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Algodão colorido e futuras  Prefeitas.

É na segunda-feira, quando meu amigo, Oswaldo, da Jomax, me liga:

– A sra. ainda quer comprar uma rede?

A palavra “rede”, imediatamente, me leva ao passado, apenas 60 aninhos. Em Santos, nas férias do antigo Grupo Escolar. Uma delícia! Eu e mais um bando de 25 parentes! A molecada preenchia o numeral oito. E como dávamos trabalho! Sempre havia um de nós perdido na praia!

Naquele sobrado – rua Sergipe, 12, Gonzaga – havia uma eletrola antiga e um velho disco:

“Não quero outra vida

Pescando no rio de Gereré... Gereré...

Tem um peixe bom, lari-laralé, larilaralá..

E quando no terreiro...

Faz noite de luar

E vem a saudade

Me atormentar...

Eu me vingo dela

Tocando viola de papo pro ar!”

Lógico que era numa rede!

Aí a voz do Oswaldo traz-me de volta ao presente:

– A sra. ainda está aí?!

– Acabei de chegar, mas não aprendi a tocar viola!

–???$#@%&*@#??...??

– Mas quero ficar de papo pro ar!

–???@%¨&*(#@...???

– Pergunta ao “redeiro” se pendura cheque para o  primeiro de abril e se tem rede... espaçosa, porque gosto de largueza...

– Pendura e tem!

– Manda-me  o cujo!

E o cujo veio. Era o sr. João Batista da Silva, nascido em Pombal, a 360 km de João Pessoa, na Paraíba!

Pombas, que longe!! Fico curiosa, porque nada sei deste meu grande país! O João da Silva me concede uma entrevista. Fico sabendo que a viagem demora três dias, na vinda, mais três dias, na volta. Está descartada a hipótese de o nordestino Lula emprestar o luxuoso  avião dele para o Zé do Trole, perdão, para o João Batista da Silva, meu irmão, seu irmão... viajarmos!

O João, mais 39 redeiros fazem duas viagens por ano. Ele saiu da Paraíba  no dia 27 de outubro, do ano passado e só voltará a rever a esposa, Jailsa , os filhos Esther, 4 anos, Estepanie, 1 e meio, no dia 01 de junho, ano domini 2005.

É um bom papo, o João e, enquanto lhe sirvo um suco, vai ele me contando: “Lá” tudo é seco! Vaca morre, boi morre, cabra morre, cachorro morre... gente morre!! Não há emprego, o atendimento à saúde é uma fraude!... qual rede a sra. vai comprar?

– Rede? Que rede? Quero saber mais! João, rede – que é macha – tem que ter história! Tem que trazer “bagagem” do meu povo! Continua se explicando!

– O nosso governador, Cássio Cunha Lima, foi o pioneiro em trazer o algodão colorido, para nossas terras. Coisa linda de se ver... o arco-íris todo se abrindo em flocos macios, até o horizonte onde a vista  alcança. A cor não sai!... qual rede a sra. vai comprar?

– Rede? Que rede?! Conta mais!

– Foi através da EMATER que o algodão colorido chegou na Paraíba e... mesmo ficando longe de meus queridos filhos e esposa, o tempo todo... fico mais  ou menos feliz, em saber que, a cada dia 10 de todo mês, eles recebem recursos para subesistência... (O prefixo “sub” é dolorido, nada colorido, penso eu)... pelo meu trabalho, que julgo honesto! Não vendo drogas!! Mas...vivo com medo, como se fosse um assassino! Os fiscais das Prefeituras não gostam de nós e apreendem nossa mercadoria... os donos de lojas nos odeiam!

– João!!  Isso é uma injustiça!  Não conheço nenhuma loja aqui e nem em N. Odessa... que venda redes!

– Isso é justo, mas... enquanto seu dinheiro compra uma rede, não gasta com os artigos deles!

– Para os quintos dos infernos com os artigos deles! Só compro, exatamente, aquilo  de que preciso! Não obedeço a essa enxurrada cooperativista movida por interesses pequenos, em detrimento da... SUBexistência  de nós, que votamos no Lula, hoje deslumbrado com o poder! Somos um Brasil muito rico... cheio de pobres! Olha, quero comprar aquela rede grandona, amarela!

 Parece que o João estava distraído...

– Rede, que rede?

– Uta meia, aquela que você vende!

– Mas aquela, amarelona... é muito grande pra você, velha magrinha!...

Transação efetuada, acompanho o redeiro João da Silva, ao portão de saída, aconselhando:

– Sabe,  você poderia  procurar a Darlene, a Márcia Sgobbi, a Thais, a Vanessa, o Aparecido, todos importantes jornalistas... acho que gostariam de... balangar, numa rede que tem história!

Pelo olhar do Zé do Trole, perdão, do  João da Silva... percebi que ele falava: “Jesus Chraisto! Que gente complicada! E sumiu!

Tudo bem, hoje é terça, 15, chove gostoso... acho que vou balangar na rede amarelona!

Cochilo e vejo duas mulheres à frente das Prefeituras. Minha professora, Salime Abdo, em Nova Odessa e a artista Diana Cury, em São Carlos.

Quem sabe, não é?... mais rigidez com traficantes, mais atenção e respeito com simples vendedores de rede!...

... e quando no terreiro, faz noite de luar

E vem a saudade,

Me atormentar...

Eu me vingo dela,  sem tocar viola, mas de papo pro ar!

                                                                Beijo você, meu leitor.

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