Três botões de rosa e orvalho de lágrimas
Quatro
horas da manhã de um sábado, duas semanas que antecedem o Dia das Mães.
É
uma longa avenida e o capacete de um jovem de moto reflete a luz prata da
lua crescente.
Calculo
que, nesta viagem solitária, o céu e o escuro da noite por companhia,
ele estivesse muito feliz consigo mesmo e pensando: “Céus, quanto se é
levado a errar por suspeitos amigos que trilham caminhos escabrosos!
Quanto me faz mal aquilo que errei! Mas, confio no perdão de Deus! Estou
contente e tudo se mostra pronto. Tenho paz no peito – que ao Supremo
ofereço – porque, entre erros, acertos, melhoras e recaídas,
algo de nobre e do alto fez-me providenciar ao meu querido filho um
futuro diferente – com muito estudo dele – futuro diferente daquele de
tantos brasileiros, a quem não é dado chegar aos níveis superiores de
graduação... quantas inteligências anuladas pelo narcotráfico... pelo
uso e posterior venda de drogas...quantos chefes de famílias
alienados...! NÃO!!! meu filho será um exemplo de ética! Um cidadão
respeitável! Já providenciei. Está tudo pronto. Como é reconfortante
ter esses meus sentimentos! Acho mesmo que, se eu tivesse que morrer amanhã...
morreria feliz, meu Deus!...
MEU
DEUS!!! O silêncio da noite acorda pelo estardalhaço de – MEU DEUS!
– ferragens que se chocam, ao ser albarroado por um carro prata... que
também deveria refletir, momentos antes,
a prata luz da lua crescente...
Peito
em paz estraçalhado.
O
asfalto recolhe seu corpo ainda quente, mas já sem vida...
O
“amanhã” foi agora.
DUAS
MÃES
À
porta de uma linda residência bate um coração inquieto, alma banhada de
apreensão misto à incertezas. Poderia odiar, não o faz; vilipendiar, não
o faz; culpar, não o faz; insultar... mas não insulta...
Do
lado de dentro da linda residência, pela portinhola, o amargo de uma face
pálida, assustada e triste revela intensa dor... é a mãe do moço que
dirigia o carro prata...
Olhares
se cruzam.
Lábios
emudecem.
Corações
pulsam rápidos, em viagem dolorida... com paradas em sentimentos de
culpa, desespero e agonia...
As
duas almas trocam de lugar.
Uma
entende e sente a outra.
A
misericórdia que Deus reconhece no âmago daquele que é bom produz a
magia do perdão.
Perdão,
ainda que afogado em lágrimas.
Retira-se
a mãe do órfão, extremamente sensibilizada, mas retorna meia hora
depois. Voz modulada, calma, límpida:
-
Não quero sofrer mais, com o sofrimento da senhora. Somos duas mães. E,
embora seu filho tenha deixado órfão de pai o meu, preciso que essa tragédia
não lhe arruíne todos os demais maios. Que todos os que a amam possam
vislumbrar no Dia das Mães, um sorriso de alegria!
E entrega-lhe três botões de rosa, com um voto: “Feliz Dia das Mães!!”
Esses
fatos são todos verdadeiros. Ocorreram, exatamente numa longa avenida.
Na
data referida.
Abraço
a todas as mães que sofrem. Ofereço a vocês este texto, de forma geral
e, de maneira muito especial, à mãe do órfão de pai, inspiradora desta
crônica. Tu tens, jovem Mãe, a forma mais perfeita do amor!... a mais lídima...
a mais linda! Aquela que advém da MISERICÓRDIA!!
Três
eternos botões de rosa a você!
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