sem
valor
sobre a obsolescência
da sociedade do trabalho e da mercadoria
A SOCIEDADE DO ALGORITMO
O capitalismo como mundo cibernético
Daniel Cunha
[email protected]
Uma das mistificações da sociedade capitalista é o conceito de "profissão". Este conceito surgiu com a necessidade da divisão de trabalho na sociedade capitalista, no início da história das fábricas, visando ao aumento de lucros. E teve sua justificação teológica no conceito de "vocação" desenvolvido por Lutero, que hoje já rompeu as fronteiras do protestantismo. Logo após saber o nome de alguém, a curiosidade seguinte é "o que você faz?", como se isso dissesse tudo sobre uma pessoa, seus sentimentos, seus desejos, suas aspirações.
Este conceito de "profissão", produto de um tipo de sociedade específica e de uma era específica, é de tal forma interiorizado nos "homens capitalistas" que muitos realmente crêem que nasceram para passar toda a sua vida desempenhando apenas um tipo de atividade, como se isto estivesse gravado em seus genes. O que acaba, por sua vez, tendo reflexos em seu desenvolvimento intelectual: o "profissional" é aquele que entende tudo de sua "profissão", e pouco ou nada sobre outras áreas do conhecimento humano, especialmente se não lhe servir de modo utilitarista; ele faz muito bem o que sabe, mas não sabe por que faz. O capitalismo reduz o homem a uma mera máquina inconsciente de transformar dinheiro em mais dinheiro. O objetivo de toda atividade profissional, direta ou indiretamente, reduz-se a isso.
O propósito deste artigo é mostrar a uma classe específica, a dos "micreiros" (engenheiros e cientistas em geral que fazem uso extensivo de computadores, inclusive programação e simulação computacional), que ela possui todo o ferramental intelectual necessário para uma crítica radical da sociedade em que vive.
O que é radical?
Primeiramente, um esclarecimento. Em nossa sociedade muitas vezes a palavra "radical" é utilizada com acepção errada, como sinônimo de "fanático", "inflexível", "histérico". Cumpre aqui desfazer este mal-entendido. "Radical" deriva de "raiz"; radical é aquele que vai à raiz. A crítica social radical é aquela que vai à raiz dos problemas sociais. Dito isto, vamos ao que interessa.
O loop computacional
Todo micreiro sabe o que é um loop. Esta técnica de programação é utilizada quando uma mesma operação ou conjunto de operações deve ser realizado várias vezes, de forma que seria um estorvo escrever o mesmo código várias vezes. Todas as linguagens de programação que se prezem possuem esse tipo de estrutura. Em pseudo-código, seria algo, com possíveis variações, do tipo:
inicialização
se a condição C for verdadeira,
realize a operação O e volte ao início.
fim
Na linguagem Matlab, um exemplo de loop seria o seguinte:
i = 0;
while i<10,
i = i+1;
disp(i);
end
Como o leitor micreiro já deve saber, este é um algoritmo banal que imprime na tela os números de 1 a 10.
Bug! O loop infinito
Algumas vezes ocorrem enganos na codificação, ou no próprio algoritmo, de forma que o ciclo (o loop) que deveria ocorrer um número limitado de vezes, acaba ocorrendo infinitamente; em outras palavras, a condição de finalização do loop não acontece nunca. As razões do erro são variadas, podendo ser de um simples erro de digitação a um erro de concepção do algoritmo. Por exemplo, imagine se o código anteriormente apresentado tivesse sido escrito da seguinte forma:
i = 0;
while i<10,
i = i-1;
disp(i);
end
O programador se enganou e trocou o sinal "+" pelo sinal "-". O resultado, computacionalmente falando, é desastroso: ao invés de imprimir na tela os números de 1 a 10, o programa imprime -1, -2, -3... indefinidamente, até que interrompamos artificialmente a sua execução.
Durante essa execução desastrosa, o programa consome os recursos do computador, que fica servindo inutilmente a uma tarefa infinita sem sentido. O loop infinito é um erro de programação, um bug.
O capitalismo como bug
Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma infinita repetição de um loop computacional. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se um algoritmo:
1. dinheiro
2. use o dinheiro para fabricar mercadorias, explorando trabalho, em troca de um salário
3. venda as mercadorias por um preço maior do que o custo, conseguindo mais dinheiro
4. pague ao Estado os impostos devidos no passo 3
5. volte ao passo 2.
