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O Povo do Cartaxo
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José Manuel
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| - Quando
é que sentiu necessidade de desafiar os céus ? |
- O meu primeiro
vôo ocorreu em 1976. A única possibilidade na altura era o
Vôo Livre e tive essa oportunidade em Espanha. Depois trouxe a modalidade
para Portugal, e comecei a voar todo o tipo de Asas Delta, com e sem motor.
Mais tarde comecei a dar instrução de vôo no Aero-Clube
de Portugal. |
| - Quais são
as maiores diferenças entre as sensações de voar há
20 anos atrás nas Asas Delta ainda pouco desenvolvidas e hoje nos
ULM sofisticados ? |
- As sensações
são diferentes porque os aparelhos também o são. Depois
de me iniciar no Vôo Livre passei para os Pendulares (Asas Delta
Motorizadas) e Ultraleves. Neste momento sou piloto de aviões, mas
no fundo é tudo voar. |
| - A sua paixão
inclina-se mais para os Ultraleves de linhas aerodinâmicas ou para
os que parecem mais artesanais ? |
- Todas as
pessoas gostam de mudar. Quando vôo muitas vezes no mesmo tipo de
aparelho gosto de mudar para outro. O ideal é termos a possibilidade
de experimentar outros aparelhos de vez em quando. |
| - No seu
caso voar é uma profissão ou continua a ser um "hobby" ? |
- O C.V.A.
funciona profissionalmente, mas para mim é um "hobby" porque gosto
muito do que faço. Não tenho outra actividade profissional,
e estou aqui durante todo o dia. |
| - O que é
possível desfrutar no C.V.A ? |
- Para além
da instrução temos hangaragem e reabastecimento, isto é,
guardamos Ultraleves ou Aviões, e reabastecemos os que passam por
aqui em viagem. Também mantemos aberto o restaurante todo o dia
para refeições rápidas ou almoço. |
| - Quando
é que surgiu a idéia de construir este espaço ? |
- É
um sonho antigo o de construir um campo de aviação, mas que
só se concretizou quando consegui o dinheiro para dar início
às obras. O Campo está a funcionar desde Junho de 1992. Inicialmente
só tínhamos capacidade para guardar 15 aparelhos, hoje podemos
cerca de 45 com os novos hangares. |
| - Existem
muitas escolas desse tipo em Portugal ? |
- Neste momento
há muitos instrutores de vôo, mas normalmente sem estarem
legalizados. O nosso campo de vôo está absolutamente legal.
Aliás foi o primeiro a ser homologado pela Direcção
Geral de Aviação Civil. |
| - Porquê
construir este campo na Azambuja ? |
- Nasci na
Azambuja, e aqui tenho muitas raízes. Outra das razões é
que há já muitos anos sobrevôo esta lezíria
e é um local óptimo para dar instrução. |
| - O seu maior
sonho já foi realizado com a construção deste Campo,
mas o sonho está completo ? |
- O espaço
que tenho não me permite sonhar mais do que aquilo que já
está feito. No entanto pretendo tornar o local mais aprazível.
Para os próximos anos tenho prevista a construção
de uma piscina e a criação de espaços verdes para
que as pessoas se sintam bem aqui. E não estou a falar para os pilotos,
pois esses estão ocupados a voar, refiro-me às esposas, filhos,
namoradas e amigos em geral que os acompanham, e que têm de ficar
sem nada que fazer enquanto esperam. |
| - Qual o
investimento já realizado ? |
- Com a conclusão
da construção dos hangares e bomba de gasolina totaliza mais
de 40 mil Contos. |
| - Recebeu
algum apoio ou usufruiu de algum atractivo do Município para aqui
construir o Campo ? |
- Tenho tido
algum apoio da Autarquia, que normalmente me cede máquinas para
terraplanagem , e para alisar a pista. Como é evidente os apoios
são sempre poucos, no entanto estou satisfeito e gostaria que a
autarquia continuasse a colaborar conosco. |
| - Existe
algum Clube ou Associação de Vôo que mantenha relações
com o Campo ? |
- Somos sócios
da Associação de Pilotos de Ultraleves. Funciona em Lisboa,
e tem como funções divulgar a modalidade, organizar confraternizações,
promover encontros, e tratar de legalizações e aspectos burocráticos
com a Direcção Geral de Aviação Civil. |
| - Até
que idade pretende voar ? |
- Enquanto
tiver saúde para isso, pois penso que a idade não é
muito importante nesse caso. Tivemos recentemente um aluno com 70 anos
com óptimo aproveitamento, e aterragens perfeitas. |
| - Este é
um desporto apenas para ricos ? |
- Não
diria para ricos, mas para quem tem dinheiro. Porque o preço dos
ULM é dispendioso quer na manutenção, quer na gasolina.
No resto da Europa e nos E.U.A. é um desporto para todos. |
| - De onde
provêm os ULM ? |
- Fundamentalmente,
da Alemanha, E.U.A, França, e Itália. Portugal é um
dos poucos países onde não se fabricam ULM. |
| - Este não
poderia ser outro sonho a realizar, fundar uma indústria deste tipo
em Portugal, mais exatamente aqui no Ribatejo ? |
- Poderia
se não fosse a burocracia e os entraves da DGAC. Tenho certeza que
se eu apresentasse agora os documentos para homologar um Ultraleve, só
dentro de 200 anos ele estaria legalizado. |
| - Essa é
uma crítica à burocracia do nosso País ? |
- Efetivamente
a DGAC só levanta problemas. Recordo muito bem todas as demoras
que enfrento cada vez que pretendo matricular um Ultraleve. O que não
acontece no resto da Europa, onde o processo é muito fácil. |
| - Como precursor
do vôo livre em Portugal, participou ao longo destes anos de inúmeros
campeonatos. Que títulos conseguiu arrecadar ? |
- Hoje em
dia já não participo porque não tenho disponibilidade,
mas conquistei alguns primeiros prêmios. Normalmente as competições
com aparelhos motorizados resumem-se a realização de voltas
nos respectivos países, caso dos Espanhóis e Franceses. Esse
ano terá lugar a Volta Ibérica, mas os Portugueses nunca
realizaram nenhum campeonato a nível nacional. |
| - Ao longo
desses anos todos a voar, alguma vez se defrontou com algum perigo ? |
- Já
tive algumas paragens de motor, mas nunca estive em situação
de perigo já que aterrei sempre em segurança. Essa região
é toda de planícies e em caso de problemas pode aterrar-se
em quase todo lado. |
| - Quer dizer
que voar de Ultraleve não é um desporto perigoso ? |
- Se eu pensasse
que o é, não seria capaz de praticá-lo. |