Como nossos pais?




"(...) considerarei seus filhos como meus pr�prios irm�os, e lhes ensinarei a arte, se desejarem aprend�-la, sem retribui��o ou promessa escrita(...)"- trecho do juramento de Hip�crates

Qual seria a semelhan�a entre o cientista ingl�s Charles Darwin, o cantor Gilberto Gil e o memorialista Pedro Nava ? E se acrescentarmos a essa rela��o o escritor realista Gustave Flaubert e o m�dico Philippe Pinel ? Essa lista certamente tende a se alongar, sugere um elo com arte e ci�ncias m�dicas, mas tem um ponto de encontro comum reunindo todos esses nomes citados: todos s�o filhos de m�dicos. Seja no Brasil ou no exterior, em v�rios momentos hist�ricos, a medicina, de alguma forma, fez parte do cotidiano dessas pessoas, instigando-os nos seus diversos trabalhos e interferindo direta ou indiretamente nas sua vidas.

Ent�o, qual seria a distin��o em ser filho de m�dico ou n�o ? � primeira vista, podemos n�o notar nada de t�o diferente. Por�m, as experi�ncias do conv�vio com um m�dico dentro de casa tecem algumas particularidades. Os m�dicos ainda levam o r�tulo social de "doutor(a)", podem cuidar da sa�de dos filhos em casa, �s vezes cultuam o traje branco, o que permite uma identifica��o maior em outros lugares e o comportamento em geral estabelece um fuso hor�rio alternativo. Basicamente, o perfil breve e gen�rico do m�dico moderno quase sempre passa por algumas dessas caracter�sticas acima apontadas.

O reflexo da postura profissional do m�dico representa uma participa��o efetiva enquanto advogados dos pacientes, o que d� ao m�dico um papel relevante no meio em que vive. Por outro lado, as cobran�as tamb�m tendem a ser maiores e esse aspecto normalmente � determinante para a fam�lia toda, que � obrigada a lidar com as especificidades acerca do trabalho m�dico. Urg�ncias, bips tocando, telefonemas de madrugada, comemora��es interrompidas, finais de semana em xeque. Os plant�es, abordagens nas ruas, em aeroportos, praias, shoppings entre outros locais evidenciam o permanente estado de aten��o com a sa�de e indicam chamadas em v�rios momentos. Agendas imprevis�veis surgem e o adiamento de viagens ou a espera dos filhos na escola s�o fatos anormais e preenchem a receita di�ria desses profissionais da sa�de.

Isso pode retratar um pouco do comportamento da grande maioria dos m�dicos. � um dia-a-dia bem atribulado, movimentado, com compromissos em cl�nicas, hospitais, faculdades entre outros locais, al�m das obriga��es familiares e das outras responsabilidades. Dentro de casa o cuidado com a sa�de tamb�m pode ser redobrado, mas isso � muito relativo tamb�m. Contudo, ainda � uma profiss�o admirada e det�m um respeito diferenciado perante grande parte das pessoas. Apesar dos inc�modos, desse constante corre-corre e das rotinas tumultuadas, a medicina desperta a aten��o e at� fasc�nio entre muitos jovens e, inclusive o que se v� em v�rias fam�lias � um prosseguimento da escola m�dica em decorr�ncia dos casais m�dicos, fato esse not�vel e bastante comum entre em diversos lares.

A estudante Roberta Zago Lorenzato ilustra isso precisamente, pois sabe muito bem o que � viver numa casa rodeada de m�dicos. Filha de um cardiologista e cl�nico geral e de uma neurologista, tamb�m resolveu seguir a profiss�o dos seus pais, assim como de sua irm� mais velha. Das cinco pessoas da casa, somente a irm� mais nova n�o pretende seguir a carreira m�dica. Roberta cursa o terceiro ano de medicina na Universidade de S�o Paulo, em Ribeir�o Preto (SP) e revela que nunca pensou em fazer outro curso a n�o ser o que escolheu. "Sempre tive uma identifica��o com a �rea m�dica e o que tamb�m me motivou foi a gratifica��o dos pacientes com meus pais, algo que realmente me deixava comovida, al�m de tamb�m me interessar por assuntos do corpo humano e meus pais me estimularam mostrando coisas que v�em diariamente, explicando situa��es e agora discutindo casos e diagn�sticos. Essa troca de experi�ncias � fundamental para mim", conta Roberta.