O leitor micreiro deve perceber que se trata de um ciclo sem condição de parada, ou seja, de um loop infinito, de um bug. O verdadeiro bug do milênio é o capitalismo.
Assim como um bug computacional consome os recursos do computador de forma sem sentido, o bug social do capitalismo consome a energia vital dos seres humanos de forma completamente irracional, como o vampiro da humanidade. Sob o domínio deste bug, dinheiro, mercadoria e trabalho se transformam em fins em si mesmos: o que importa é que o ciclo continue girando, não importa como. No loop infinito, imagem da economia reinante, o fim não é nada, o desenrolar é tudo. O loop não deseja chegar a nada que não seja ele mesmo.
As conseqüências disso não são difíceis de inferir. O trabalho torna-se um fim em si mesmo: temos que trabalhar oito horas por dia, cinco dias por semana, mesmo que não haja nada para ser feito, ou somente coisas estúpidas. E com a tecnologia, a automação, o bug revela toda a sua irracionalidade: pois a automação, que deveria ser fonte de libertação do trabalho, acaba se tornando fonte de desemprego para uns, e horas extras para outros. Conceito este, "desemprego", que só pode existir na sociedade do trabalho, e reduz a pessoa a um sub-humano: "quem não trabalha não deve comer!". Essa frase dita hoje, quando o trabalho se torna supérfluo, é terrorista.
O capitalismo é um código cibernético fetichista; temos que lhe prestar culto, semelhantemente ao modo como os índios prestavam culto aos seus totens; com a desvantagem de que aquele é um processo necessário: se quisermos sobreviver (comer!) precisamos trocar no "mercado". O programador torna-se escravo de seu próprio código. O caráter fundamentalmente tautológico do loop decorre do simples fato de seus meios serem, ao mesmo tempo, seu fim. É o sol que nunca se põe no império da passividade moderna. Recobre toda a superfície do mundo e está indefinidamente impregnado de sua própria glória.
O algoritmo não é um conjunto de atribuições e relações lógicas, mas uma relação social entre pessoas, mediada por atribuições e relações lógicas.
O bug do bug
Mas algo de inesperado aconteceu. Com o desenvolvimento da tecnologia microeletrônica, do computador e da automação, o algoritmo defeituoso capitalista começou a ranger e soltar fumaça. Pois o passo 2 do algoritmo ("use o dinheiro para fabricar mercadorias, explorando trabalho, em troca de um salário") cada vez mais é executado por máquinas automáticas, robôs e malhas feedback, que "trabalham" sem ganhar salário. Desta forma, o passo 3 ("venda as mercadorias por um preço maior do que o custo, conseguindo mais dinheiro") se realiza cada vez menos, pois, se as mercadorias são feitas por robôs, e não mais por pessoas, quem vai comprar as mercadorias? E a dificuldade de realizar o passo 4 ("pague ao Estado os impostos devidos no passo 3"), resulta na crise do Estado, que aliás só existe para ser o síndico e o cão de guarda do algoritmo capitalista.
O bug capitalista revela possuir um bug do bug, que corrói a sua própria base. O algoritmo capitalista está entrando em colapso.
O processador do capitalismo
O processador é o coração e cérebro do computador; é ele que processa todos os dados e cálculos e envia dados para os periféricos (drives, monitor, impressoras, etc.). O processador do capitalismo é o valor. Ele é o centro implícito do algoritmo capitalista: o valor representa a quantidade de trabalho socialmente necessário para fabricar uma mercadoria; é representado pelo dinheiro. Contrariamente ao valor de uso, que está relacionado a suas qualidades sensíveis (uma cadeira serve para sentar-se, uma lâmpada para iluminar, etc.), o valor é abstrato: cem dólares ganhos vendendo automóveis são iguais a cem dólares ganhos vendendo pés de alface que são iguais a cem dólares ganhos vendendo armas para matar crianças iraquianas. Como a execução infinita do loop capitalista é o único fim do código capitalista (ou seja, a atividade em si é um imperativo de sua lógica), e como o valor é independente de qualquer conteúdo sensível, fica claro: tanto faz vender pés de alface ou armas para matar crianças iraquianas, desde que seja uma atividade (irrefletida) lucrativa. Enquanto seu computador é governado pela Intel, sua vida é governada pelo valor.
