas necessidades e gostos f�teis e dispendiosos. Quando j� n�o houver mais lacaios e generais a quem dar gal�es, mais prostitutas livres e casadas para cobrir de rendas, mais canh�es para furar, mais pal�cios para construir, ser� necess�rio impor, atrav�s de leis severas, �s oper�rias e aos oper�rios de passamanaria, de rendas, de ferro, de constru��o civil, higi�nicos passeios em escaler e os exerc�cios coreogr�ficos para o restabelecimento da sua sa�de e o aperfei�oamento da sua ra�a. Desde que os produtos europeus consumidos no local n�o sejam transportados para o diabo, ser� preciso que os marinheiros, as tripula��es, os camionistas se sentem e aprendam a passar o tempo na ociosidade. Os bem-aventurados Polin�sios poder�o ent�o entregar-se ao amor livre sem recear os pontap�s da V�nus civilizada e os serm�es da moral europ�ia.

H� mais. Para encontrar trabalho para todos os n�o valores da sociedade atual, para deixar a ferramenta industrial desenvolver-se indefinidamente, a classe oper�ria dever�, tal como a burguesia, violentar os seus gostos abstinentes e desenvolver indefinidamente as suas capacidades consumidoras. Em vez de comer por dia uma ou duas on�as de carne dura, quando a comer, comer� alegres bifes de uma ou duas libras; em vez de beber moderadamente mau vinho, mais papista que o papa, beber� grandes e profundos cop�zios de bord�us, de borgonha, sem batismo industrial, e deixar� a �gua para os animais.

Os prolet�rios meteram na cabe�a infligir aos capitalistas dez horas de forja e de refinaria; eis o grande erro, a causa dos antagonismos sociais e das guerras civis. Ser� necess�rio n�o impor o trabalho mas proibi-lo. Ser� permitido aos Rothschild e aos Say provarem que foram durante toda a sua vida perfeitos velhacos; e se eles jurarem que querem continuar a viver como perfeitos velhacos, apesar do arrebatamento geral pelo trabalho, ser�o registados e, nas respectivas c�maras, receber�o todas as manh�s uma moeda de vinte francos para os seus pequenos prazeres. As disc�rdias sociais desaparecer�o. Os que vivem dos rendimentos, os capitalistas, ser�o os primeiros a unir-se ao partido popular, uma vez convencidos de que, longe de se lhes querer mal, se pretende pelo contr�rio livr�-los do trabalho de superconsumo e de desperd�cio pelo qual foram esmagados desde o seu nascimento. Quanto aos burgueses incapazes de provar os seus t�tulos de velhacos, deix�-los-�o seguir os seus instintos: existe um n�mero suficiente de profiss�es nojentas para os colocar Dufaure limparia as latrinas p�blicas; Galliffet assassinaria os porcos sarnosos e os cavalos inchados; os membros da comiss�o das gra�as, enviados a Poissy (1), marcariam o bois e os carneiros para abater; os senadores, ligados �s pompas f�nebres, far�o de gatos-pingados. Para outros, encontrar-se-�o profiss�es � altura da sua intelig�ncia. Lorgeril e Broglie rolhar�o as garrafas de champanhe, mas seriam amorda�ados para n�o se embriagar; Ferry, Freycinet, Tirard, destruiriam os percevejos e os vermes dos minist�rios e de outros albergues p�blicos No entanto, ser� necess�rio por os dinheiros p�blicos fora do alcance dos burgueses por se recear os h�bitos adquiridos.

Mas tirar-se-� uma dura e longa vingan�a dos moralistas que perverteram a natureza humana, beatos falsos, santarr�es, hip�critas "e outras seitas de pessoas como estas que se disfar�aram para enganar o mundo. Porque, dando a entender ao popular comum que n�o se ocuparam sen�o em contempla��es e devo��o, em jejuns e macera��es da sensualidade, sen�o realmente para sustentar e alimentar a pequena fragilidade da sua humanidade: pelo contr�rio, zombam. E Deus sabe de que maneira! Et Curios simulant sed Bacchnalia vivunt (2). Podeis l�-lo em grandes letras e em iluminuras nos seus focinhos vermelhos e no seu ventre saliente, quando n�o se perfumam de enxofre" (3).

Nos dias de grandes festas populares, onde, em vez de comerem p� como nos 15 de Agosto e nos 14 de Julho dos burgueses, os comunistas e os coletivistas fizeram andar as garrafas e os presuntos e voar as ta�as, os membros da Academia das Ci�ncias Morais e Pol�ticas, os padres de vestes longas e curtas da igreja econ�mica, cat�lica, protestante, judaica, positivista e livre pensadora, os propagadores do malthusianismo e da moral crist�, altru�sta, independente ou submetida, vestidos de amarelo, segurar�o na vela at� se queimarem os dedos e viver�o em fome junto das mulheres gaulesas e das mesas carregadas de carnes, de frutos e de flores e morrer�o de sede juntos dos ton�is destapados. Quatro vezes por ano, quando as esta��es mudarem, tal como aos c�es dos amoladores ambulantes, encerr�-los-�o nas grandes rodas e durante dez horas obrig�-los-�o a moer vento. Os advogados e os legistas sofrer�o a mesma pena.

