sem
valor
sobre a obsolescência
da sociedade do trabalho e da mercadoria
SOBRE ARISTÓTELES E ED MOTA, TOMATES E PREGOS...
Daniel Cunha
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A voz de Ed Mota tornou conhecida a melodia: "Eu não nasci pro trabalho, eu não nasci pra sofrer". Há 2.300 anos, Aristóteles imaginava: "Se cada ferramenta pudesse executar por conta própria a sua própria função, se por exemplo as agulhas dos tecelões tecessem sozinhas, o chefe da oficina não precisaria mais de ajuda, nem o senhor de escravos". Fazer a síntese de Aristóteles e Ed Mota é o que está ao alcance da humanidade hoje.
A tecnologia já transformou o sonho de Aristóteles em realidade. Mas em forma de pesadelo, pois as relações sociais não evoluíram tão rapidamente quanto a tecnologia. Pois, na verdade, o trabalho, na sociedade atual, é um irracional fim em si mesmo, um fetiche. Quer um exemplo? Há atualmente uma polêmica envolvendo os cobradores de ônibus de Porto Alegre. A prefeitura pretende colocar catracas eletrônicas automatizadas nos ônibus. Imediatamente, os cobradores gritaram: "Nossos empregos!!!". Ora, em uma sociedade que soubesse discernir os meios dos fins, a automatização de atividades repetitivas, burocráticas e enfadonhas seria motivo de comemoração. Só não o é por causa da irracionalidade social dominante, que transforma isto em desemprego para uns, e horas extras paras outros. Conceito este, "desemprego", que só pode existir na sociedade do trabalho.
Certo, sempre teremos que construir casas, fazer comida, confeccionar roupas, etc. Mas confundir "atividade" com "trabalho" é como confundir "bebida" com "coca-cola". "Trabalho" é a forma de atividade específica da modernidade; a atividade realizada sob coerção, desvinculada de qualquer necessidade concreta, como um fim em si mesmo, como puro dispêndio de energia humana abstrata, mesmo que não haja nada para ser feito, ou somente coisas estúpidas.
A própria origem da palavra já denuncia seu verdadeiro sentido: trabalho deriva do latim tripalium. O tripalium era um instrumento de tortura, usado para torturar escravos. Sugestivo, não? A verdade é que a auto-repressão social dominante nos transforma a todos em servos voluntários; o grande orgulho de um pai é que seu filho seja "trabalhador". O primeiro passo para a superação do trabalho é a superação desta ética, a ética do tripalium, do sofrimento voluntário. E essa é a parte mais difícil.
Pois as condições técnico-materiais para a superação do trabalho já existem hoje. A tecnologia atual já pode nos poupar de toda atividade enfadonha, repetitiva e estafante, com computadores, robôs e mecanismos automáticos. A verdade é que o trabalho já se tornou obsoleto. A produção material se desvinculou do trabalho humano. A superação do trabalho apenas espera a sua realização social: cumpre realizar a melodia de Ed Mota, ou seja, que a humanidade tome consciência de si própria e de suas possibilidades.
A tradicional luta da esquerda tradicional, pelo "direito ao trabalho", deve ser radicalizada pela luta pela abolição do trabalho. Em 1967, Raoul Vaneigem já sugeria: "Veremos um dia ainda os grevistas, reivindicando a automação e a semana de dez horas, escolherem, como forma de greve, fazer amor nas fábricas, nos escritórios e nos centros culturais?"
A superação do trabalho passa pela modificação do modo de produção dominante, pela superação do fetiche da mercadoria. Pois a mercadoria é o suporte do trabalho, é onde se armazena o trabalho ("trabalho morto"), quantificado pelo "valor" (valor-de-troca). Este valor-de-troca está no cerne do fim em si mesmo da sociedade do trabalho. É somente através dele que se pode, por exemplo, determinar quantos pregos valem um tomate. Ao "homem capitalista" essa questão parece tola, mas um minuto de reflexão basta para desfazer a obviedade: é preciso que haja uma abstração comum para que coisas tão díspares quanto tomates e pregos possam ser equiparados. Esta abstração comum é o "trabalho" que está armazenado nas mercadorias. É por isso que a mercadoria é o suporte do trabalho; é por isso que a superação do trabalho passa pela superação da sociedade produtora de mercadorias.
O valor-de-uso de uma mercadoria é auto-evidente. Podemos fazer uma salada de tomates; o tomate tem cor, sabor, textura. Ou podemos pregar um quadro na parede; o prego tem forma, dureza. Por outro lado, o valor-de-troca é fetichista: por mais que olhemos, toquemos, cheiremos, quebremos, analisemos ao microscópio ou lambamos uma mercadoria, não detectaremos nenhum "valor". O "homem capitalista" enxerga "valor" (valor-de-troca) na mercadoria de forma semelhante a um índio animista que enxerga deuses no sol e na lua, com a desvantagem daquele ser um processo necessário: se quisermos sobreviver (comer!), precisamos trocar no mercado.
