| � |
Aids e vida
"Quando as doen�as est�o associadas ao desejo, voc� se transforma em objeto de decifra��o" - Susan Sontag
O que significa pensar em AIDS hoje ? Para a ci�ncia, a descoberta da cura ainda � um grande desafio mesmo diante dos progn�sticos atuais. Junto � popula��o mundial a pandemia � um retrato apontado por muitos especialistas em sa�de p�blica, pois segundo o Programa Especial de AIDS das Na��es Unidas, a cada dia pelo menos 16 mil pessoas s�o infectadas pelo v�rus HIV. Mas a s�ndrome, mesmo com todos os preconceitos, tamb�m est� deixando de ser virtualmente fatal, pois as novas drogas e as recentes pesquisas contribuem para outro futuro com a AIDS.
A AIDS hoje se configura junto a outros par�metros cl�nicos, j� que a entrada da terap�utica dos coquet�is medicamentosos apontou para avan�os significativos nos tratamentos com a mol�stia e dinamizou a rela��o com a s�ndrome. "Hoje, com exames sofisticados, podemos ter um controle cl�nico, imunol�gico e virol�gico da AIDS. Com o devido acompanhamento e areal ader�ncia do paciente ao tratamento indicado, a sobrevida � quase ilimitada e a recompensa � gratificante", diz Caio Rosenthal, infectologista de S�o Paulo.
Depois do AZT, que � considerada a primeira droga espec�fica para a AIDS, a combina��o de v�rias drogas revolucionou o quadro da s�ndrome e gerou diferentes perspectivas. No entanto, as promessas da medicina hoje em dia se voltam para as descobertas de drogas inibidoras de transcriptase reversa e de protease viral entre outras, que condicionam um combate mais efetivo da doen�a, reduzindo a carga viral e propiciando uma sobrevida maior aos pacientes. Essa tend�ncia de terap�utica com coquet�is, mesmo n�o sendo a definitiva, elucida novos caminhos para a pesquisa com a AIDS e indica os resultados mais plaus�veis com a doen�a. A possibilidade de vacina n�o � totalmente descartada, no entanto o sucesso dessas drogas se d� mediante o prolongamento da vida de quem tem o v�rus e sugere um controle cl�nico do paciente.
O infectologista Vicente Amato Neto, secret�rio-executivo da Comiss�o Nacional de AIDS do Minist�rio da Sa�de, diz que a qualidade de vida de quem tem a mol�stia � vis�vel, mas ressalta a necessidade de se trabalhar com educa��o, al�m de se obter um maior conhecimento da atua��o do HIV. "Precisamos bater cedo e forte contra a AIDS, al�m de saber orientar quanto ao uso dos rem�dios, mas devemos elogiar entusiasticamente a coopera��o governamental representada pelo fornecimento gratuito de medicamentos ativos contra o HIV. Contudo, � preciso saber orientar bem quanto ao uso desse rem�dios", diz ele. Al�m de poder contar com exames detalhados do quadro viral e propor uma conduta medicamentosa adequada, as promessas da medicina apontam um novo tempo com a s�ndrome, j� que a cada dia novos medicamentos espec�ficos aparecem e suscitam novos paradigmas para a hist�ria da doen�a.
O v�nculo com o preconceito tamb�m prejudicou a AIDS ao longo da sua hist�ria. Hoje, a s�ndrome adquire dimens�es distintas de tempos atr�s e para os antigos grupos de risco l�-se comportamento de risco, mas � um estigma que persiste. "Al�m de ser uma doen�a cr�nica, a discrimina��o tende a ser moralista porque � ligada ao comportamento sexual e ao uso de drogas, comportamentos repletos de julgamentos morais. Contudo, a tentativa de reestrutura��o da vida e a conviv�ncia com a soropositividade � outra abordagem necess�ria para a melhora da qualidade de vida dos pacientes, al�m de se ter maior conscientiza��o geral sobre a AIDS", diz Andr� Malbergier, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Cl�nicas de S�o Paulo.
As discuss�es com essa doen�a permitem analisar um perfil que remete a outros momentos da AIDS e indicam previs�es otimistas daqui em diante. Os tratamentos adequados, os avan�os cient�ficos e o conhecimento da AIDS balizam objetivos da medicina moderna e se defrontam com a responsabilidade civil. "Gostar da vida exige uma reinser��o social, uma revaloriza��o na produ��o de sentidos em tempos de AIDS", conclui Francisco de Oliveira Barros J�nior, doutorando em ci�ncias sociais na PUC de S�o Paulo.
Danilo Tovo
(Revista M�dico rep�rter/n�mero 2/dezembro de 1998)
|