Num regime de pregui�a, para matar o tempo que nos mata segundo a segundo, haver� sempre espet�culos e representa��es teatrais; � um trabalho adotado especialmente para os nossos burgueses legisladores. Organiz�-los-emos em bandos que percorrem as feiras e as aldeias, dando representa��es legislativas. Os generais, com botas de montar, o peito agaloado de atacadores, de crach�s, de cruzes da Legi�o de honra, ir�o pelas ruas e pelas pra�as, recrutando as boas pessoas. Gambetta e Cassagnac, seu compadre, far�o a pantominice da porta. Cassagnac, em fato de gala de mata-mouros, revirando os olhos, torcendo o bigode, cuspindo a estopa inflamada, amea�ar� todos com a pistola do pai e cair� num buraco mal lhe mostrem um retrato de Lu�lier; Gambetta discorrer� sobre a pol�tica externa, sobre a pequena Gr�cia que o endoutoriza e largar� fogo � Europa para roubar a Turquia; sobre a grande R�ssia que o estultifica com a compota que ela promete fazer com a Pr�ssia e que deseja a oeste da Europa feridas e incha�os para enriquecer a leste e estrangular o niilismo no interior; sobre o Sr. Bismarck, que foi bastante bom para lhe permitir que se pronunciasse sobre a amnistia... depois, desnudando a sua vasta barriga pintada a tr�s cores, tocar� nela a chamada e enumerar� os deliciosos animaizinhos, as verdelhas, as trufas, os copos de Margaux e de Yquem que tragou para encorajar a agricultura e manter alegres os eleitores de Belleville.

Na barraca, come�ar-se-� pela Farsa Eleitoral.

Diante dos eleitores com cabe�as de madeira e orelhas de burro, os candidatos burgueses, vestidos como palha�os, dan�ar�o a dan�a das liberdades pol�ticas, limpando a face e o posf�cio com os seus programas eleitorais de m�ltiplas promessas e falando com l�grimas nos olhos das mis�rias do povo e com voz de bronze das gl�rias da Fran�a; e as cabe�as dos eleitores gritam em coro e solidamente: hi han! hi han!

Depois come�ar� a grande pe�a: O Roubo dos Bens da Na��o.

A Fran�a capitalista, enorme f�mea, de face peluda e de cr�nio calvo, deformada, com carnes fl�cidas, balofas, deslavadas, com olhos sem vida, ensonada e bocejando, est� reclinada num canap� de veludo; a seus p�s, o Capitalismo industrial, gigantesco organismo de ferro, com uma m�scara simiesca, devora mecanicamente homens, mulheres, crian�as, cujos gritos l�gubres e terr�veis enchem o ar; a Banca com focinho de fuinha, com corpo de hiena e m�os de harpia, rouba-lhe habilmente do bolso as moedas de cem soldos. Hordas de miser�veis prolet�rios descarnados, escoltados por gendarmes, de sabre desembainhado, expulsos pelas f�rias que os zurzem com os chicotes da fome, trazem para os p�s da Fran�a capitalista montes de mercadorias, barricas de vinho, sacos de ouro e de trigo. Langlois, com os cal��es numa m�o, o testamento de Proudhon na outra, o livro do or�amento entre os dentes, p�e-se � frente dos defensores dos bens da na��o e monta a guarda. Uma vez depostos os fardos, mandam expulsar os oper�rios � coronhada e a golpes de baioneta e abrem a porta aos industriais, aos comerciantes e aos banqueiros.

De cambolhada, eles precipitam-se sobre o monte, tragando tecidos de algod�o, sacos de trigo, lingotes de ouro, despejando pipas; sem poderem mais, sujos, nojentos, ficam prostrados nos seus excrementos e nos seus v�mitos... Ent�o ribomba o trov�o, a terra agita-se e entreabre-se, surge a Fatalidade hist�rica; com o seu p� de ferro ela esmaga as cabe�as daqueles que solu�am, cambaleiam, caem e j� n�o podem fugir, e com a sua grande m�o derruba a Fran�a capitalista, estupefacta e suando de medo.

