sem valor
sobre a obsolescência da sociedade do trabalho e da mercadoria

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DIALÉTICA DE ARAQUE

Cláudio R. Duarte

Habermas contra Adorno,

Lula contra Antônio Conselheiro,

Brás Cubas contra si mesmo:

a ideologia da dialética com final feliz

Reabilitando a "dialética" após seu fracasso

"Viva pois a História, a volúvel História que dá para tudo (...)".

"Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes" (Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas, cap.4).

Um mês antes da posse do governo Lula os intelectuais brasileiros, olhando para o passado político funesto do país, demonstravam confiança. Um deles afirmava:

"Os últimos acontecimentos políticos do Brasil" – a ascensão do PT à presidência da República do Brasil – "parecem favorecer uma interpretação marxista curiosamente ortodoxa, segundo a qual o proletariado industrial seria o verdadeiro motor da renovação."

Assim dizia o filósofo brasileiro Sérgio Paulo Rouanet no artigo "O Sertão da dialética negativa", num caderno Mais! da Folha de São Paulo (1/12/2002), dedicado ao centenário de "Os Sertões" de Euclides da Cunha. E continuava:

"Em qualquer hipótese, é o fim da dialética negativa no Brasil. Hegel é mais atual que Adorno. No país novo que está começando, não se trata de idealizar as contradições, mas de superá-las, em busca das sínteses possíveis. E é o fim, em especial, da aplicação da dialética negativa à crítica da modernidade."

Um ato de boa fé: a "esperança venceu o medo"? Um chute despretensioso, uma opinião domingueira de jornal? Ou melhor dizer: miragem, puro sofisma e ideologia? Curiosamente, para filósofos "iluminados" como Rouanet ainda outro dia a dialética tinha ficado muito para trás na história, sob a plausível acusação de idealismo, hybris especulativa, farsa argumentativa, filosofia do sujeito etc.; depois dos anos 80 também o marxismo era para ser jogado no quartinho de despejos, já que além dos defeitos do "paradigma da produção" herdados do idealismo hegeliano, não havia mais "dialética de classes" observável no "capitalismo organizado" (como se a dita-cuja fosse decorrência imediata de um mero conflito de classes). Eis que agora, num passe de mágica, a dialética clássica, com previsível síntese realizadora do projeto moderno, ressurge em seu discurso, como fonte involuntária de legitimação do atual curso dos acontecimentos, algo muito representativo aliás da forma da intelligentsia brasileira agir e pensar: cheia da volubilidade e das soluções de compromisso ad hoc, típicas dos herdeiros de Brás Cubas.

* *

Diálogo contra dialética: a "superação" da metafísica no âmbito filosófico-político

"A opinião é a boa solda das instituições domésticas [e da] (...) política. Alguns metafísicos biliosos têm chegado ao extremo de a darem como simples produto da gente chocha e medíocre; mas é evidente que, ainda quando um conceito tão extremado não trouxesse em si mesmo a resposta, bastava considerar os efeitos salutares da opinião, para concluir que ela é a obra superfina da flor dos homens, a saber, do maior número" (Memórias Póstumas de Brás Cubas, cap. 113).

"Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros" ("Epígrafes a discursos sem assunto", cap. 119).

Um pouco antes é verdade que o socialismo tinha sido enterrado. A União Soviética se desmantelava. Hoje ninguém mais se atreve a falar em socialismo, o vermelho das bandeiras partidárias dá vergonha, os conteúdos evocados pela foice e o martelo apresentam-se real e necessariamente empoeirados.

Chegavam então os ventos "pós-modernos" (Lyotard) ou, para alguns recalcitrantes, a "modernidade reflexiva" (Giddens). Já nos anos 70 dava-se em toda a filosofia a chamada "virada pragmático-lingüística". A dialética era então trocada pelo diálogo negociado, desejadamente pós-metafísico, entre as partes da sociedade civil-burguesa. Entra em pauta nada mais nada menos que o diálogo entre os surdos interesses assentados sobre a areia movediça do valor, o solo sistêmico da "coerção muda" (Marx) exercida pelas leis fetichistas da economia política. Os habermasianos e os demais pragmatistas de plantão reinariam doravante soberanos pelos Departamentos de Filosofia e Ciências Humanas com seu alegado "reformismo radical", sem precisar reivindicar qualquer dialética ou outro tipo obsoleto de "filosofia do sujeito". A esquerda gramsciana, a dos "intelectuais orgânicos" à procura da "hegemonia", podia teoricamente se atualizar e se aliar ao devir pragmatista da nova política.

