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Um dos problemas mais relevantes da adolescência é a gravidez nas várias fases desse período da vida. Mediada por várias implicações sociais e comportamentais, as necessidades de atenção à saúde especial dos adolescentes são fundamentais para se prevenir riscos e devem ser realizadas com acompanhamentos diferenciados tanto no que se refere à ginecologia e obstetrícia como para aspectos psicológicos, nutricionais entre outros. Na adolescência, a gravidez se insere num contexto bem maior, envolve um universo de realidades e requer amplas análises da saúde para abordagem desse perfil de público em especial. Para discutir e esclarecer dúvidas frente à gravidez na adolescência, o SOS Doutor convidou Maria Ignez Saito, uma das maiores especialista em medicina do adolescente e médica-chefe da Unidade de Adolescentes do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. A seguir, a entrevista. Qual seria o panorama da gravidez adolescente nesse início de milênio? A gravidez é um risco. Para falar de gravidez, temos que falar de aspectos de prevenção de riscos. O critério de risco sofreu transformações, abrangeu comportamentos e ganhou fatores de agravos e de proteção. A adolescência é um momento muito singular do processo de crescimento e desenvolvimento; é definida como fase de transição entre infância e adultícia, mas essa transição é fundamental na construção do sujeito em definitivo. Os comportamentos do ser humano são pautados na adolescência e vão acompanhar o indivíduo para a vida toda. A gravidez na adolescência vem acoplada a riscos relacionados ao exercício de sexualidade e não tem um panorama individual, mas social, político, econômico, cultural etc. Isso não é coisa nova, pois nossas avós tinham filhos muito cedo, mas as estruturas de família eram diferentes. A estrutura matrimônio existia e as crianças tinha uma melhor acolhida, era outra realidade em vários aspectos. Atualmente, a gravidez na adolescência é um problema de saúde pública por uma série de questões inerentes à própria adolescência e à proposta da sociedade atual. Como se expressam os números da gravidez na adolescência hoje em dia? A projeção atual não melhorou a perspectiva em relação à fecundidade na adolescência em todo o mundo. Temos um bilhão de adolescentes no mundo nessa passagem de 2000 para 2001 e isso tem um peso significativo. No mundo todo, 14 milhões de adolescentes dão à luz por ano. Já no Brasil, temos 36 milhões de adolescentes e desse universo um milhão dão à luz anualmente. São aproximadamente 700 mil partos do Serviço Único de Saúde (SUS) e 300 mil da rede privada. Esses são números notificados, mas que provavelmente não traduzem o número real de gestações desde que o aborto aqui é ilegal. É uma questão importante para se pensar em prevenção e alocação de recursos. As meninas de vida urbana engravidam menos do que as de vida rural num percentual de 17% para 24%, mas o casamento na vida rural é antecipado e relacionado ao projeto de vida e realidades bem diferentes. A fecundidade caiu entre 20 a 24 anos, não caiu entre 15 e 19 anos e aumentou na faixas etárias entre 11 e 15 anos. Se a incidência de gravidez aumentou pouco, o exercício de sexualidade aumentou muito mais e a sociedade estimula: quase todas as propagandas na televisão trazem imagens erotizadas com corpos de adolescentes, sendo que a própria gravidez é veiculada como uma coisa maravilhosa muitas vezes. A explicitação sexual é desprovida de amor hoje em dia e não há questionamento das relações. Isso pode trazer conseqüências? Do ponto de vista social traz conseqüências inadequadas, porque a própria mídia e a sociedade são pseudopermissivas, estimulando a relação sexual, mas não permitindo a gravidez. Existem propostas anticoncepcionais seguras (pílulas, camisinhas etc.) e tem-se a informação. Então, por que os adolescentes não usam os métodos e continuam engravidando? Muitos fatores contribuem para o problema gravidez na adolescência, podendo ser considerado o biológico, que se desenvolve cada vez mais precocemente, pois há melhoria das condições de saúde e dos parâmetros nutricionais. É um corpo pronto, porém com