Se, desenraizando do seu cora��o o v�cio que a domina e avilta a sua natureza, a classe oper�ria se erguesse com a sua for�a terr�vel, n�o para reclamar os Direitos do Homem, que n�o s�o sen�o os direitos da explora��o capitalista, n�o para reclamar o Direito ao Trabalho, que n�o � sen�o o direito � mis�ria, mas para forjar uma lei de bronze que pro�ba todos os homens de trabalhar mais de tr�s horas por dia, a Terra, a velha Terra, tremendo de alegria, sentiria saltar nela um novo universo... Mas como pedir a um proletariado corrompido pela moral capitalista uma resolu��o viril?

Tal como Cristo, a triste personifica��o da escravatura antiga, os homens, as mulheres, as crian�as do Proletariado sobem penosamente h� um s�culo o duro calv�rio da dor: desde h� um s�culo que o trabalho for�ado quebra os seus ossos, magoa as suas carnes, d� cabo dos seus nervos; desde h� um s�culo que a fome torce as suas entranhas e alucina os seus c�rebros!... � Pregui�a, tem piedade da nossa longa mis�ria! � Pregui�a, m�e das artes e das nobres virtudes, s� o b�lsamo das ang�stias humanas!

NOTAS:
(1) Poissy: Pris�o Central.
(2) Simulam ser Curius e vivem como nas Bacanais (Juvenal).
(3) Pantagruel, t. II, Cap. LXXIV.

AP�NDICE

Os nossos moralistas s�o pessoas muito modestas; se inventaram o dogma do trabalho, duvidam da sua efic�cia para tranq�ilizar a alma, regozijar o esp�rito e manter o bom funcionamento dos rins e outros �rg�os; querem experimentar a sua utiliza��o nos populares, in anima vili antes de o voltar contra os capitalistas, cujos v�cios t�m como miss�o desculpar e autorizar.
Mas, fil�sofos de quatro tost�es a d�zia, porqu� preocupardes-vos assim a elucubrar uma moral cuja pr�tica n�o ousais aconselhar aos vossos senhores? O vosso dogma do trabalho, do qual vos mostrais t�o orgulhosos, quereis v�-lo escarnecido, amaldi�oado? Abramos a hist�ria dos povos antigos e os escritos dos seus fil�sofos e dos seus legisladores.

"N�o posso afirmar, diz o pai da hist�ria, Her�doto, que os Gregos receberam dos Eg�pcios o desprezo que t�m pelo trabalho, porque encontro o mesmo desprezo estabelecido entre os Tr�cios, os Citas, os Persas e os L�dios; numa palavra, por que, na maior parte dos b�rbaros, aqueles que aprendem as artes mec�nicas e at� mesmo os seus filhos s�o considerados como os �ltimos cidad�os.. - Todos os Gregos foram educados nestes princ�pios, especialmente os Lacedem�nios." (1)

"Em Atenas, os cidad�os eram verdadeiros nobres que s� se deviam ocupar da defesa e da administra��o da comunidade, como os guerreiros selvagens de onde tinham origem. Devendo, portanto, estar livres todo o tempo para velar, com a sua for�a intelectual e f�sica, pelos interesses da Rep�blica, encarregavam os escravos de todo o trabalho.
O mesmo sucedia com a Lacedem�nia, onde at� as mulheres n�o deviam nem fiar nem tecer para n�o se furtarem � sua nobreza." (2)

Os Romanos s� conhecem duas profiss�es nobres e livres, a agricultura e as armas; todos os cidad�os viviam por direito � custa do Tesouro, sem poderem ser obrigados a prover � sua subsist�ncia por nenhum dos sordidae artes (designavam assim os misteres) que pertenciam por direito aos escravos. Brutus, o Velho, para levantar o povo, acusou sobretudo Tarqu�nio, o tirano, de ter feito dos artes�os e dos pedreiros cidad�os livres (3).

Os fil�sofos antigos discutiam entre si sobre a origem das id�ias, mas estavam de acordo se se tratava de abominar o trabalho.

"A natureza, diz Plat�o, na sua utopia social, na sua Republica modelo, a natureza n�o fez nem o sapateiro nem o ferreiro; essas ocupa��es degradam as pessoas que as exercem, vis mercen�rios, miser�veis sem nome que pelo seu pr�prio estado s�o exclu�dos dos direitos pol�ticos. Quanto aos mercadores acostumados a mentir e a enganar, s� ser�o suportados na cidade como um mal necess�rio. O cidad�o que se tiver aviltado pelo com�rcio ser� perseguido por esse delito. Se se provar a acusa��o, ser� condenado a um ano de pris�o. A puni��o ser� duplicada em cada reincid�ncia." (4)

No seu Econ�mico, Xenofonte escreve:
"As pessoas que se dedicam aos trabalhos manuais nunca s�o elevadas a altos cargos e � razo�vel. Condenadas na sua grande parte a estar sentadas todo o dia, algumas mesmo a suportar um fogo cont�nuo, n�o podem deixar de ter o corpo alterado e � muito dif�cil que o esp�rito n�o se ressinta disso. "