Simulação
Sem dúvida nosso tempo prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a variável abstrata à realidade concreta, a simulação ao mundo real. A simulação é uma interessante técnica utilizada pelos micreiros. Ela consiste em simular processos reais em um computador, fazendo uso de um modelo matemático que representa o sistema estudado, e que pode ser expresso em um algoritmo computacional. Assim, por exemplo, um engenheiro químico pode inferir o efeito do aumento de temperatura na conversão de um reator instantaneamente, praticamente sem custo e sem gasto de recursos naturais, em seu computador pessoal.
O interessante é que o capitalismo, no momento em que seu algoritmo começa a entrar em colapso, tenta prolongar a sua miserável existência simulando a si mesmo. Um exemplo é a especulação financeira. Uma vez que a criação real de valor, pelo loop capitalista, revela-se enferrujada, o capitalismo tenta criar valor fictício, valor simulado: fazer dinheiro sem trabalho, sem substância, na especulação dos mercados globalizados. Criam-se bolhas financeiras sem nenhum lastro na atividade real, que ao explodirem geram catástrofes sociais.
Outra forma de simulação, de tentar manter viva uma quimera, é feita pela intervenção estatal. Trabalho, de acordo com o algoritmo capitalista, deve gerar riqueza social, não consumi-la. Mas veja o caso do programa Primeiro Emprego, do estado do RS, e que possivelmente será ampliado nacionalmente (com todas as suas boas intenções, etc.) Por este programa, o Estado paga o salário de um jovem por seis meses para que este trabalhe. Isto mesmo, o Estado paga para que se trabalhe: é a simulação de trabalho. A suposta razão disto é a aquisição de experiência por parte do jovem, para que no futuro ele possa ocupar um "emprego"; só que esse emprego nunca existirá, pois a velocidade de racionalização de trabalho pela tecnologia é muito mais rápida do que a de qualquer "crescimento econômico". "Crescimento econômico" este que não passa, na verdade, da velocidade de rotação da roda capitalista, da velocidade de execução dos loops, ou seja, também ele transformou-se em um fim em si mesmo. No capitalismo, as pessoas se assemelham àqueles ratinhos adestrados que ficam correndo sobre uma roda giratória; eles devem correr cada vez mais rápido, sem saber por que, sem nenhuma reflexão sobre as razões de sua atividade irracional incessante.
No momento em que o bug capitalista agoniza, os seus defensores tentam manter o espetáculo amarrando cordas em seus braços e pernas, como uma marionete, e fazendo-o dançar. Em vão. Trabalho é um conceito obsoleto, e será cada vez mais; e não há motivo para lamentos. Se soubermos utilizar de forma consciente e emancipatória as forças produtivas que temos hoje, podemos nos libertar dele.
Hackers!
"Hacker" é aquele micreiro especialmente hábil, que consegue quebrar códigos, burlar sistemas de segurança, etc. Neste momento, precisamos de hackers que hackeiem a sociedade como um todo, não somente os sistemas computacionais, que combatam o código social central, o código fetichista do capitalismo. Esse ataque começa pela crítica radical do algoritmo dominante, que em última instância não passa de um desprezível bug.
Mas o hacker não quer somente destruir. O hacker quer construir um novo código, um código que seja conscientemente escrito por todos, que não será objeto de culto totemista, mas que estará subordinado aos programadores, às pessoas autodeterminadas e conscientes. O hacker quer construir um código em que a atividade humana produtiva não seja um fim em si mesmo (o "trabalho"), mas que ela seja um meio para a satisfação das necessidades. E se, fazendo uso das forças produtivas, o tempo necessário de atividade for de duas horas por semana, ótimo; ela não será mais um fim em si mesmo, não iremos mais trabalhar simplesmente "porque temos que trabalhar", como dispêndio abstrato de energia humana, como um fim em si mesmo desvinculado de qualquer necessidade concreta.
De certa forma, os micreiros já são hackers naturalmente, pois são eles mesmos que projetam aquelas malhas feedback, aquelas automatizações que desestabilizam o algoritmo capitalista. Mas isto não basta, é preciso ser hacker de forma consciente. O hacker deve praticar a subversão cibernética combatendo conscientemente o código social central, o código capitalista; só assim ele será um hacker radical. O seu objetivo é resetar o capitalismo e criar um novo código para um novo tempo. O apelo para que se resete o algoritmo é o apelo para que se resete uma forma de consciência que necessita de algoritmos.
Hackers de todo o mundo, uni-vos!