Por debaixo dos panos caíam "dialeticamente", no entanto, numa hilária cambalhota circense, na mesma posição idealista do velho Hegel, manchada da vergonhosa Realpolitik (que, em certo sentido, foi a mesma posição do marxismo social-democrata da virada do século passado): a administração "negociada" do inferno da sociedade produtora de mercadorias através da manipulação política do Estado pelos sujeitos mônadas-dinheiro. Trata-se de incluir as pessoas na cidadania do Inferno moderno. Assim querem eles continuar pensando a "emancipação".

Do outro lado do "pensamento pós-metafísico", no entanto, pós-modernos como Lyotard finalmente descartavam o debate sobre emancipação social, a título de se desvencilhar das "grandes narrativas" iluministas, inexoravelmente metafísicas; restava a opção de uma pop filosofia humilde, imanente aos labirintos sedutores dos jogos de linguagem cotidianos, restrita a descrever seus delírios com a atitude porra-louca do sujeito "descentrado", vivendo excitado, no "enxurro da vida" (como diz Brás Cubas), seus milhões de simulacros volúveis. À sua moda contemplava-se o Ser vazio da pós-modernidade – a metafísica do dinheiro sem substância – serenamente, tal como o último Heidegger. Em ambos os casos, uma atitude hiper-realista, ligeiramente cínica, demole todos os fundamentos, menos, contudo, a "metafísica" do valor capitalizado.

* *

Implementando a modernidade sem resto: o cadáver Antônio Conselheiro no supermercado

"Trouxeram depois para o litoral, onde deliravam multidões em festa, aquele crânio." (...)

Canudos só viu "o brilho da civilização através do clarão das descargas".

"Estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desaparecemos".

(Euclides da Cunha, Os Sertões).

Segundo Habermas, porém, a crise agora era sobretudo de "legitimação". Se a lei do valor-trabalho "explode", interessa arrumar outras justificativas para a sociedade moderna continuar se modernizando. Tratava-se de fundar um novo consenso, dar uma nova razão ideológica para o fetiche da mercadoria, desprovido da substância de trabalho, continuar sujeitando a todos. É claro que nunca se fala isso tão às claras, é só num trecho ou outro que vem à tona os pressupostos sistêmicos da teoria habermasiana:

"O enfoque da filosofia da práxis [marxismo] sugere que o contexto sistêmico da economia organizada de modo capitalista e seu complemento estatal é mera aparência que se reduzirá a nada com a extinção das relações de produção. Nem sequer se coloca a questão de saber se os subsistemas regidos pelos media [Poder e Dinheiro] apresentam propriedades com valor funcional independente da estrutura de classes (!)" (Habermas, Jürgen - O discurso filosófico da modernidade. São Paulo, Martins Fontes, 2000, p.95).

Realmente os mecanismos cegos e supercomplexos da divisão do trabalho, em grande parte "apenas técnicos" segundo Habermas, a cadeia de mediações capitalistas e burocráticas do mercado e do Estado etc., além de insuperáveis, nos facilitam a vida, têm ótimo "valor funcional independente" – basta pensarmos em que acontece com a vida dos povos e o meio ambiente em geral sob a tutela do capital!

Trata-se então de fazer uma renovação do contrato social – uma agenda política puro século XVIII. Com a novidade, agora, da atualização do vocabulário filosófico: os interesses dos cidadãos de mercado "livres e iguais" passam pelos diferentes "jogos de linguagem", pela "situação ideal de fala", pela "razão comunicativa", numa fabricação do "consenso" pela "comunicação sem distorção", uma "realização dialogada" dos ideais humanistas da Revolução Francesa. O monólogo coisificado e enlouquecido do trabalho abstrato teria agora como que passar "pela argumentação racional" de cada um para decidir-se, afinal, quem encosta a barriga no balcão e paga a conta. A noção de "razão comunicativa", aparentemente mais abrangente que a de "razão instrumental", no fundo é muito mais modesta e conformista. O politicismo comunicativo pode, assim, abandonar a crítica desta última aos socialistas utópicos e aos românticos em geral.

