O
CAVALO METÓDICO
Morava eu em São Carlos,
no bairro Santa Paula. Ali fiz grandes e preciosas amizades, como as fiz em Nova Odessa (alô
Alcides Gonçalves Sobrinho... eu o nomeio meu diplomata a contar do
carinho que tenho por todos aí; em Sumaré, recordo-me, com amor, do
amigos Maluf: a Maíba, a Satute, o falecido irmão...guardo carinho
especial à escola Dom Jayme de Barros Câmara, onde recolhi imenso
patrimônio de sinceridades e inteligências. Em Americana, um preito de
gratidão aos mestres: Delma Conceição Carchedi, Hélio Ítalo
Serafino, Aparecida Paioli e um saudoso abraço a todos os meus colegas;
alguns nomes ainda minha memória se nega a esquecer: Ademar Zério,
Vera e Vécio Alves, Cleuza Duarte, Hélio e Vera Kasack, Orides Rosa
Guerino, June Jones, Clóvis e Cleide Campacci, Edwirges Gobbo, Elvira Bárbara
Marmille, Marilena Fraschetti,, Maria Imaculada Pereira. Em Campinas,
preciso mandar um grande beijo ao Nicolas, filho da amiga Ivone e de célebre
pai advogado e um preito de saudade à Dalva de Oliveira. Com todo esse amor,
diga-me...de quê mais eu preciso...?! De nada! Mas, voltemos a S.Carlos. Eu morava só. Aí é que
mora o problema. Você fica... xeretando...xeretando e...xeretando! A vizinha ao lado, a
co-personagem nesta história, também vivia só. Com dois negros cães
labrador. Passo agora para o tempo
presente, não como se já tivesse acontecido, mas como se estivesse
acontecendo. Eu não gosto dessa
vizinha. Ela também não gosta de mim. Só moramos uma ao lado da
outra. Mulher é uma espécie curiosa e, ao mesmo tempo, estranha. Não
gosta, não interessa mas como vive – sorrateiramente! -
“espiando”... Essa minha vizinha queria
parecer “chique”, refinada...dando uma de granfina! Pernóstica! Eu
nunca a vi – imagine! – com bobis nos cabelos. Desaforada, é isso
que ela é. Não gosto de falar mal de ninguém, mas tenho cá pra mim
que essa vizinha, das 5h30 às 6 da manhã, ela passa em frente ao
espelho... a maquiar-se. Com aquela idade! Ridículo... de batom, sombra
e blush...já bem cedo...Nesta específica manhã, quando se passa a
história, eu só espiei pela minha janela, quando ouvi o ranger do portão
vizinho. E lá ia a “madame”, toda emproada, maquiada e...de vestido
longo...você pensa que talvez ela fosse viajar, não é? Errou. A pernóstica
só ia, como todos os dias, buscar pãezinhos e leite, ali, na padaria
do Cal...a 6 metros de distância! Ao voltar da padaria do Cal, nota ela
algumas folhas caídas na calçada. Logo depois, eis a bruxa com a sua
vassoura e...tchecckk...tcheck..tcheckk, concedeu a pernóstica algumas
elegantes e refinadas vassouradas. Aí algo de novo ocorre:
PO-CO-TÓ...PO-CO-TÓ..PO-CO-TÒ!... eis que um gordo cavalo baio anda
bem no meio da rua, vindo da Miguel Petroni.. Longa corda suja escorria
pelo chão atrás dele, e, sem pensar muito, a nossa pernóstica
maquiada, de longo, toma da ponta da corda a passar por ela. Pára o cavalo, que olha
atrás, sem entender nada. Nesse instante, eu saí,
quietinha...afinal, a vizinha poderia ...estar em perigo e, meio
escondida, acompanho tudo... A dita cuja puxa a corda e leva de volta o
cavalo para a rua Miguel Petroni, onde havia, ainda, duas mãos de direção:
uma , em que carros e caminhões sobem , outra em que carros e caminhões
descem. – Naquele tempo não havia motos ainda, havia? – Cala a boca, Bud! É
uma forma de falar...bem, e não é que a granfina, de longo, faz sinal,
...pára o trânsito e puxa o gordo cavalo para a mão de direção que
desce?! Onde ela pensa que vai...? – E onde maquiada – e
de longo, e o gordo cavalo vão? – Bem, uma vez na mão
que desce, ela foi puxando o cavalo, que obedece, pelo menos nos
primeiros quinze metros. Daí ele passa a insinuar-se para o meio da
rua, de forma que, olhando de trás, onde sorrateiramente eu estava, a
cena é cômica: o cavalo no meio do asfalto, numa ponta da corda suja;
na outra ponta da corda suja, a madame maquiada, de longo. Entre eles
– cavalo e madame – os carros ralentam..freiam e param tudo! Hora de
pico!... e o trânsito impedido na pista que desce! Caramba! – E depois, e depois? – Depois aconteceu o
inesperado: a madame maquiada – de longo – puxa com força a corda
suja, tentando trazer de volta à mão de direção, o cavalo gordo e
baio... O cujo aceita o desafio e agora é ele quem arrasta a dama, na
outra ponta da corda suja. O pessoal motorizado,
entre irritado e divertido, brinca irônico: – Levando o bichinho de
estimação a passear, tia? – Eu não estou levando nenhum bichinho... – Então é o seu
bichinho que a leva!... – Ele NÃO é meu... – Não vai dizer que a
senhora roubou o cavalo!.. – Ora, seu...!! Nessas alturas, o trânsito
libera-se para quem desce. A situação aqui de trás
já é outra: o cavalo baio está na calçada, numa ponta da corda suja;
a dama, maquiada – de longo – no meio exato da rua. Entre os dois, a
corda suja. Trânsito impedido para
quem sobe. Entre insistentes buzinadas e gracejos, a cuja madame é
arrastada para a calçada. O cavalo – metódico
– faz a trajetória toda, para ir...coçar-se nas ripas de madeira
suporte de cartazes, no grande espaço vazio em frente ao Arco Íris. Mão de trânsito que sobe... liberada! – E depois? – Depois de saciar a...
