Foi a partir de uma frase, daqueles bate-papos de discussão de música na internet, feita por um jovem fã de música inglesa e que freqüenta locais de rock , "alternativos" como eu , que resolvi "parar tudo" e escrever esse texto. Após, assistir um show do Suede, essa pessoa fez o seguinte comentário: "Brett Anderson é bem agressivo , mas às vezes dá um de Ney Matogrosso". Esse tom pejorativo quanto ao Ney mostra total desinformação e memória dessa camada de jovens , surpreendentemente , de ótimo nível social e aparentemente cultural. Pior que isso, um comentário arrogante e provinciano, de pessoas que ficam "babando ovo" para tudo que vem de fora.
Ney de Souza Pereira, filho de militar, estudou teatro e artes plásticas nos anos 60 e veio , preparadíssimo, para estourar nos anos 70 com um grupo completamente fora do ninho da careta MPB e do rock que engatinhava no país.
Usando máscaras andróginas , introduzindo no Brasil o glam/glitter rock com um visual e trejeitos bem mais agressivos que Bowie , Marc Bolan e cia , os Secos e Molhados lotavam ginásios e rivalizavam vendas de discos de Roberto Carlos.
A banda era formada por Gerson Conrad e pelo poeta português João Ricardo, mas era Ney , com uma das vozes mais limpas , bonitas, agudas e andróginas da MPB, que chamava a atenção do grupo toda para si. Isso , sem falar dos trejeitos de bicho, das penas, das tangas, da total exposição do corpo por conta de suas raízes índias e latino-americanas que começavam a aflorar.
Os Secos e Molhados ficaram um pouco mais de um ano com essa formação (73-74) e Ney iniciou sua carreira solo em 1975 com o mesmo vigor, ousadia musical e teatral .Sempre foi uma bomba no comportamento social e sexual brasileiro. Nunca um gay tenha seduzido tanto meninos e meninas com tanta volúpia , sem se importarem com o sexo "do anjo" (no caso, ele próprio).
Ney Matogrosso é uma personalidade atemporal, foi pioneiro e até hoje não pareceu alguém que pudesse manter o mesmo espírito artístico. Ficou um tempo mais calminho, mas esse ano lançou "Olhos de farol", voltando às suas raízes pop-rock.. Está excursionando com o show homônimo, inclusive abrindo com "Mulher Barriguda" entre outros hits dos Secos e Molhados como "O Vira", "Rosa de Hiroshima" e "Sangue Latino". Ney é ainda um artista completo: além de dirigir, faz suas roupas, cenários e iluminação dos espetáculos.
Sei que Brett Anderson, que fora influenciado por contemporâneos do Ney, não tem culpa de nada, a intenção artística dos dois não é a mesma. Eles moram em países , culturas, climas, tipo de vida , influências diferentes, mas é irritante ouvir nossos caipiras brit-bobos mascararem suas ignorâncias quanto a nossa cultura local , desqualificando nossos artistas, como o que vêm de fora fosse padrão de qualidade mundial.
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