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O FANTASMA Era
um cemitério meio tétrico aquele. Velhos
muros, velho portão de negra madeira já desbotada. Altos ciprestes...
o mar atrás... uma pequenina cidade do litoral paulista, em que se
alimentavam velhas histórias e estranhas. Nas
noites de tempestade, com raios, relâmpagos, trovões, aquilo tudo era
amedrontador. Às vezes aqui era iluminada uma velha sepultura
carcomida...às vezes era a cruz que parecia ter olhos grandes, boca
desdentada, a fazer caretas desafiadoras... ao relâmpago! Entre sombras
lúgubres, a luz imprecisa e estranhos sons do mar que, estarrecedor
espumava, figuras movimentavam-se, sorrateiras, por, entre os túmulos
de pessoas há muito partidas deste mundo! Tendo
como paisagem esta velha cidadezinha, os habitantes que se conheciam
todos, o cemitério perto do mar...fatos passavam de geração a geração.
Histórias
sussurradas em noites em que o vento curvava fortemente, em silvos e
lamentos, os ciprestes do cemitério...! Uma delas, que me impressionou
muito, foi esta de que até hoje se fala: Numa
noite muito quente, de verão, um casal já de idade revira-se na cama.
O calor os incomoda. Está úmido demais. O ar falta. Lá pelo
meio da madrugada, resolvem sair, andar um pouco..pela praia. De
mãos dadas, como era costume deles, devagar, em silêncio quase,
caminham...uns quinhentos metros... De
repente, ela pára, estarrecida, boca aberta sem sair som...olhos
esbugalhados! Aponta com mão trêmula, um local onde o mar efetua uma
grande curva, avançando pela
praia. Paralisados pelo medo, nem saem do lugar, olhando um imenso vulto branco de três metros que parece
sair das águas naquela
curva ! E caminha em direção
a eles...! havia começado a ventar...a imensa figura de branco foi
chegando...foi chegando, como a flutuar, a cabeça encapuzada e as
vestes longas, até o chão sacudidas de forma fúnebre
pelo vento!! Era...fantasmagórico
! Tremendo demais, o pobre casal viu o
sobrenatural ser perto...bem perto e o silvo dos ciprestes
parecia agora vir daquela criatura sobrenatural. Passa por eles,
parece até que inclina a cabeça, num cumprimento e segue... a caminho
do cemitério. Ali, seguida pelo estarrecido olhar de ambos,
simplesmente...o vulto de branco entra pelo portão do cemitério! Portão
fechado!... O
fato correu veloz de boca em boca e ninguém mais ousou sair, mesmo em
noites de grande calor, a passear!
Ao começar o vento, de longe,
algumas cortinas eram puxadas
e conta-se que foi o vulto branco visto, por várias vezes,
a surgir lá longe, naquela
curva, onde o mar avança mais
na praia... Fiquei
desafiada a compreender aquilo e resolvi desvendar o mistério do enorme
vulto branco, roupas a esvoaçar. O FANTASMA II Há
que se recordar que a sobrenatural criatura, que motivou a publicação
do FANTASMA I, aparecia, com roupas brancas esvoaçantes, vinda
de uma curva do mar, ao longe... assustando a todos naquela cidadezinha
antiga, com estranhas histórias sussurradas em noites de ventania. Ela
“entrava” pelo portão fechado do cemitério tétrico, rodeado por
altos ciprestes que, dobrando-se ao sabor dos ventos fortes, emprestavam sua lamentosa voz a essa aparição ... fantasmagórica, a
vir de longe, rosto encapuzado, seus três metros cobertos de branco, de
cima a baixo! Foi
quando o caso mereceu minha atenção e resolvi fazer
pequenas...investigações. Acabei travando conhecimento com
muito do pessoal do lugar e encontrei exemplares
de gente boa, simples, inteligente, não muito inteligente... a
maioria muito religiosa. O
relacionamento com Deus era
mais para Moisés que para Cristo. Fé
nos santos? Admirável.
Todos eram devotos de algum beatificado. O
estranho é que, ao se tocar no assunto da aparição do enorme e
inexplicável FANTASMA ...cada um logo se benzia, preferindo calar-se,
como se aquele fato representasse um “castigo” à pacata, antiga e
pequena cidade do litoral. Já
um tanto apreensiva, absorvendo os sentimentos cristalizados
ali e por eles influenciada, quase com... medo de...sentir medo
estava. Ora,
vamos lá, seja o que Deus quiser. Deus? Noite
quente. Já pelo meio da madrugada. Visto-me de preto, para mimetização...
carrego uma escada... até o cemitério. Reconheço-me
um tanto trêmula. Encosto-a no muro. Galgo o muro. Recolho a escada e
descemos, as duas, dentro daquele amedrontador local, cheio de
sombras... Começa
a ventar; coloco-me em posição de, escondida, espiar a curva da praia
aonde surgia o paranormal. Espero
e espero...de repente, algo branco lá longe! Roupas
brancas esvoaçantes, cabeça encapuzada... a coisa vem vindo, devagar,
na direção do cemitério! Meu
coração vai aumentando de ritmo,
à medida que a figura – imensa! – branca da cabeça aos pés se
aproxima... Desço
da escada e coloco-me abaixada atrás de um túmulo, de onde podia ver só
a parte de cima do lúgubre portão... Eis
que o FANTASMA chega... e passa o portão! Santo Deus, pensei eu,
atropelada, se essa coisa entrar agora numa cova, amanhã quem entra
noutra serei eu! Só com o olhar, sigo a
enormidade, que pára em frente a um túmulo... A
roupa branca cai, escorrega para o chão, da cabeça aos pés
e...desaparece a coisa, some! Não vejo mais nada. Estou com o coração
na boca!... mas continuo olhando ...ouço barulho de madeiras que se
tocam...será de um ...caixão?! A roupa branca forma um rolo, sobe do
chão e começa a andar...! Passa por mim uma altíssima figura – de
preto – trouxa branca debaixo do braço...ANDANDO sobre aquelas
imensas pernas de madeira, com degrau no meio, para subir ou descer!!!
Com essas enormes pernas de madeira pula
o portão... Aí
tenho uma idéia brilhante: tomo da minha escada, corro bons metros por
dentro, encosto a escada. Passo para o lado da praia... a figura, agora
de tamanho normal, carrega as madeiras no ombro, trouxa na ponta... –
Boa
noite! Falo eu, com voz grave e enrouquecida. Surpresa,
a moça responde: –
Boa
noite! Interessante, a sua é a primeira pessoa que encontro ... não
tem medo, não, de andar... pelo
cemitério na madrugada?! –
Quando
eu era viva Ô, se tinha!! Com
tamanha disparada, logo o mar ensopou o enorme lençol branco. |