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Monólogo das mãos...  virtuais?

As mãos confesso, sempre foram um problema para mim. Eu pretendo que elas façam tudo! Desde bordar e ensinar a bordar os tapetes arraiolo, a arrancar as ervas daninhas do meu jardim; a fazer uma papinha ao Zorro, o fiel cão que me protege; a tentar, tardiamente, colocar cada dedo na nota certa de alguma partitura linda, como o Réverie de Schumann ou a seguir a tradição da minhas famílias, nascidas em terras de neve.  Ali não havia desperdício, e, onde tudo que a mãe terra dava, era feito conserva, para quando a terra gelada não pudesse produzir! “Guardar” para não faltar!  As mãos continuam me sendo problema... até a escrever, já manchadas pela idade, sobre a pobreza daqueles a quem a ética falta e sobre a rica nobreza das pessoas simples, honestas e boas que produzem o bem e o certo. A essas dedico texto lindo, que me foi enviado pelo Agnaldo Vergara, um jovem de bem, com laboriosas mãos. (de Ghiaroni)

Para que servem as mãos?

“As mãos servem para pedir, prometer, chamar, conceder, ameaçar, suplicar, exigir, acariciar, recusar, interrogar, admirar, confessar, calcular, comandar, injuriar, incitar, teimar, encorajar, acusar, condenar, absolver, perdoar, desprezar, desafiar, aplaudir, reger, benzer, humilhar, reconciliar, exaltar, construir, trabalhar, escrever... As mãos de Maria Antonieta, ao receber o beijo de Mirabeau, salvou o trono da França e apagou a auréola do famoso revolucionário; Múcio Cévola queimou a mão que, por engano não matou Porcena; foi com as mãos que Jesus amparou Madalena; com as mãos David agitou a funda que matou Golias; as mãos dos Césares romanos decidia a sorte dos gladiadores vencidos na arena; Pilatos lavou as mãos para limpar a consciência; os anti-semitas marcavam a porta dos judeus com as mãos vermelhas como signo de morte! Foi com as mãos que Judas pôs ao pescoço o laço que os outros Judas não encontram.

A mão serve para o herói empunhar a espada e o carrasco, a corda; o operário construir e o burguês destruir; o bom amparar e o justo punir; o amante acariciar e o ladrão roubar; o honesto trabalhar e o viciado jogar. Com as mãos atira-se um beijo ou uma pedra, uma flor ou uma granada, uma esmola ou uma bomba! Com as mãos o agricultor semeia e o anarquista incendeia! As mãos fazem os salva-vidas e os canhões; os remédios e os venenos; os bálsamos e os instrumentos de tortura, a arma que fere e o bisturi que salva.

Com as mãos tapamos os olhos para não ver, e com elas protegemos a vista para ver melhor. Os olhos dos cegos são as mãos. As mãos na agulheta do submarino levam o homem para o fundo como os peixes; no volante da aeronave atiram-nos para as alturas como os pássaros. O autor do «Homo Rebus» lembra que a mão foi o primeiro prato para o alimento e o primeiro copo para a bebida; a primeira almofada para repousar a cabeça, a primeira arma e a primeira linguagem. Esfregando dois ramos, conseguiram-se as chamas. A mão aberta, acariciando, mostra a bondade; fechada e levantada mostra a força e o poder; empunha a espada a pena e a cruz!

Modela os mármores e os bronzes; da cor às telas e concretiza os sonhos do pensamento e da fantasia nas formas eternas da beleza. Humilde e poderosa no trabalho, cria a riqueza; doce e piedosa nos afetos medica as chagas, conforta os aflitos e protege os fracos. O aperto de duas mãos pode ser a mais sincera confissão de amor, o melhor pacto de amizade ou um juramento de felicidade.

O noivo para casar-se pede a mão de sua amada; Jesus abençoava com as mãos; as mães protegem os filhos cobrindo-lhes com as mãos as cabeças inocentes. Nas despedidas, a gente parte, mas a mão fica, ainda por muito tempo agitando o lenço no ar. Com as mãos limpamos as nossas lágrimas e as lágrimas alheias. E nos dois extremos da vida, quando abrimos os olhos para o mundo e quando os fechamos para sempre ainda as mãos prevalecem.

Quando nascemos, para nos levar a carícia do primeiro beijo, são as mãos maternas que nos seguram o corpo pequenino. E no fim da vida, quando os olhos fecham e o coração pára, o corpo gela e os sentidos desaparecem, são as mãos, ainda brancas de cera que continuam na morte as funções da vida. E as mãos dos amigos nos conduzem...

E as mãos dos coveiros nos enterram!”

Essas mãos todas não figuram no faz de conta do virtual. Quanto às outras...

Livrai-nos Senhores dos céus, das malignas mãos lá pelas bandas de Brasília, e de todos os cantos, que enterram, ainda vivas, as esperanças de um povo bom... que, ao acordar se verá dentro de uma merreca de urna funerária, onde o sufoco confunde a falta de luz,  de ar... e de justiça! O “Latifúndio que nos cabe”, porque... merreca de críticos eleitores que somos... ainda acreditamos na merreca da virtualidade do discurso.

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