A FACA ITALIANA Meu
doce consorte tem ido à Itália algumas vezes, a negócio, mas...
sucumbindo às tentações, acaba comprando objetos cuja aquisição não
estava programada e, a rigor, nem sequer era necessária. Numa
destas viagens, trouxe ele algumas lindas bolsas, salames “funghi”;
secos, licor Amaretto de Saronno, meio quilo de pó de café (de tal
qualidade que nenhum brasileiro jamais sonhou em tomar aqui!), purê de
tomates etc. Trouxe
também uma grande faca! Extra
"qualitá". Marca Bufalo. Na verdade, fabricada na Alemanha.
Cabo de madeira escura; bem acabada; três rebites dourados. Uma
jóia de arma, digo, de instrumento cortante culinário. Ah!
a lamina vem protegida, de cabo a rabo, por uma capa dura, preta,
todinha estampada com o logotipo do fabricante. Um
verdadeiro luxo! O
estranho é que esse bem nascido objeto passou
a receber um cuidado, um mimo, uma
paparicação que, se me contassem, eu não acreditaria.
Ficar
molhada, no escorredor de pratos, junto com as outras mortais talheres?
Nem por sonho! A santa faca não!! "...Não
a deixe ficar molhada!." exclama logo meu doce consorte . ...“coloque
a proteção” ...
“não aponte lápis com ela”!...Recomenda-me ele. Olha,
leitor, com perdão da palavra, a faca virou um... verdadeiro
cocozinho...! Haja!! O...
estrelato dela começou já na alfândega italiana quando foi seu
talento descoberto por um detector de metais. –
O que o sr. vai fazer com uma faca deste tamanho? Perguntou-lhe o agente
funerário, digo alfandegário. –
Matar minha mulher! Respondeu. Por uma dessas ironias da vida, não teve
crédito
quando, num arroubo de consciência, falou a verdade. E remediou, escondendo
a falha: “Enquanto a oportunidade não aparece, vou cortando este
salame aqui”. Quando
se muda de casa, normalmente há alguns probleminhas de...colocar móveis
robustos em cômodos não tão robustos nas suas dimensões. É um caso
sério. A minha “diferença” sempre foi um guarda-roupa de marfim,
grande, imenso, destinado a durar 500 anos, pesado e – eis o problema
– ele está acostumado a tomar o maior espaço possível do cômodo! Desta
feita, quando mudamos para Santos, o meu quarto foi a vítima em ter que
abrigar o... dito cujo, de estimação, presente dos sogros. Experimenta
aqui, experimenta ali...aqui não cabe, lá também...não! Pudera!
é..grande como ...um guarda-roupa. Finalmente.
O lugar onde menor dano ao espaço útil ele causaria era encostado à
parede que faz limite entre o quarto e o terraço. Só
que, com ele ali...a porta para o terraço não se fecha por completo.
Ele tem no alto uma borda saliente – ele é todo saliente!! A
porta chega até ali e empaca, a... dez centímetros do batente. por
onde entra um vento violento em dias de tempestade além de um vento
constante, encanado, e cortante, próprio dos andares altos. De
tanto que reclamei e insisti, magnanimamente permitiu-me o doce consorte
que se providenciasse a "poda" do final da borda superior da tão
veneranda e vetusta peça. Ia-se
mutilar esse respeitável e verdadeiro vagão de marfim, mas, entre as
alternativas que apresentei! "ou eu ou ele", o pobre homem
teve que preferir-me, embora eu jamais tenha conseguido avaliar a
sinceridade da escolha. Bem,
assim que ele viajou para o trabalho, resolvi eu mesma – e confesso,
com certo prazer – efetuar a "poda" daquela desafiante e
autoritária peça. Era
apenas uma grande lasca a ser tirada. Só!...
Primeiro,
usei uma faquinha de frutas, com cabo de plástico. A
peça resistiu por completo! Usei
a faca serrada de pão. Consegui
apenas duas tirinhas finas de madeira e nada mais. Empunhei
uma faca um pouco mais possante. E
depois outra. E mais outra, de modo que, assim, fui obrigada a
experimentar todas as facas de casa, incluindo as pensionistas e
aposentadas por tempo de serviço. Mas...
o trabalho não progredia! Voltei
à cozinha e abri a gaveta. Lá
estava ela, possante e poderosa, em completo estado de repouso,
desafiando-me mesmo...! Afinal,
era a.. protegida do meu marido! Entre o ciúme e o despeito,
empunhei-a! Desencapei-a! ...E...visse
leitor, como o trabalho progrediu! Em
menos de uma hora e com apenas duas bolhas na mão, eis que a grande
saliência no chão...jazia, em mil lasquinhas!Finalmente, a porta
fechava-se a contento. E eu, contente, estava livre do vento! Lavei
a faca, direitinho. Sequei-a. Encapei-a. Guardei-a. Meu
doce consorte, por minha sorte, não sabe de nada. Céus...!
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