É assim que os epígonos de Habermas aplicam as lições do mestre:

"Não se trata de querer e não querer a modernidade, mas de implementar sem ambigüidade o projeto moderno, constituído, em sua essência, pelos grandes ideais humanistas do Iluminismo e que, portanto é visceralmente incompatível com a barbárie que arrasou Canudos", diz Rouanet em seu artigo citado "O sertão da dialética negativa".

Em suma, o Estado e o Mercado poderiam ter sido impostos de forma "mais civilizada" ao Sertão baiano: era questão de recorrermos ao "diálogo negociado" com figuras históricas como Antônio Conselheiro e seus camponeses, preparar uma reforma agrária pacífica com os latifundiários da região. Rouanet resume assim a situação, ao modo de um marxista do velho PCB:

"A burguesia republicana não era na realidade uma força progressista, porque estava comprometida com a grande propriedade e com a antiga classe escravocrata, revelando-se incapaz de cumprir sua missão histórica de realizar a reforma agrária".

Feita a reforma agrária, deixa-se, como se sabe, tudo por conta da lógica de mercado: a decantação dos produtores menos competitivos, até estes perderem suas terras e serem colocados para trabalhar 40 horas por semana numa fazenda, fábrica ou escritório. O mais é papo furado, conversa surda com as leis do fetiche, sem consenso pragmático para respaldo. Bem, o que resta hoje é dar a todos a chance "humanista" de fazerem o seu supermercado no final do mês e votar no próximo pleito, claro que melhor se for candidato do PT. Eis então que para dirimir ambigüidades, soldar contradições, empurrar a história para frente surge de novo a velha dialética... na sua versão "antiespeculativa" Lula "paz e amor", enquanto uma específica aliança de classes que se mantém no exato meio-termo da "razão comunicativa":

"A tarefa [modernizadora] só pode ser executada por uma classe ou aliança de classes capaz de levar em frente o projeto da modernidade, sem excessivos compromissos com as velhas elites do poder e também sem adotar uma política de terra arrasada com relação às raízes culturais do país" (Rouanet, ibid.)

* *

Das negativas: a verve dialética de Brás Cubas

"Ânimo Brás Cubas; não me sejas palerma. Que tens tu com essa sucessão de ruína a ruína ou de flor a flor? Trata de saborear a vida; e fica sabendo que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la" (Quincas Borba em diálogo com Brás Cubas, Memórias Póstumas de Brás Cubas, cap. 137).

"Vamos lá; façamo-nos governo, é tempo (...) Comecei devagar. Três dias depois, discutindo-se o orçamento da Justiça, aproveitei o ensejo para perguntar modestamente ao ministro se não julgava útil diminuir a barretina da Guarda Nacional" (ibid. cap.137).

"Que classe é essa ?" - pergunta Rouanet. Vem então à mente os camponeses, o MST. Mas não, os últimos acontecimentos políticos no Brasil parecem confirmar a volta ortodoxa do "proletariado", como já vimos.

Por um lado, temos aqui uma miragem populista, como que armada pelo narrador machadiano, pois não há qualquer dialética de classes renovada no Brasil hoje; ao contrário, o PT já disse a que veio, logo de cara nos primeiros meses, para todos os "sindicalistas vagabundos" e "sem-terra baderneiros" (como se eles quisessem mesmo vagabundear de verdade contra o capital, este sim aliás, enquanto puro dinheiro especulativo, o mestre dos vagabundos). A síntese prometida então é uma mistura contraditória de projetos assistencialistas tipo "fome zero", reforma da previdência espoliadora e reprodução ampliada do endividamento externo. E muita redução da barretina dos uniformes.

Por outro lado, trata-se de sofisma dialético, aquele mesmo que Adorno anteviu na vagabundice do conceito que, como discurso abusado e volúvel, apenas quer ganhar o debate (pretensamente "sem distorções") pondo seu interesse subjetivo (político-ideológico) formalmente por sobre o conteúdo social contraditório a ser pensado.

Ou seja, dialética "como meio de dominação, técnica formal de apologia indiferente ao conteúdo, útil àqueles que podiam pagar: o princípio de se voltar sempre, e com sucesso, contra o adversário suas próprias armas" (Adorno, Minima Moralia, §152). A "dialética" ressurrecta, nas mãos de Rouanet e outros iluminados, bem protegidos de sobrecasaca do frio e da escória provocada pelos antagonismos insuperados do capitalismo fim-de-feira, ressurge apenas como auto-engano para vencer e tapear os adversários do momento.

(janeiro-julho / 2003)

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