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A ética médica, a interação com as condutas terapêuticas e os riscos da automedicação são alguns pontos que caracterizam os médicos quando submetidos à condição de pacientes. Isso é o que pôde ser avaliado num estudo comparativo feito pela médica psiquiatra Alexandrina Maria Augusto da Silva Meleiro, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas/FMUSP. Engenheiros, advogados e médicos foram o alvo de sua investigação, mas o paciente-médico mereceu atenção especial. Diferenças de comportamento e principalmente resistência aos procedimentos indicados pelos colegas marcaram seu livro Médico como Paciente, publicado pela Lemos Editorial, em 1999. O trabalho foi realizado no Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, e revelou um perfil inédito da relação entre médicos e pacientes-médicos, como explica Alexandrina em entrevista ao Connectmed. Qual é o perfil do médico-paciente encontrado na sua pesquisa? O de uma pessoa que nunca imaginou a possibilidade de um dia ser acometida por uma doença. E quando adoece começa a negar os sintomas, não dá importância aos sinais do próprio organismo ou, se percebe, começa a se automedicar. Tenta minimizar os problemas e quando assume estar doente é altamente questionadora, com senso crítico apurado e fazendo julgamento das condutas. Outra observação importante é o orgulho médico, que dificulta muito o tratamento. Quais foram suas principais observações na relação entre o paciente-médico e o colega que o assiste? Às vezes, a relação entre os médicos tem algumas peculiaridades que podem ser complicadas ou benéficas. Normalmente, com leigos há maior aceitação dos procedimentos, mas com profissionais de saúde e principalmente com médicos é mais difícil. O paciente-médico acha que o colega está pensando que ele devia saber se tratar e não adoecer. Tenta dominar a situação e muitas vezes não consegue. Por outro lado, o colega se sente questionado, além do medo de fazer um diagnóstico errado. Como a autoiatropatogenia interfere na saúde de um médico? A autoiatropatogenia (ação do médico causando uma patologia nele mesmo) interfere num grau máximo. Nesse caso, o erro médico recai sobre o próprio paciente-médico. Incluo nesse termo o autodiagnóstico e a automedicação. Podemos lembrar também as consultas informais, nos corredores ou por telefone, que geram diversos problemas. Entre engenheiros, advogados e médicos que participaram do meu estudo, os médicos foram os que apresentaram maior número de óbitos. A explicação está na demora em buscar ajuda de um colega e nos procedimentos equivocados. As diferenças de comportamento entre os advogados, os engenheiros e os médicos-pacientes estudados foram significativas? Bastante. Os médicos confiam menos nos próprios médicos, questionam mais a conduta e as prescrições do colega, fazem mais automedicação do que os outros grupos e preocupam-se mais com os efeitos colaterais. Têm mais dificuldade de permanecer internados e pedem altas precoces, motivam-se menos a mudar os hábitos e relutam em levar os tratamentos indicados à risca. Isso tudo porque o estudo foi realizado no Incor, instituição respeitada inclusive internacionalmente. É o local mais procurado por médicos de diferentes especialidades quando ficam doentes. De que forma as diferenças na abordagem do médico na posição de paciente podem comprometer as terapêuticas? Quando o médico é o paciente, as alterações de comportamento são freqüentemente omitidas, especialmente quando se trata do consumo de álcool e outras drogas, desvios sexuais e até mesmo a automedicação, já que existe o receio dele ser criticado. Quando o médico-paciente tem algum problema, como o diabetes melito, ele pode sentir-se inferiorizado por ter uma doença. Como os médicos que tratam os pacientes-médicos enfrentam essas situações? Primeiramente, ele pode sentir-se lisonjeado. Depois, sente uma responsabilidade enorme porque cometer qualquer falha no diagnóstico seria imperdoável, o que acaba levando a cuidados excessivos. Às vezes, acontecem problemas relacionados aos honorários cobrados entre os colegas. Quem está tratando o paciente-médico não tem um retorno financeiro por atendê-lo e o paciente não se sente à vontade em incomodá-lo. Esse ponto pode ser complicador na maior parte dos casos. O Conselho Federal de Medicina há muito tempo aborda esse assunto liberando a livre negociação. Diante disso tudo, o que pôde ser concluído nesse seu estudo? O médico, diante das dificuldades de adoecer, precisa aprender a tratar de colegas doentes e ter humildade. Nós, médicos, diante dos agravos a que somos acometidos, devemos pedir ajuda e aprender a adoecer. São dois aprendizados fundamentais que atingem a postura do médico e do paciente-médico.Danilo Tovo www.connectmed.com.br - abril de 2000 |