Bowie, o gênio do século, volta à Terra novamente
Depois de transitar pelas mais diferentes épocas e estilos musicais, David Bowie voltou à ativa. 'hours...' (assim mesmo, em minúsculas, com aspas e reticências) é o mais novo trabalho do, podemos assim dizer, gênio do século, David Bowie. Gênio por ser oportunista o bastante a ponto de pegar algo - chato, diga-se de passagem - já andando e transformar isso em algo genial. Foi assim com o tal Glam Rock (1972/73), com a sua animada e junkie Soul Music, em 1975, em seu exagero estético New Romantic de 1980, o funk Let's Dance de 1983 e mais recentemente, seus elementos futurísticos de Earthling, 1997.
No entanto, seu novo trabalho não absorve nada de novo e atual, pelo contrário, é uma reflexiva reviravolta ao longo de sua carreira e seus personagens. Talvez, o mais próximo paralelo de 'hours...' seja uma mistura de seu bilhante "Hunky Dory", de 1971, com o não menos brilhante "Scary Monster", de 1980. As batidas jungle que compuseram praticamente todo o seu álbum anterior parecem que foram substituídas por guitarras doces, melodias agradáveis e melancólicas, fazendo de 'hours...' o mais belo trabalho de Bowie desde seus tempos de Major Tom, em Scary Monster.
O álbum começa com a singela "Thursday's Child", onde logo de cara Bowie começa sua reflexão("Talvez eu tenha nascido fora da minha época"). O refrão e os backing vocals fazem dessa canção algo "so sweet", uma grande balada não sendo a toa que é o primeiro single e clip. "Something In The Air" é pop, com riffs longos de guitarras e refrão choramingado. O sintetizador na voz em algumas partes são os momentos especiais da música. Os violões folk começam a aparecer em "Survive", e o refrão diz mais("eu irei sobreviver"). Será? Talvez. "If I Dreaming My Life" tenta responder que sim, mas é a próxima faixa que realmente responde. "Seven" é, indiscutivelmente, a mais bela faixa de 'hours...'. De violão forte, com um cello de fundo, uma ótima melodia e um vozeirão perfeito, podemos ver realmente que Bowie está vivo, e muito vivo! Aqui, Hunky Dory é passado a limpo, revivendo pérolas como "Quicksand" e "Song For Bob Dylan". A voz não é a mesma, claro. Aquela agudez presente em "Life On Mars?" não mais existe, mas isso não tira o brilho da voz de Bowie em "Seven", e em todo 'hours...'.
Viramos de lado, começamos com "What's Really Happening?". Um boa faixa, com gritos de fundo no refrão e uma letra que Bowie no ano passado precisou de ajuda para terminar. A próxima música, "The Pretty Things Are Going To Hell" é a mais fraca do álbum. Aqui Bowie e Reeves Gabriels, seu eterno companheiro desde o ínicio desta década, tentam sem sucesso melhorar os vagabundos trabalhos do Tim Machine, banda na qual os dois fizeram parte no fim dos 80's. Em "New Angels Of Promise", a qualidade melhora, aqui lembramos Scary Monters, com vocais um pouco agudos e pegadas como de "Scream Like a Baby", de 80. O frio psicológico vem a tona em "Brilliant Adventure", fazendo nos lembrar o lado B dos belos Low/Heroes, do Bowie na época berlinense. Aqui, se fecharmos os olhos, veremos a imagem da guria Christiane F. com suas sujas seringas, no filme homônimo, de 81. Down! "The Dreamers" é a faixa que fecha esse belo álbum. Grande canção, com refrão que faz você refletir sua própria vida.
'hours...' não está à mesma altura de obras como "Hunky Dory", de 1971, afinal esse tipo de pérola só apareçe uma vez por século, mas 'hours...' é uma boa sugestão para fãs de rock/pop em geral, e uma obrigação para fãs de Bowie em geral. Estamos à alguns dias da virada do século e em 'hours...' Bowie realmente o fechou com chave de ouro, provou que irá sobreviver muito ainda e mostrou porque foi o gênio dessa era. Vamos aguardar a nova era.
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