O PADRE E A MARQUESA
O
Bud à máquina: Olha,
leitor, eu nunca imaginei um dia escrever uma crônica pornográfica...
Jamais
pairou por um décimo de segundo sequer, em minha mente sadia e pura,
o vil pensamento de botar no papel palavras de incentivo ao prazer
carnal... palavras de lascívia... nunca
mesmo! Era
um padre, interessante aquele. Desses
que dormem em tábua dura. Não
se pode dizer que fosse entrado em anos, contudo, um indefinível encanto
enigmático, misterioso mesmo, afastava sua imagem do rol dos jovens e a
colocava na privilegiada posição de sábio novo! Enfim,
muito interessante de se ver... e de se ouvir. Foi
aí que tudo aconteceu. Ele
– de imediato – apaixonou-se pela figura linda. Fina,
discreta, era o tipo que lembrava o requinte da clássica beleza nos salões
de outrora. Ela
estava junto à uma varanda, um tanto alheia ao movimento circundante. Ele
aproximou-se. Ela
deixou-se ficar. Irresistivelmente
atraído, aproximou-se mais... Ela
deixou-se ficar... Seria
necessário aqui um José de Alencar, um Olavo Bilac, um Visconde de
Taunay, para fotografar com os ardores do romantismo, o irrefreável amor
à primeira vista. Um deles saberia descrever a cena, mesclada do afã,
incrivelmente antigo à decisão e liberdade, incrivelmente modernas! Ele
aproximou-se mais e tocou-lhe os contornos harmoniosos e macios... Ela
deixou-se ficar. –
Bud, então você pensa que vai dar uma de certos escritores, que buscam
vender livros à custa de exacerbar instintos...NO MEU LIVRO NÃO!! –
EU??!! Como você pode... –
Por acaso pensa que vai colocar uma pornografia, de
lesa-religião no meu livro, quando, juramentou, no começo
da crônica nuca incentivar o prazer carnal, a lascívia...e agora...tem a
coragem de dizer que o padre deitou-se sobre a marquesa?!! Seu indecente!! –
Indecente é a sua cabeça, sua mente! o meu padre apenas cansou-se de
dormir em tábua dura e largou o corpo sobre a cadeira antiga, longa,
almofadada, do século XVIII, que está na varanda do museu...! –
A... marquesa?! –
A marquesa. –
Bem, você poderia, ter dito que... o padre deitou sobre a marquesa e...não
que o padre deitou... hum... ã... |