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RETRATO SEM
FOTOGRAFIA Comunicação!
Internet! Coisa boa. Era
uma vez uma menina. Ester.
Dez aninhos. Era
uma vez também a mãe dela. E
era uma vez, o pai. Então,
era uma vez uma família. Havia
sido um lar como tantos outros; com bons momentos... com maus instantes. A
menina Ester, muito esperta, observava; muito sensível, sentia. Ao
contrário das amiguinhas, não era de falar. Observava
e sentia. Sentia
e calava. Ao
contrário das amiguinhas, não pedia nem implorava, humihando-se
aos adultos, quando queria um sorvete, um doce, um brinquedo novo... Observava,
sentia; calava, não pedia. Ao
contrário das amiguinhas, não valorizava nada as roupas novas e
os calçados. Livrinhos,
ela gostava. Calava
e li. Nisso saíra-se ao pai, que lia todos os livros; jornais... todos os
jornais. E
escrevia livros importantes. Ester sabia que eram livros de gente
grande. Via
o querido pai sempre ocupado, ausente...distante mesmo quando
perto. E
entendia. Observava.
sentia; lia, calava; não pedia, compreendia. Como
a algumas de suas amiguinhas, aconteceram a ela, um dia, coisas estranhas...
coisas ruins... Ela
ficou com a mãe. O
seu papai saiu, levando a
importância toda de gente grande...todos
os livros que já havia lido; todos os livros que já havia escrito. A
mãe da menina Ester, é bem verdade, falava bastante...e...ler, não lia.
O porquê, Ester... não entendia. A
mãe não adivinhava...como só as mães sabem fazer... o que Éster não
falava... Muito só foi ficando. Cada vez mais só. O
Sábado. Dia
de ver o pai. Neste
sábado não vem. Palestra
na universidade. Outro
sábado. Também
não. Viagem
de avião. Finalmente
ele chega. Vão ao parque... ele no banco, ela no balanço. Pouco alegre
está a menina; um tanto triste o pai. Chega
o final da tarde. Ele
quase nada disse a ela. Por outro lado, quase nada ele ouviu. Isolamento
cada vez maior. Hora
da despedida. Seria tão bom abraçá-lo, mas não o fez. Queria
um beijo... mas não pediu. O
pai queria abraçá-la, mas não o fez. Queria
um beijo dela, mas não pediu. Entre os dois beijos que ninguém deu, cada
um chorou no seu canto. Um
choro que também nenhum dos dois ouviu...
Ester
sozinha. Sozinha
cresceu. Foi
quando um moço calado calou-se ao seu lado. Casaram-se.
Anos
vieram; anos se foram. Anos vieram e se foram. Num
desses o pai morreu. Ester
não se lembra muito dele. Nem
com tristeza, nem com alegria. |