sem valor
sobre a obsolescência da sociedade do trabalho e da mercadoria

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O AUTO-ENGANO DA ESQUERDA NO GOVERNO

Rall

Dois fenômenos têm se manifestado nos tempos atuais com a crise do valor: um são as bolhas financeiras que pululam nos mercados dos quatro cantos do mundo, outro, mais ligado à administração da crise pelo estado, está relacionado com a redução do chamado "custo-país", que para alguns nada mais é do que os benefícios garantidos à população, incorporados à constituição como direitos, mas que encarecem a produção. Como no Terceiro Mundo a assimilação de novas tecnologias pelas empresas não se dá na mesma velocidade que nos países chamados "desenvolvidos", o desmantelamento da Seguridade Social e a legalização do emprego "precarizado" pelo mercado, reduzindo com isso os custos no setor público e privado, são vistos como saídas para acumulação privada e salvação do estado falido. Essas medidas, acompanhadas das privatizações, do pagamento das dívidas e da política monetária estritamente antiinflacionária, são as receitas do cardápio neoliberal mais festejadas pelo capital mundial.

Nem sempre fáceis de serem aplicadas quando os governos são caracterizados como conservadores (apesar do pouco sucesso, lembre-se da resistência às reformas de Margareth Tatcher na Inglaterra, Fernando Henrique Cardoso no Brasil e agora, Berlusconi na Itália), nos governos ditos "progressistas" são executadas com grande entusiasmo e poucas manifestações contrárias. Sem dúvida, até pela sua origem, é fácil um governo de esquerda convencer os sindicatos, que têm muitos dos seus burocratas beneficiados em postos-chave do aparato estatal e em seus tentáculos, e as lideranças dos movimentos sociais cooptadas pelo charme do poder. São os pelegos do cordão escarlate.

Aqui, no Brasil, depois da previdência é a vez da legislação trabalhista. No calor de uma noite regada a bom uísque, foi dito pelo chefe da nação aos jornalistas que a única coisa inegociável nesta provável reforma seria as férias, apesar de não curti-las com tanto entusiasmo (Folha de São Paulo, 13.02.2004). A chamada flexibilização das leis trabalhistas nada mais é do que o nivelamento por baixo do que resta de emprego estruturado, para com as sobras, legalizar precariamente o subemprego. Mas, e aí, não se mexe no capital? O fim em si é buscar meios para garantir a acumulação capitalista, esse é o papel do estado na administração repressiva da crise, não importa a cor do lenço que se usa no poder.

A esquerda auto-engana-se com um discurso de que tais medidas, ao baratear a mercadoria força-de-trabalho, abundante e supérflua, fazem gerar novos investimentos e empregos. Não enxerga que nos tempos atuais, o capital monetário acumulado prefere o mundo etéreo das bolhas a ser reinvestido na produção que não lhe garante rentabilidade. O cerne da questão está na terceira revolução industrial da microeletrônica, que conduz à crise do trabalho e ao desemprego estrutural, e que no estágio atual do capitalismo de concorrência global é animada pelas políticas estatais, aparentemente contrárias ao fechamento de postos de trabalho.

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