1a Festa Nacional do Índio reúne tribos de todo o país em Bertioga e homenageia Orlando Villas Boas

 

Autora: Sara Nanni

Jornalista especializada na área ambiental

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         Se no passado fora palco de conflitos sanguinários entre tribos indígenas e não-índios, entre os dias 19 e 22 de abril a praia da Enseada, no município de Bertioga, em São Paulo, presenciou o encontro amistoso de pelo menos 300 índios, representantes de diversas etnias, e um público de 12 mil pessoas. No centro da arena especialmente montada para a 1o Festa Nacional do índio, os Guarani, Terena, Xavantes, Bororo, Karajá, Waurás. Kalapalo e Yawalapiti demonstraram tudo aquilo que ainda possui vigor em sua cultura, entre danças, cantos, lutas e vestuário típicos. “Queremos construir uma nova história, sem mágoa ou rancor, e não somente comemorar o dia do índio, mas mostrar a resistência da nossa cultura, compartilhando paz e alegria”, declarou Paulo Bororo, eleito representante de todas as tribos presentes no evento.

A festa também foi pretexto para homenagear o indigenista Orlando Villas Boas, que foi contemplado com título de cidadão bertioguense. O título concedido pela Câmara Municipal pareceu não ter emocionado mais do que a homenagem prestada a ele pelas crianças das escolas municipais, além do reencontro com alguns de seus amigos índios das aldeias xinguanas, com os quais conviveu durante décadas no Parque Indígena do Xingu.

“O extraordinário dessa festa é a oportunidade dada aos índios de mostrar o que eles realmente são e como vivem. Eles têm valores e noções de comportamento que nossa sociedade ainda não foi capaz de apreender”, disse emocionado Villas Boas. “O índio não é um bicho que precisa ser conduzido. Ao contrário, ele tem seus caminhos certos. Nunca vi nas aldeias um casal brigar, ou uma criança ser agressivamente repreendida pelos pais. Seu modo de organização é um exemplo para o branco”.

Para o Xavante Timóteo Tseredzutewe, a festa, além de ser uma oportunidade para os índios exibirem sua cultura, “é muito importante para mostrar ao povo brasileiro que índio não gosta de briga”, referindo-se aos conflitos durante a comemoração dos 500 anos de descobrimento do Brasil.

         E, para muitos outros índios, permanecer quatro dias em Bertioga foi mais do que uma experiência de confraternização, foi o tempo de conhecer o mar. Muitas índias do Xingu nunca haviam saído de suas aldeias e muitos índios nunca haviam ido à praia. O Xavante Irineu Hiridu contou que achou o mar muito bonito, mas não se atreveu a entrar na água. Segundo ele, depois que a água chega no umbigo, corre-se o risco de ter um choque e ser levado pelas ondas para o fundo do mar.

 

Portaria – Enquanto alguns ficaram otimistas com uma das raras chances que a sociedade não-índígena dá aos índios de se expressarem, outros lembraram que ainda há muito a ser feito. Para o deputado federal José Índio Ferreira do Nascimento (PMDB-SP), “a festa foi válida para que as pessoas se lembrassem dos índios e para que vissem que é possível fazer algo por eles”. Entretanto, o deputado fez a ressalva: “as iniciativas ainda são muito pontuais”.

                Porém, para o presidente da Funai (Fundação Nacional do Índio), Glenio da Costa Alvarez, a situação do índio brasileiro tem melhorado nas últimas décadas. Segundo ele isso se deve ao simples fato de “a população indígena ter aumentado”.

         Na manhã de sexta-feira, 20, Alvarez assinou, no gabinete do prefeito de Bertioga, Lairton Gomes Gullar, uma portaria que determina que a Funai implante um Programa de Proteção ao Patrimônio Cultural Indígena. Através desse programa, as Administrações Executivas Regionais da Fundação deverão criar Centros de Proteção e Difusão do Patrimônio Cultural Indígena. Cada centro ficará munido de documentação de natureza etnográfica sobre as aldeias jurisdicionadas pelas administrações regionais.

Alvarez acredita que a portaria impeça que parte da história dos povos indígenas desapareça. “Antes esse trabalho era apenas praticado no Museu do Índio, no Rio de Janeiro. Agora, todas as regiões do país poderão ter seus próprios centros de difusão da cultura indígena”, explicou. No entanto, ainda pouco se sabe de onde partirá os recursos financeiros para a efetiva implantação desses centros. Há meio século a Funai é reconhecida como um dos órgãos governamentais mais deficientes do país.  “Teremos de integrar os trabalhos com as organizações não-governamentais e a iniciativa privada”, disse o presidente da instituição.

 

História mal contada – Complementando as atividades do segundo dia da festa, após a exibição de uma partida de futebol entre a seleção indígena e a local, foi encenada a invasão do Forte São João, na própria praia da Enseada.

         De acordo com o prefeito de Bertioga, o Forte foi construído há 400 anos para defender a cidade da invasão dos próprios índios. “Encenar a invasão do forte é refazer a história, mas dessa vez enfatizando o convívio benéfico entre brancos e índios”, explicou o prefeito.

         Além da impressa e dos alunos de escolas públicas e privadas de Bertioga, poucos turistas acompanharam a invasão. E, caso tivessem comparecido, muito pouco teriam entendido do significado daquele ato. Não havia, no local, monitores ou outras pessoas aptas e capacitadas a informar aos leigos o conteúdo histórico que há por trás do Forte São João.

         Assim, o Forte transformou-se apenas em cenário para fotografar quem quisesse aparecer em pose junto aos índios.

 

Campanha – Embora a festa tenha sido organizada às pressas – a Funai foi contatada apenas a partir do mês de fevereiro –, a Prefeitura Municipal de Bertioga, responsável por sua organização, foi surpreendida pelo número de pessoas que compareceram no primeiro dia de espetáculo. “O público-alvo da festa deveria ser composto, a princípio, somente de estudantes do ensino médio e fundamental, além de universitários”, informou o chefe do departamento de turismo da prefeitura, Luis Antonio da Silva. “A divulgação feita pela mídia trouxe mais pessoas para Bertioga do que poderíamos imaginar”.

         Apesar do tumulto e do abalo causado às estruturas das arquibancadas, o público saudou os quatro dias de festa e ainda colaborou com uma campanha improvisada para arrecadação de alimentos. De acordo com o departamento de turismo, somente na noite de quinta-feira, 19, foram arrecadadas 16 toneladas de mantimentos que serão doadas aos índios que foram à festa.

         Também uma pequena feira de artesanato expôs as habilidades dos índios que, hoje obrigados a assimilar traços característicos da nossa sociedade, têm nesta atividade um de seus principais meios de sobrevivência. Cestarias feitas com palha, colares de sementes de tucum, maracás, zarabatanas de taquara e outros utensílios e artefatos conquistaram os visitantes que, em sua maioria, são moradores da própria baixada santista.    

O que o poder público local espera, agora, é a continuidade da comemoração. “Nos próximos anos queremos conseguir realizar a festa novamente, tornando-a conhecida internacionalmente”, planeja Luis Antonio.

Para Carlos Terena, diretor de eventos culturais e esportivos da Funai, a conservação dos conceitos e valores difundidos pela Festa Nacional do Índio são mais relevantes do que sua própria continuidade. “Esse tipo de evento é importante para o fortalecimento e manutenção dos traços culturais de cada povo indígena. Além de promover o resgate da auto-estima dos índios, mostrando a cada um deles que fazem parte de uma etnia”, opinou Terena.

 

 

 

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