Por sua vez, este valor-de-troca fetichista está no coração do ciclo tautológico da sociedade do trabalho: dinheiro-trabalho-mercadoria-dinheiro; um círculo vicioso infinito, um código cibernético fetichista (Robert Kurz). Tal círculo vicioso só é possível por conta do valor-de-troca, representado pelo dinheiro. É este círculo, por sua vez, que se torna autônomo: é a colonização da vida pela economia. Neste ponto, o trabalho torna-se um fim em si mesmo; instaura-se a "relação social entre coisas" (Marx). No estágio máximo da falta de consciência de si da sociedade, os homens tornam-se espectadores de um "espetáculo que não canta os homens e as suas armas, mas as mercadorias e as suas paixões. É nesta luta cega que cada mercadoria, ao seguir a sua paixão, realiza, de fato, na inconsciência, algo de mais elevado: o devir-mundo da mercadoria, que é também o devir-mercadoria do mundo." (Guy Debord).
A superação desse "estado de coisas" (o leitor deve perceber a dubiedade da expressão) passa pela construção de um processo consciente de tomada de decisões sobre a satisfação das necessidades e a utilização de recursos naturais, ao invés da irracional busca do lucro da sociedade do trabalho. Ou seja, passa pela substituição da sociabilização fetichista por uma sociabilização consciente. Isto poderia ser feito na forma de conselhos ligados em rede, desde a escala de bairro até a mundial, como autogestão generalizada.
Por outro lado, não se pode ter a ilusão de que o trabalho possa ser abolido pela via estatal. Pois o Estado é dependente do trabalho; é dos processos do trabalho, mercadoria e dinheiro que o Estado se sustenta, que recolhe seus impostos. O Estado nada mais é do que o aparato regulador dos movimentos da mercadoria, que lhe confere forma jurídica, infra-estrutura, etc. A abolição do trabalho por parte do Estado equivaleria à sua autonegação. Por isso mesmo, a democracia burguesa toma como pressuposto axiomático o modo de produção mercantil. A democracia admite discutir tudo, menos a forma de sociabilização baseada na produção de mercadorias. A ilusão democrática é a democracia ilusória. A luta contra o trabalho é antipolítica e antieconômica.
Como se não bastasse a escravização das pessoas aos seus ditames, o império do trabalho tem um "efeito colateral": a destruição dos fundamentos da vida. Pois a lógica do lucro é a "razão abstrata": para ter lucro, pouco importa se recursos naturais são destruídos irracionalmente. A lógica da rentabilidade é desprovida de qualquer conteúdo sensível; o que decorre diretamente do fetiche da mercadoria, do valor-de-troca abstrato que é independente de qualquer conteúdo sensível da mercadoria. Como a busca do lucro, o "crescimento econômico", é um imperativo dessa sociedade, a destruição do meio ambiente é apenas uma decorrência lógica. Produtos inúteis são inventados, necessidades artificiais são fomentadas pela publicidade, a obsolescência programada torna-se lugar-comum; tudo para manter a roda fetichista girando. Hoje, estamos chegando a um ponto crítico em que o equilíbrio ecológico do planeta como um todo está sendo colocado em xeque. Por outro lado, é ilusão crer que políticas estatais possam conter a destruição dos fundamentos da vida, pois, como já dito, o próprio Estado se sustenta desse "crescimento econômico" abstrato.
Mas a "razão abstrata" não se limita a destruir os recursos naturais. O próprio tempo tornou-se abstrato, pois a quantidade de trabalho despendida precisa ser quantificada: tempo é dinheiro! Deve-se sair de casa para trabalhar sempre às sete horas da manhã, no verão e no inverno, mesmo que o sol ainda não tenha se levantado, mesmo que esteja caindo uma tempestade. Isto quando não se trabalha à noite (!). É o tempo desvinculado de qualquer ciclo natural ou biológico, o tempo abstrato. Também o espaço foi colonizado. As medidas que tinham como referência o corpo humano, como o "pé", foram substituídas pelo metro, "a quadragésima milionésima parte do perímetro da Terra". A arquitetura e o urbanismo se tornam cada vez mais funcionais, destacados do ambiente circundante. As cidades se transformam em meros corredores de passagens de tomates e pregos, e de negociadores-de-tomates-e-pregos. O próprio lazer se transforma em tempo de consumo de mercadorias. O mundo da abstração é a abstração do mundo, e o seu imperador é o valor-de-troca.
Após essa breve incursão pelos "efeitos colaterais", voltemos ao ponto principal. Se por um lado, aqueles cujo trabalho é considerado supérfluo (os "desempregados"), cujo número cresce cada vez mais, têm a sua subsistência ameaçada, por outro, para a minoria que ganha a competição, talvez a falta de sentido da irracionalidade dominante se torne ainda mais clara. Eles ganham "um mundo onde a garantia de não morrer de fome é obtida em troca do risco de morrer de tédio; o rico é hoje aquele que possui o maior número de objetos pobres" (Vaneigem). A vida na sociedade do trabalho é pobre, independentemente da conta bancária; é a sociedade da sobrevivência.
Trabalho, hoje, é um conceito obsoleto. E será cada vez mais. Como já disse o Grupo Krisis, "a venda da mercadoria força de trabalho será no século XXI tão promissora quanto a venda de diligências no século XX". E não há motivos para lamentos. Se soubermos usar de forma emancipatória as forças produtivas com que sonhava Aristóteles, poderemos terminar de cantar a música de Ed Mota: "vamos dançar lá na rua, vamos dançar pra valer, vamos dançar enquanto é tempo, nos aplicar a viver!".