DIA DE FILA
Ainda
bastante irritada com o Bud, (meu interlocutor imaginário) um infame com
capacidade de hipnotizar-me, resolvi... digamos, tirar uma desforra,
coisas que a auto-estima exige. -
Agenda lotada, hein Bud! Vejo uma anotação: “Dia de Fila”. Que história
é essa de “Dia de Fila?” Por acaso estaria você escrevendo sobre os
diversos tipos de cães, um em cada dia ? Então, por exemplo, na
segunda-feira, você falaria sobre aquele seu cachorro
gozado, com focinho de rato e corpo de... lingüiça... - (Mm,
mm, mm…)! rosnou o Bud. - Na
terça-feira, você colocaria toda sua vontade de tagarelar à disposição
do cachorro do seu tio Artaxerxes, aquele imenso cara-chata, com rabo de
tatu e pernas tão tortas que, ao que tudo indica, o Criador, já
extenuado de tanto criar cães, no dia de criar cães, que colocou ali as
pernas arqueadas de mesa tipo country. - (Mhn...
mhn... mhn), birrosnou o Bud. Birrosnou quer dizer que rosnou outra vez,
pela segunda. - Na
quarta-feira você falaria sobre aquele malandro cachorro do seu cunhado
Epaminondas, que veio para casa há muito tempo, mas há tanto tempo, que
ainda o seu tio Epaminondas fazia xixi na cama. E o malandro daquele cão,
assim que seu cunhado deixou de fazer xixi na cama, ele começou a fazer xixi naquela cama... lembro-me, Bud, da sua família fazendo
o impossível para desacostumar o malandro daquele cão a fazer xixi na
cama. E... o mais interessante é que, assim que o malandro deixou
de fazer xixi na cama, aí foi o seu avô que começou a fazer xixi na
cama. Pobre
cama... que destino!... É
isso, não é, Bud, que você está escrevendo sob o titulo de “Dia de
Fila?” - (Mhn… mhn... mhn..!) trirrosnou
o Bud. Trirrosnou quer dizer que rosnou outra vez, pela terceira. - Na
quinta-feira você dedicaria toda a ortodoxa tagarelice, para retratar o
cachorro peludo do seu vizinho, que era tão peludo, mas tão peludo, que
a esposa, vencendo a resistência do seu vizinho, conseguiu permissão e
levou o exemplar canino ao... salão de beleza!...
lá, acharam o cão peludo do seu vizinho uma verdadeira “gracinha”. O cão já não gostou. E
gostou muito menos quando o requebroso cabeleireiro pegou da tesoura e foi
podando, podando, até que a... popa ficou a descoberto! O cachorro do seu
vizinho já não agüentava mais de vergonha! E piorou ainda, quando o
requebroso cabeleireiro... “num toque final de arte,”
depenou-lhe toda a cauda, deixando apenas na ponta um pompom redondo e...
fofo. Mas não
parou por aí o drama do cachorro do seu vizinho, porque a boa e digna
esposa gostou da... decoração e insistiu em amarrar um lacinho de
fita - que poderia ser azul - bem abaixo do redondo e fofo pompom. O pobre
animal não agüentou mais e, ganindo veementemente, procurou sair daquele antro de promiscuidade! Com a
ajuda de todas as madames presentes, foi organizada uma verdadeira “caça
ao cão...” que... acabou caçado e enfeitado com a fita azul. Por mais
que tentasse esconder o rabo no meio das pernas, nada impediu que a viagem
de volta fosse uma... tragédia. Também, enfeitado daquele jeito, não é? - (Mnhn... hunm... Mmhn... Mhn!)
tetrarrosnou o Bud. Tetrarrosnou significa que rosnou outra vez, pela
quarta. - Na
sexta-feira, você empregaria toda a parlapatice para falar do irmão
desse desgraçado cachorro que, tendo assistido a vergonha impingida ao
fraternal canino, jurou vingança em nome e resgate da honra da raça
ultrajada! Não
precisou esperar muito. Queimada
uma lâmpada no forro alto da edícula, seu vizinho subiu a escada que a
boa e digna esposa segurava para a “troca”. Não era do tipo escada de
pintor. O
irmão do cachorro ultrajado, incontinenti, efetivou a desforra,
depositando aos pés da digna matrona, uma possante ratazana que
esperneava e, sorrateiro, enquanto a confusão toda se armava,saiu o cão,
satisfeito. Um último olhar à porta mostrou-lhe a cena em que o seu vizinho tentava agarrar-se à lâmpada e... conseguindo - o... só por um segundo. Não
é assim, Bud? - (Mhn... Mhn... Mhn... Mhn... Mnh)
pentarrosnou o Bud. Pentarrosnou significa que rosnou outra vez, pela
quinta. - Aí,
no sábado glorioso, você, certamente, falaria do Peri, aquele inesquecível
“fila” que inspirou a crônica “morrendo de amor fiel” e que havia
se apaixonado pela Lassie. |