Quem
me contou essa história foi o filho de um pobre nordestino. Ele nasceu em
meio a imensos e inauditos sacrifícios. A casa em que morava, com mais
doze irmãos e os pais (pobres... mas não assexuados, pelo visto)... não
era uma casa; era uma espécie de choupana, sujeita às intempéries políticas,
e, construída de modo frágil... uma vez que lá é diferente de Ubatuba,
Caraguatachuva e São Sebastrovão! Só
Deus sabe como esses filhos cresciam! O de nove anos tomava conta do de
oito, que tomava conta do de sete, que tomava conta do de seis, que tomava
conta do de cinco, que tomava conta do de quatro, que tomava conta do de
três, que tomava conta do de dois. O de um aninho ia junto com o restante
da família, à roça, porque precisava mamar na mãe. Bem,
um desses filhos foi percebendo alguma coisa estranha que acontecia, ao
longo dos anos. Entravam e saiam eleições! Em campanha, uns tantos já
conhecidos apareciam, a plantarem compromissos e esperanças... que nunca
ocorriam depois de eles eleitos... e o nosso menino, pobre foi ficando
cada vez mais desconfiado... porque, enquanto crescia cada vez mais
pobre... a barba dos políticos prometedores embranquecia, com sorrisos
imensos... de quem... enriquecia! Provavelmente,
a chamada “Indústria da Seca” nada tenha a ver com isso tudo. Fato é
que o moço se candidatou a vereador. E foi eleito na sua cidadezinha.
Nunca chegou a prefeito, porém, um fato de repercussão nacional e inter,
o assassinato do Chico Mendes, o colocou na disputa de uma vaga em Brasília.
Foi suplente e... como o titular também fora assassinado... chegou lá!!! Ei-lo
trazendo, de bagagem, a miséria, a fome, a seca, as promessas, a visão
das rugas cravadas nos rostos queridos do pai e da mãe... além das não-escolas
aos irmãos... ei-lo em Brasília!! Que custou aos brasileiros a inversão
de sua história! De “celeiro do mundo” que éramos... fomos por aí
nos esquecendo das ferrovias, se esqueceu das hidrovias, é o sistema mais
econômico de transporte... fomos lá, na onda do Juscelino... a comprar
carros e caminhões... a ter que construir... estradas e mais estradas...
e mais estradas, todas a preços exorbitantes... com o arrebatamento
de um dinheirão ao bolso do brasileiros. Aí
esse moço nordestino, me ligou: “Daidy, cheguei em Brasília,
inesperadamente. Tudo aqui tem a imensidão que o povo brasileiro não
conhece! Não há choupanas... há salas imensas, forradas de fofo azul...
e de outras cores, há poltronas de uma comodidade que você nunca vai
conhecer... vou ter um grande gabinete só para mim, com muitos
assessores... há restaurantes elegantes, lanchonetes, e, nas sessões, de
apenas terças a sextas feiras – quatro dias na semana! - água servida
em copos de cristal e muitos “cafeses”. Tenho medo de sucumbir...
tenho medo de receber dinheiro de “ emendas” para meu estado, que
precisa, em troca de meu voto, que não devo!! Tenho medo de não
“evitar às tentações de pecar... ”. É
difícil, eu sei lhe respondi. Entendo tudo isso... É o deslumbramento do
poder !! O
poder é efêmero, querido nordestino. Passamos por esta vida e só
levamos à outra, mais eterna, aquilo que fizemos nessa! De bom e de mal! Querido
nordestino, lógico que você já sabe, mas vale relembrar que não é ser
deputado ou senador, que não é ser juiz de jogos de futebol, que não é
ser juiz de qualquer Suprema instância ou presidente da República... que
vai conferir, a qualquer um dos cargos de cada um... a honra, a ética e o
holofote! Não é! É,
sim, a honra de cada um, a
honra que cada um tem... advinda da honra do pai, da honra da mãe, da
honra da família... a enriquecer de honra o cargo que ocupa!! E volto a
dizer seja o cargo qualquer. De juiz de qualquer setor, seja senador, seja
deputado, seja professor, garimpeiro, torneiro, sapateiro, catador de
papelão... a honra, quando existe, tem o mesmo tamanho em todos! Honras
gostaria de prestar à EMBRAPA, graças a quem há um enorme progresso, em
nosso país (embora... técnicos tenham sido substituídos por políticos).
A agropecuária nos atesta isso, hoje e todo o pessoal festeja – os
ganhos da Economia, não devidas aos meros especuladores da Bolsa de
Valores... mas à real produção de nosso país!! Ao encontro de seu
grande destino. Lógico,
meu querido nordestino, que a decisão de ser ético ou não, vai depender
do “peso” de vossa mercê. Como
não sou nada dedicada a assuntos tão funestos... poderia contar um velha
piada? Uma
lagartixinha estava cruzando uma linha de trem, bem desapercebida do
perigo! O trem veloz lhe cortou o rabo! Sentindo o corte “na própria
carne”... foi olhar o rabo... o trem... continuando veloz a passar...
lhe cortou a cabeça! |