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Dúvidas,
Pimenta e Chocolate. Acho
que você vai me entender. É
Sexta-Feira da Paixão e minha consciência já pesa uma tonelada, no mínimo. Ontem,
quinta, o jardineiro Edson negou-se a vir amanhã, cortar as altas eras
dos meus muros, porque “Sexta-Feira Santa não é dia de se
trabalhar!”. Gostei!
E, por ser, à minha moda, boa religiosa, comecei a fazer isso naquela
noite mesmo. Vi tudo o que a
televisão tinha que mostrar, até meia noite.
(Menos novelas). Hoje, Sexta, levantei-me mais cedo do que sempre,
que era para ficar maior tempo sem fazer nada. Assisti
“Universidade na Madrugada” e li os jornais impressos que iam
chegando. Logo
flagrei-me em pleno delito de leso-jejum. Li que a Igreja, acomodando-se a
nossos tempos, com menor intensidade na vivência dos momentos litúrgicos,
suspende a abstinência de carne na Quaresma toda, mas recomenda-a nas
Quartas de Cinza e Sextas Santas. Céus!!
Provavelmente irei pro inferno, eis que, na primeira refeição, às 6h30,
saboreei um prato fundo de... músculo! É bem verdade que o cozinhei com
muita cebola, muito alho, muito louro, alecrim, xuxu pra xuxu, jiló,
berinjela, duas batatas, muitos tomates, erves du Provence. Legumes em
pedaços grandes, para não desmancharem. Promiscuidade, não aprecio.
Como não gosto muito de peixe e, sem enchentes, nenhum deles sobrou mesmo
no meu jardim; bacalhau, só fazendo empréstimo nos Bancos.... dívidas
também não gosto muito... restou-me a muscular fonte protéica. Com
a consciência pesada e estômago leve, tento um re-equilíbrio do pecado,
digamos...da carne! Nos
idos – e tenros tempos – de Catecismo (católico) e de Escola
Dominical (batista), Sexta Santa, por fé e respeito, era dia de silêncio,
contrição, orações, músicas sacras e clássicas em todas as rádios... Estava
nosso Cristo morto! Lembra-me
uma católica explicação para a abstinência de carne: o não haver
sacrifício. Certo. Naquele tempo inexistiam os processos de hoje e os
bois eram mortos à beira do rio mesmo. De águas limpas. Mas...
o bacalhau e o peixe não eram sacrificados? E as plantas tolhidas de seus
pés? Todos se lembram do bom Frei Zago (aquele da milagrosa bebida feita
com mel e babosa) que, ao cortar a planta, dizia a ela: “Perdoe-me,
plantinha, pela mutilação!” Às
vezes, fé e raciocínio não se ajustam. A
levar tudo em conta, nos trinques...vou morrer de fome ! a mesma fome que,
no afirmar de Frei Beto, mata mais que o terrorismo e que a aids! Ligo
a tv. Canal da Família e, dali, um religioso me afirma: “... a abstinência
de carne é simbólica e, mesmo hoje, pode ser substituída por exemplo...
pela visita a uma amiga a quem não abrace há tempos...” Meu
bom e santo religioso!! Estou salva!! Contente,
mas cautelosa – nunca se sabe – faço visita a duas amigas e, na
quinta e última refeição, pelas 18,30, castigo-me: no “musculoso”
prato fundo acrescento valente pimenta vermelha, de arder! E muito
chocolate de sobremesa, que...ENGORDA!! Nada
a ver com novelas, de que não gosto nada, posso afirmar que este foi um
dia de reflexão, pimenta e chocolate. |