Ser filha de m�dicos e estudar medicina � um convite a brincadeiras de colegas enciumados, por�m � um fato que n�o lhe incomoda. Quanto �s priva��es que ocorriam, os hor�rios n�o-fixos dos pais � o que ela mais se recorda, mas nada que tenha atrapalhado seus compromissos. "Na inf�ncia, a gente n�o aceita isso, mas depois a gente entende", diz ela.

A �poca, o local de trabalho e a especialidade tamb�m ajudam a definir muito o m�dico e sua rela��o familiar, assim como o tra�o de personalidade pode ser marcante para se abordar um m�dico e pai de fam�lia. A professora de portugu�s Maria Cec�lia Porto Venturini, m�e da jogadora de v�lei Fernanda Venturini, � filha de um dermatologista e morou em Araraquara (SP) na d�cada de 50, per�odo em que seu pai tamb�m era m�dico na cidade. Contudo, os aspectos e valores da vida moderna atual de um m�dico n�o coincidiam com a rotina da sua casa. "Talvez pela sua especialidade n�o era incomodado fora de hora, a n�o ser eventualmente pela vizinhan�a, mas s� pela condi��o de m�dico e em determinadas ocasi�es", diz ela, lembrando que mesmo sendo um m�dico polivalente, tradicional e dedicado, n�o gostaria que seus filhos seguissem a carreira m�dica.

Filho de peixe, peixinho n�o �. Se essa frase tivesse sido elaborada pelo publicit�rio Antonio Vagner Set�bal Filho n�o seria de se estranhar. Seu pai � um cirurgi�o geral e proctologista em Teresina (PI) e tem uma vida bastante agitada. Ele at� cogitou em fazer medicina, mas tinha um sonho de inf�ncia com engenharia el�trica e acabou sendo seduzido pela comunica��o. Contudo, o fato do seu pai m�dico n�o interferiu na sua vida, pois na sua casa sempre houve uma adequa��o aos hor�rios do m�dico e da fam�lia. "Meu pai sempre d� plant�o, tem uma rotina bem cansativa e sempre procurou participar das festas e reuni�es em casa, al�m de separar muito bem o lado profissional", diz ele, enfatizando que a adapta��o � rotina do pai � autom�tica, admira a profiss�o e orgulhasse de ser filho de m�dico.

O aspecto social, o sin�nimo de status e o sucesso profissional s�o fatores que levam as pessoas � escolha da carreira m�dica, a qual � atribu�da valores ligados ao poder. Ser filho de um profissional m�dico n�o significa necessariamente a suscetibilidade da mesma profiss�o dos pais, embora nota-se grande parcela de pessoas s�o influenciadas pelo mercado de trabalho teoricamente promissor, mas a conviv�ncia com outros padr�es de rotina permitem um consenso com a atividade m�dica dentro de casa. "O filho de m�dico pode ter um identifica��o saud�vel com a carreira m�dica e at� mesmo exercer por uma condi��o c�moda e imediatista, j� que conhece a din�mica da profiss�o", diz Patricia Bellotti, psic�loga, de S�o Paulo. "H� tamb�m um fator de personalidade ligado � contra-identifica��o com os modelos parentais, que pode ser por n�o afinidade (com ou sem rompimento afetivo) e em v�rios n�veis, al�m da quest�o da empatia", analisa.


Danilo Tovo

(Revista Check-up, n�mero 9/1999)


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