sem valor
sobre a obsolescência da sociedade do trabalho e da mercadoria

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O DEUS DO FIM DO MUNDO SEM CORAÇÃO

Autor Anônimo
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"Ganharás o pão com o suor do teu próprio rosto." Gênesis
"Se Deus existisse, seria preciso matá-lo." Bakunin

A mercadoria foi o único ídolo criado pela humanidade que não deixa absolutamente nenhum infiel escapar de sua inquisição. Se alguém ousa não carregar a insígnia desse deus, o dinheiro, a prova de sua fidelidade, esse alguém está inexoravelmente condenado à morte. Por mais que fuja, por mais que se esconda, é absolutamente certo que a inquisição numerária o torturará e o executará – no menos infeliz dos casos, pelo suplício da fome. A onisciência, a onipresença e a onipotência não são mais atributos imaginários de um ser imaginário, são os atributos do fetiche concreto da mercadoria pelo qual todos os seres humanos são reduzidos a meros objetos de um sujeito automático que extermina implacavelmente todos que não contribuem para o seu milagre, a multiplicação do dinheiro.

Mas, hoje, quando esse ídolo não pode mais se perpetuar a não ser destruindo seu próprio fundamento – o trabalho –, a busca desesperada e sem futuro da sua perpetuação não pode ser compreendida apenas como um fato meramente econômico. Com a crise irreversível do trabalho e do dinheiro, nos esgotos em que se transformam continentes inteiros, a religião é buscada desesperadamente cada vez mais como o sucedâneo do deus-dinheiro que abandonou seus fiéis na cruz.

A religião sempre foi instrumento de poder e dominação. A própria noção de deus é a da hierarquia transposta para o universo: um ditador absoluto e eterno. Mas, dizem, ele é "bonzinho": deu ao homem a capacidade de livre arbítrio. Só que ele é deus: seja qual for a escolha do homem, ele punirá mais cedo ou mais tarde todos os que não obedecerem a seus ditames.

Toda obediência nada mais é do que obediência à mentira. Somente quem faz algo sem pensar - isto é, sem buscar a verdade, o sentido, daquilo que faz – obedece. É claro que não é fácil à autoridade manter as pessoas sem pensar apenas com o uso da força física. Inculcar-lhes que o problema do sentido de suas vidas já está resolvido para todo o sempre como algo intocável, imaterial, sobrenatural, é a maneira mais serena de fazê-las acatar suas ordens, aceitar de bom grado todo e qualquer suplício infligido e pô-las para trabalhar.

O protótipo da moderna ditadura da economia foi, durante séculos, a religião. A própria palavra trabalho deriva de tripalium, instrumento de tortura semelhante à cruz que o rebanho cristão adotou como objeto-símbolo de um culto sadomasoquista. É graças à religião que o trabalho deixou de ser considerado a mais vil de todas as atividades humanas, para ser exaltado, junto com a tortura e a autoflagelação, como a redenção da humanidade e, portanto, como aquilo que enobrece o homem tornando-o digno de deus.

Hoje, quando o trabalho é suprimido irreversivelmente pelas máquinas, a religião não é mais o espírito de uma situação carente de espírito. Ela é a falta de coração daqueles que não conseguem aceitar que o velho mundo sem coração, o mundo do trabalho e da sobrevivência, do suplício e da tortura, se desmorone diante de seus olhos. A lobotomia religiosa é inseparável da cardiotomia - a compaixão, o amor à tortura, à crueldade, à outra face oferecida para a porrada, pela qual se espera ser salvo após a morte. Essa cardiotomia foi levada às suas últimas conseqüências sob o que se chama ciência. A ciência, a ilusão de neutralidade e objetividade, a indiferença para com o absurdo, é a melhor maneira de manter a inconsciência da realidade mentirosa da perpetuação do mundo sem coração do qual a religião necessita para reproduzir o sentido de sua própria existência.

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