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CINCO BILHÕES DE VIAJANTES

Era um curso de oratória no Instituto Histórico e Geográfico de Santos. O competente professor Dr. Paulo Augusto de Bueno Wolf sugere um tema e cada um fala obre ele por dois minutos.

Eu havia me inscrito para perder o medo de falar em público, mas um nó no estômago tirava-me a fala, de modo que pedi socorro ao Bud, meu interlocutor imaginário.

– Por favor, Bud, vai por mim, vá! “– Eu não! Curso de oratória!... era só o que faltava...!”

Mas insisto: “– As pessoas devem socorrer as outras em dificuldades, por favor!”... “– Vá lá, que seja. Vou assistir...” “– Mas não é assistir.”

– Nãão?  “– Não. Há que falar!” “– E falar o quê ?” “– Hoje a lição é falar sobre uma viagem interessante.”

– Veja se serve esta:

“Éramos três. Três num Passat branco. Ponta da Praia. Balsa. Guarujá.Praia da Enseada. Muito sol. Delicioso banho de mar. E fome! Que apetitoso cheiro de milho verde cozido...!”.

– A senhora pode nos trazer um cada um, por favor?

 (Vieram cinco espigas).

– Somos só três pessoas, senhora!

– Uéé... E aqueles dois que estavam dentro do seu carro, o Passat branco ?

– Ladrões! Socorro! Polícia!

Um corre-corre detetivesco e chega-se a uma mísera favela, onde, se Victor Hugo fosse brasileiro, teria se inspirado para escrever... ”Os Miseráveis"...

“– Esta viagem não serve, Bud ! Você chegou a um problema social... que nem toda a traquejada oratória dos políticos conseguiu resolver!” “– Bem, conta você, então, aquela sua que se inicia assim: éramos dois...”

– Sim. Éramos dois. Foi uma viagem linda... linda... um encanto... uma paisagem terna... eu e ele... Bud, mas eu NÃO posso contar a eles a... minha viagem de núpcias!!!

– Bem, quem sabe então uma viagem com um número bem grande de viajantes... uma viagem onde viajem todos os viajantes: um bilhão e cem milhões de viajantes!

– Eu não me recordo de ter ouvido falar nessa viagem estranha! Você já a fez? “Sim”, falou o Bud em tom sério que, nele, precede e denuncia a emoção. – Todos a fizeram! Foi uma viagem competitiva e cada um dos cinco bilhões e cem milhões saiu vitorioso! Por sua vez, cada um concorreu com milhões... para vencer nessa viagem sem escala, com uma só rota: A VIAGEM PARA A VIDA!

O prêmio da competição?

Uma medalha que vai crescendo junto e, quase do tamanho da mão, pulsa, pulsa e pulsa até que um dia no peito haja completo silêncio!!

– Bonita esta viagem, Bud! Nunca se pensa nela...! e como você vai fazer a peroração?

– A pera... o quê?

– Peroração. Você sabe, Bud! É o final, o arremate que vem depois dos argumentos! Mas... você está surdo outra vez?

– Ah!... bom... sei, disse ele, tirando do ouvido a... borrachinha que deveria estar na ponta do lápis. Vou terminar dizendo que ninguém pode curvar-se à derrota; basta dessa história de que o importante é competir; está nos começos, no início de cada um, o fato incontestável da VITÓRIA !

É nossa condição inata!

Senhores cinco bilhões de passageiros com destino ao fim desta vida... BOA VIAGEM! E... morramos vitoriosos que, no mínimo, assim nascemos, quando, entre milhões, vencemos a corrida para ESTA VIDA!!

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