coçação, o baio desce pelo asfalto, na contra-mão, arrastando a dama
maquiada – de longo – até um grande e verde capinzal, onde passa a
saborear a grama fresca – e orgânica ! Nestas alturas, chega uma
emissora de televisão, querendo saber tudo sobre o pitoresco fato. – Como não? Digo eu.
Olha, a pessoa que sabe de tudo é aquela desgrenhada, recém
amanhecida, relaxada, cabeça cheia de bobis, roupão desbotado,
chinelos de dedo.. que vem, sorrateiramente, alí atrás..SÓ ELA pode
ser a dona do baio. Quem mais sairia desse jeito à rua, não é,...se não
tivesse fugido o seu gordo cavalo baio??!! CAVALO
JÁ FAMOSO
Nestes últimos dias,
ocorreu comigo um fato inusitado: muitos e-mails e ligações telefônicas
de conhecidos, desconhecidos, amigos e inimigos, daqui de São Carlos e
região. Pessoal curioso taí! Olha, entre outros, por várias vezes,
ligaram estes. Juro! Eu não minto nunca: O Paulo da florescente Editora
Rima, o gentil Márcio da Casa de Carnes S. Paula, de dois ou três... não
sei de onde... nem me lembro dos nomes; a Vera e a Márcia, da querida,
honesta – gentil com idosos - família Okino...o meu querido Luiz...
Todos ligam perguntando a mesma coisa; o sr. Arnold Schimid, da imobiliária,
a maestrina querida Luba Dodonova, a nossa preceptora espiritual, Maria
Guimarães, plasmadora do bom físico e do bom espírito, à luz dos
milenares princípios da yoga, aí na Cidade Jardim... nunca esquecerei
a voz magnífica do esposo dela, o Francisco da Ufscar...com quem cantei
“O canto do Pajé”.....ó manhã de sol, Anhangá fugiu, Anhangá,
he! hê!!.... – Você é uma neurótica
dispersiva! Continua o assunto, pó! – Concordo, Bud (cá
entre nós, leitor, o Bud foi um interlocutor que eu criei...num dia de
mau humor). A maioria quer saber, por quais cargas d’água, aquela
madame pernóstica, maquiada, de longo, a minha vizinha, de repente, se
pôs... a pegar a ponta da corda suja que escorria pelo asfalto, puxada
pelo cavalo baio. A corda, não a vizinha. Preste atenção. – Espere aí! Há algo
de errado com os seus tempos verbais. Porque lá em cima, usou o verbo
“ocorrer” no passado e logo depois mistura tudo, com o “quer
saber”, no presente? – Bud, imagine esse
pessoal curioso só conseguindo a explicação lá por abril de 2008
,depois de Cristo? Até aquele dia, quando ainda não sabe, continua...
querendo saber. – Bom, mas até aquele
dia o cavalo já morreu! – Será no dia primeiro
de abril....! Satisfeito? – Nem um pouco...
porque a maquiada pernóstica pegou a corda suja ? Qual o pragmatismo
disso? – Aí é o começo
desta... escrita. Também eu fico muito curiosa por uma explicação e
faço algumas... digamos pequenas “investigações”. O então marido
da madame maquiada, de longo, trabalhava numa empresa em zona rural de
Nova Lima, em Minas Gerais. Ali se chegava por uma uma estrada sinuosa,
mão dupla, com deliciosa e densa neblina convencional de inverno. Um verdadeiro perigo! Vai
daí e não é que o esposo amado atropela uma valente e musculosa vaca? O carro – em desgoverno
– desfalecido o motorista, logo cai numa ribanceira, parando ao
atropelar... como se chama... como se chama... – Outra vaca musculosa? – Não! uma árvore!
Figueira da Índia! – Morreu? – A árvore? – O marido! – Calma, Bud. Deixe-me
falar sobre a inocente vaca primeiro. Ela é literalmente esquartejada
(com essa eterna falta de dinheiro!) e, segundo o Boletim de Ocorrência,
“toma rumo ignorado.” O marido, não esquartejado, e bem menos
inocente, acaba com apenas 52 pontos em cada sobrancelha! Não é uma
injustiça?! – Agora sim, eu entendi! A sua vizinha maquiada, traumatizada, agiu impensadamente, ao tentar retirar o cavalo do meio da rua! – Nem por sonho!
Conhecendo-a, posso nomear, no mínimo, quatro outros motivos: na rua
José Duarte de Souza não há ribanceira em nenhum lado; não havia
qualquer densa neblina; o marido nem estava em São Carlos; ela queria
“economizar” o cavalo para uma propícia oportunidade!
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