um psicoemocional que está despreparado. Na cultura ocidental, o fim da adolescência fica cada vez mais postergado, a proposta do período adolescente se torna indefinida, parece que não acaba mais e se adiam as responsabilidades, o casamento, enquanto isso a eclosão hormonal, as necessidades de canalização de impulso sexual, que são cada vez mais precoces e estabelece um paradoxo, que é uma questão séria. Outro aspecto é a escola e o grau de escolaridade, que funcionam como um determinante, ou seja, quem não vai à escola engravida mais facilmente, pois a escola é um fator muito importante de proteção por ser um local privilegiado para discussões de prevenção, complementação e parcerias. Muitos adolescentes carecem de um projeto de vida inserido em modelos político-sociais que lhes dêem sustentação. Assim, o filho pode se tornar esse projeto. Temos que considerar, acima de tudo, o desejo de engravidar. Famílias estruturadas, escola, religião e nível sócioeconômico são fatores de proteção. A educação sexual torna-se imprescindível, mas é importante envolver a questão de gênero nesse problema abrangendo com ela homens e mulheres. Após o diagnóstico de gravidez na adolescência, há particularidades quanto ao acompanhamento? A gravidez na adolescência, em si, deve merecer cuidados específicos e diferentes daqueles de mulheres adultas. Nessa fase, as adolescentes apresentam características e singularidades, que podem predispô-las a maiores riscos. A singularidade da adolescente tem que ser contemplada em todas as propostas de atenção à saúde. A própria Organização Mundial de Saúde (OMS) define a gravidez adolescente como de alto risco sempre, mas se forem cuidadas podem ter todas as chances de ter uma gestação normal. O cuidado de pré-natal específico desmistificou o conceito que toda gravidez na adolescência seria uma gravidez de risco e as pesquisas em nosso meio se deslocaram do biológico para o extrabiológico. A repercussão da gravidez adolescente é diferente também? A repercussão para as meninas muitas vezes são a anemia, maior índice de prematuridade, maior índice com filhos de baixo peso, aspectos esses que são incrementados pela procura tardia dos serviços de pré-natal por esconder inicialmente a gravidez. Segundo a literatura, filhos de mães adolescentes são mais vulneráveis e não crescem adequadamente, podem não ter uma boa maternagem com comprometimento do aleitamento materno e muito mais. Contudo, o pré-natal específico oferece uma orientação muito boa e minimiza bastante os agravos ressaltando que são os problemas sócioeconômicos os fatores de risco. A acolhida, inclusão do parceiro dessas meninas, independente se vai casar ou não são atitudes importantes assim como a criança ter um sobrenome, criar vínculos para se saber quem são seus pais. Hoje existe maior número de serviços específicos em todo o País para atender os adolescentes, havendo até uma política de saúde do adolescente mais consistente e espera-se mais atuante. Quais recomendações de saúde a senhora poderia aconselhar para os adolescentes? Atender adolescentes envolve princípios éticos muito sérios. Para atender um adolescente é importante que respeite direitos do adolescente com privacidade e confidencialidade (leia-se adotar critérios e sigilo médico). Hoje também há necessidade de maior interatividade social também nesse processo de levar a informação e orientação adequada. Existem, porém, diferenças entre o Código de Ética Médica e o Código Civil vigente. Mesmo que se considere o Estatuto da Criança e do Adolescente na abordagem dessas questões. Faz-se necessária a adequação das leis, pois a prescrição de anticoncepcionais é proposta segura que pode ser realizada em campo privado de consulta de adolescente. É importante lembrar que a sexualidade faz parte da identidade, do desenvolvimento da personalidade, é uma coisa de vida e deve ser mais discutida nas escolas, nas organizações não-governamentais, comunidades de base etc. para esclarecer sobre o assunto. Acredito que deva-se ampliar cada vez mais as discussões sobre saúde e prevenção na adolescência, em especial nos ambientes familiar e escolar. Danilo Tovo www.sosdoutor.com.br - dez/2001 |