GP DA ALEMANHA (Hockenhein)

Rubinho vence na Fórmula 1

Após uma decisão pessoal de alto risco, o brasileiro emociona a todos no “circo” e no Brasil


Os rivais, Hakkinen e Coulthard vibram
com a primeira vitória de Barrichello (AFP) 
 

Carlo Vinícius de Melo Almeida

            Desde o início desta temporada, a Fórmula 1 vem ganhando novamente a emoção que é a alma de qualquer esporte. Até o favoritismo de Michael Schumacher diluiu-se nessas últimas provas e colocou David Coulthard e Mika Hakkinen na briga pelo título. Bate-boca entre pilotos e ultrapassagens arriscadas passaram a fazer parte do cardápio de domingo, a cada 15 dias. Boas lembranças dos velhos tempos...

            Para os brasileiros, em especial, a expectativa era em torno do sucesso de Rubens Barrichello que, muito provavelmente, pela ansiedade de todos, e dele mesmo, fracassou no início do ano para depois ir se estabilizando aos poucos. Porém, as atenções da Ferrari e do mundo eram voltadas para a disputa do título (tão desejado pela equipe italiana) do Mundial de Pilotos que iria para sua fase decisiva após o declínio de Schumacher e a ascensão da dupla Coulthard / Hakkinen. O GP da Alemanha daria rumos mais nítidos a toda essa rivalidade.

            Para o treino de classificação, no sábado, os carros da Ferrari e da McLaren apresentavam várias alterações em aerodinâmica e potência de motor. Tudo pela briga de milésimos de segundo. Mas todas essas mudanças pareciam não afetar a supremacia da McLaren em circuitos velozes. David Coulthard ficou com a pole-position (1m45.697s) e Michael Schumacher, utilizando toda sua perícia, colocou o Ferrari na segunda posição com o tempo de 1m47.063s, quase 2 segundos mais lento que o escocês. Mika Hakkinen (1m47.162s) ficou em quarto. Para Barrichello o treino não poderia ter sido pior: meia volta depois de sair com seu carro dos boxes, o piloto foi obrigado a parar devido a uma pane hidráulica e, como Schumacher estava utilizando o carro reserva (tinha batido no treino pela manhã), teve que esperar até que os mecânicos consertassem o carro do alemão. O reparo levou cerca de meia hora e quando Rubinho saiu novamente a chuva, que tinha começado um pouco antes, atrapalhava sua performance. Por muito pouco o brasileiro ficaria fora da prova (caso não atingisse o limite de tempo de 107% em relação ao pole), nos últimos minutos colocou-se na 18ª posição no grid com o tempo de 1m49.544s. Muito decepcionado, o brasileiro disse que havia passado pelo “pior dia de minha carreira no automobilismo”.


O bicampeão e companheiro Michael Schumacher comemora,
com um abraço, a primeira vitória do brasileiro. (AP)

            Na primeira fila, a maior disputa entre Coulthard e Schumacher seria pela primeira curva (90 graus para a direita). Quem conseguisse contorná-la na frente teria a possibilidade de abrir vantagem rumo à liderança do campeonato. Quando as cinco luzes vermelhas se apagaram, no domingo, Coulthard largou melhor e fechou Schumacher. Para tentar escapar do bloqueio, o alemão fez uma manobra brusca para a esquerda e teve de frear forte para não derrapar na entrada da primeira curva. Ao reduzir excessivamente a velocidade, foi atingido pelo Benetton de Giancarlo Fisichella e jogado contra a barreira de pneus. Fim de prova para o alemão num acidente muito parecido com o que o tirou também na primeira curva do GP da Áustria. Houve um principio de tumulto com Schumacher partindo enfurecido em direção ao carro de Fisichella, mas ele foi contido pelos fiscais de pista.

            Mika Hakkinen, com uma excelente largada, assumiu a liderança e abria vantagem seguido por Coulthard. Rubinho, bem mais atrás, fazia sua corrida de recuperação e, com pouco combustível (iria parar duas vezes), ganhava posições rapidamente. Quando o brasileiro já era o terceiro, porém longe dos McLaren, ocorreu um fato jamais visto na categoria: um homem, aparentemente bêbado, perambulava na lateral da maior reta do circuito, onde os carros atingem mais de 300 Km/h. Desespero dos fiscais que agitavam as bandeiras amarelas enquanto o homem atravessava a pista segundos antes de cinco carros passarem. A direção de prova decidiu pela entrada do Safety-Car na pista para que retirassem o personagem surpresa. Com isso, a diferença entre as McLaren e Barrichello deixou de existir e Rubinho poderia lutar por uma melhor posição.

            Após toda a confusão, o Safety-Car ainda entrou mais uma vez devido a um acidente, começava a chover na reta em frente aos boxes. Alguns carros estavam fazendo seus pit-stops e outros iam aos boxes em busca dos pneus de chuva. Rubens Barrichello assumiu a liderança seguido por Hakkinen, Coulthard e Frentzen. A McLaren chamou Hakkinen para a troca de pneus ao mesmo tempo em que a Ferrari fazia o mesmo com o brasileiro. Hakkinen parou, Rubinho avisou à equipe que iria arriscar com pneus para pista seca já que as maiores retas ainda não estavam molhadas. Coulthard, agora segundo, e Frentzen seguiram a tática do líder da prova. Porém, o escocês quase não conseguia manter o McLaren na pista e decidiu fazer seu pit-stop. Frentzen insistiu e acabou rodando. Somente Rubinho conseguia guiar o Ferrari com extrema habilidade e anulava a instabilidade da pista encharcada em vários trechos. Na última volta, todos os integrantes da Ferrari se espremiam na mureta dos boxes, gesto compartilhado pela equipe McLaren e Jaguar (ex Stewart, onde Barrichello correu e foi praticamente um “pupilo” do ex-campeão Jackie Stewart). Quando o Ferrari número 4 apontou na reta dos boxes, a torcida alemã vibrava, de pé, agitando bandeiras vermelhas, e a bandeira quadriculada consolidou, a primeira vitória de Rubens Barrichello. Festa dos emocionados mecânicos da Ferrari, aplausos da rival McLaren e a homenagem da Jaguar. Barrichello, sem o cinto de segurança, quase saltava dentro do carro vibrando com a torcida em sua primeira “volta da vitória”.


Eufórico e emocionado, Barrichello acena para o mundo
agarrado ao troféu da vitória como se ele ainda pudesse escapar. (AFP)

            No Parque Fechado (local onde os três primeiros pilotos do GP são obrigados a parar), Michael Schumacher aguardava o companheiro para um caloroso abraço. Jean Todt, diretor da Ferrari, muito emocionado, abraçou e beijou o brasileiro várias vezes. E vários integrantes de outras equipes estavam ali aplaudindo sua primeira vitória, demonstrando o carisma de Rubinho no “circo”.

            No pódio a festa era do brasileiro: o hino nacional (que não era ouvido desde a última vitória de Ayrton Senna, em 1993), a guerra de champanhe e a foto com o brasileiro em êxtase erguido nos braços por Mika Hakkinen e David Coulthard. Uma vitória que vem coroar, especialmente para nós, a volta de uma Fórmula 1 com chances de conquistas emocionantes. Como as boas lembranças dos velhos tempos...    



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