"Que pode sair de honroso de uma loja? - confessa C�cero - e o que � que o com�rcio pode produzir de honesto? Tudo o que se chama loja � indigno de um homem honesto [...] uma vez que os mercadores n�o podem ganhar sem mentir, e o que h� de mais vergonhoso do que a mentira? Portanto, deve-se encarar como algo de baixo e de vil o mister de todos aqueles que vendem o seu esfor�o e a sua ind�stria, porque todo aquele que d� o seu trabalho por dinheiro vende-se a si mesmo e p�e-se ao n�vel dos escravos." (5)

Prolet�rios, embrutecidos pelo dogma do trabalho, compreendeis a linguagem destes fil�sofos, que escondem de v�s com cioso cuidado: - Um cidad�o que d� o seu trabalho em troca de dinheiro degrada-se ao n�vel dos escravos, comete um crime, que merece anos de pris�o?

A hipocrisia crist� e o utilitarismo capitalista n�o tinham pervertido estes fil�sofos das Rep�blicas antigas; dirigindo-se a homens livres, expunham ingenuamente o seu pensamento. Plat�o, Arist�teles, esses pensadores gigantes, cujos calcanhares os nossos Cousin, os nossos Caro, o nossos Simon s� podem atingir pondo-se nas pontas dos p�s, queriam que os cidad�os das suas Rep�blicas ideais vivessem na maior ociosidade, porque, acrescentava Xenofonte, "o trabalho tira todo o tempo e com ele n�o h� nenhum tempo livre para a Rep�blica e para os amigos". Segundo Plutarco, o grande t�tulo de Licurgo, "o mais s�bio dos homens" para admira��o da posteridade, era ter concedido a ociosidade aos cidad�os da Rep�blica proibindo-os de exercer qualquer mister (6) .

Mas, responder�o os Bastiat, os Dupanloup, os Beaulieu e companhia da moral crist� e capitalista, esses pensadores, esses fil�sofos preconizavam a escravatura. - Perfeitamente, mas acaso podia ser de outro modo atendendo �s condi��es econ�micas e pol�ticas da sua �poca? A guerra era o estado normal das sociedades antigas; o homem livre devia dedicar o seu tempo a discutir os assuntos de Estado e a velar pela sua defesa, os misteres eram ent�o demasiado primitivos e demasiado grosseiros para que, ao pratic�-los, se pudesse exercer a profiss�o de soldado e de cidad�o; para possu�rem guerreiros e cidad�os, os fil�sofos e os legisladores deviam tolerar os escravos nas Rep�blicas her�icas. - Mas os moralistas e os economistas do capitalismo n�o preconizam o salariado, a escravatura moderna? E a que homens concede a escravatura capitalista a ociosidade? - Aos Rothschild, aos Schneider, �s Sr.as Boucicaut, in�teis e prejudiciais, escravos dos seus v�cios e dos seus criados.

"O preconceito da escravatura dominava o esp�rito de Pit�goras e de Arist�teles", escreveu-se desdenhosamente; e no entanto Arist�teles previa que "se cada utens�lio pudesse executar sem intima��o, ou ent�o por si s�, a sua fun��o pr�pria, tal como as obras-primas de D�dalo se moviam por si mesmas ou tal como os trip�s de Vulcano que se punham espontaneamente ao seu trabalho sagrado; se, por exemplo, as lan�adeiras dos tecel�es tecessem por si pr�prias, o chefe de oficina j� n�o teria necessidade de ajudantes, nem o senhor de escravos".

O sonho de Arist�teles � a nossa realidade. As nossas m�quinas a vapor, com membros de a�o, infatig�veis, de maravilhosa e inesgot�vel fecundidade, realizam por si pr�prias docilmente o seu trabalho sagrado; e, no entanto, o g�nio dos grandes fil�sofos do capitalismo continua a ser dominado pelo preconceito do salariado, a pior das escravaturas. Ainda n�o compreendem que a m�quina � o redentor da humanidade, o Deus que resgatar� o homem das s�rdidas artes e do trabalho assalariado, o Deus que lhe dar� tempos livres e a liberdade.

NOTAS:
(1) Her�doto, t. II, trad. Larcher, 1876.
(2) Biot, De l'Abolition de l'Esclavage Ancien en Occident, 1840.
(3) Tito L�vio, L. 1.
(4) Plat�o, Rep�blicas, 1. V.
(5) C�cero, Des Devoirs, 1, t�t. II, cap. XLII.
(6) Plat�o, Rep�blica, V e As Leis, III; Arist�teles, Pol�tica, II e VII; Xenofontes, Econ�mico, IV e VI; Plutarco, Vida de Licurgo.

 

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