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“Nós sabemos a diferença entre a jóia e a bijuteria!” É
sábado, nove horas da manhã. A casa está limpa, as plantas molhadas; na
geladeira alguns pratos estranhos falam desta dona de casa que... ou ela
tem mania de grandeza ou gosta muito de culinária. Está
chegando a hora! Abro o portão grande e o pequeno. Corro à dispensa de
artesanato a buscar dois alicates pequenos. Um de ponta fina, outro de
ponta dentada. Um agarra, outro enrola. Na grande mesa de trabalho, já
estão dispostas lâminas de isopor, com nelas fixada uma boa variedade de
tipos de pingentes. A um lado, vinte pequenos vidros expunham contas de
diferentes formas, tamanhos, cores, texturas; ao outro, havia cordões,
correntes prateadas, douradas, e acobreadas que se irmanavam a uns bons
quilômetros de fios cor de rosa, azuis, verdes, brancos... mais refinados
alguns, apenas de plástico flexível outros. Se
eu estivesse a falar de gramática, ali já estariam os termos principais
da oração. Sujeito, predicado e – sim ou não – complementos.
Faltariam as conjunções, as preposições, as interjeições, para unir,
articular, concluir. Lá
estavam, em caixinhas de madeira, pequenas peças metálicas, em forma de
zero, em forma do infinito, que é o 8 deitado, ganchinhos, arremates,
fechos, etc, etc, etc. Chegou
o momento! Entra minha querida vizinha e freguesa. Depois as filhas dela;
as vizinhas delas, as primas das vizinhas e amigas das vizinhas delas. E vão
escolhendo os materiais a gosto particular de cada uma. E vou eu, feliz,
montando as bijuterias a essas jóias de pessoas! O
gosto e prazer em montar é tão bom que, entre as encomendas delas... vou
sobrecarregando umas argolas (aquelas em que se penduram cortinas do
banheiro), fixadas na espessura do lado meu da grande mesa. As
amigas-freguesas tomam um cafezinho, pagam e se despedem. Minhas argolas
tornam-se abundantes em brincos, colares, pulseiras, contorno de
tornozelos... que resolvo colocar parte do... acervo, junto a algumas
cabeleireiras e manicuras. Lembro-me
bem de uma dessas, que não deu certo. Em consignação, após algum tempo
recebo uma caixa de volta... mas, com tudo tão misturado, tão
comprometido, tão enrolado... que não dava mais para reconhecer a forma
antiga, o tamanho antigo, a beleza antiga, a originalidade antiga... tudo
um rolo só!! Pulando
um tempinho... já na minha cabana, escrevo a você, quando chega o xereta
Bud, sabe, aquele personagem imaginário que inventei (de omBUDsman) para
conversar, porque você, leitor, está sempre longe. Irônico, ele diz: –
Hum... vai montar barraca de bijuteria e aproveita o espaço para...
propaganda?! –
Nãão, Bud, só estava à cata de mensagem bem maior que as bijuterias
que sei fazer! É ano de eleição... precisamos de candidato-jóia, de
partido-jóia e... bem... –
E encontrou tudo misturado, emaranhado, sem identidade, sem respeito às
origens, sem valor... dá uma olhada nas corrupções de todos os lados!
Até tu, Alkimus? Dá uma olhada no Sarney do PMDB! Os governos mudam, mas
ele... sempre, é do governo!
Bijuteria barata sem a luz da jóia autêntica que tem brilho próprio,
que ilumina seu espaço, que embeleza, que encanta! Sabia que os leitores
são mais, muito mais inteligentes que você?! Aliás, sabe qual o título
que eles dariam a esse texto seu? Eu lhe digo: “Nós sabemos a diferença
entre a jóia e a bijuteria!” |