Em primeiro lugar, quero levantar uma observação imprescindível em relação ao curta. Qualquer atuação na direção do filme deverá respeitar, antes de mais nada, o roteiro e as propostas do mesmo. O filme consiste em uma trama bem amarrada, dotada de artifícios e símbolos, compondo um universo mágico e fabulístico. Para tanto, devo considerar todas as características que favorecerão a realização do mesmo.
Primeiro quanto à locação. Por ter a intenção de ser atemporal e único, foi pensado em uma cidade fictícia, algum vilarejo escondido, que não determinasse época ou sua localização. Por isso a escolha de Joaquim Egídio, cidade pequena do interior de São Paulo, onde existe uma rua principal de paralelepípedos, que abrange pequenas casas coloridas, com suas janelas que dão para a rua. São casas com arquitetura neo-colonial, reconstituídas, cada uma de uma cor. A diversidade e harmonia das cores é importante, pois além de reforçar o clima de contos de fada, simboliza a própria alegria, pureza e harmonia em que vive seus habitantes. A intenção é usufruir-se das cores e dos planos para valorizar a cidade e torná-la mais charmosa. Os habitantes devem compor com a cidade um quadro único, onde as cores conversam e a luz é fundamental.
Tudo chama atenção para o lado romântico, rústico e artesanal. A própria construção da cidade, os modelos de sapatos, o comportamento de seus habitantes e seus respectivos figurinos. Homens com suspensórios e camisas; mulheres com vestidos longos e curtos, capas coloridas e chapéus. A idéia é compor o figurino com as paredes das casas coloridas, utilizando como referência o filme “Guarda-chuvas de amor”, de Demy. Assim, quando a câmera está passeando pela cidade, vamos atribuir as cores de cada casa aos figurinos dos transeuntes. Inclusive na cena dos guarda-chuvas, onde os habitantes irão abri-los, cada um de uma cor em composição com seu figurino.
Os habitantes devem se movimentar em coreografia ao som do violino de Murilo. Assim, quando a cidade está vazia e os primeiros acordes são tocados, seus habitantes vão saindo pelas ruas e se cumprimentando, enquanto jovens conversam na praça e vendinhas são abertas. Existirão crianças travessas, risos escondidos e outras peripécias, que darão vida ao vilarejo. Temos como referência de comportamento da cidade o belíssimo universo criado por Jacques Tati no vilarejo onde mora Monsieur Huillot, no filme “Meu Tio”. No caso do curta, tudo funciona como um grande balé regido pela música de Murilo, combustível da cidade.
Aliás, Murilo é o regente da obra, quase um Corifeu das tragédias gregas que conta a história com sua música. Por ser um personagem quase mítico, ele não é necessariamente notado pelos habitantes da cidade. Mas é onipresente. Ele toca e a cidade corresponde. Algo acontece e ele responde com suas cordas. Personagem crucial para o curta-metragem, deve trabalhar sua expressividade, sendo capaz de transmitir seu carisma através do instrumento que toca.
A loja de sapatos não é uma loja convencional. Mais que uma loja, ela é extensão da vida do vendedor. Lá, como um alquimista que elabora fórmulas químicas, ele cria os sapatos para aqueles que ele observa de sua vitrine. Funciona como uma oficina aconchegante aberta para quem quiser entrar. O vendedor deve ser jovem, ter um ar lúdico e carregar um sotaque estrangeiro sutil, o que o tornará gracioso. Em determinados momentos, ele dirige-se à câmera, a fim de manter uma proximidade com o espectador. Já Helena, doce e delicada, sempre é contemplada pela câmera, como se esta a buscasse em toda sua ação. Deve ter uma postura que se destaca no meio da multidão e um andar leve. A relação entre os dois é ditada pelos planos da câmera. Toda vez que ele a encontra, utilizamos o travelling in para quase mergulhar em seus olhos. Quando ela aparece, utilizamos o slow para dar maior leveza aos seus movimentos.
A movimentação da câmera também tem caráter importante. Na maioria dos planos, a câmera desliza em travellings, como se dançasse, acompanhando a movimentação dos personagens e a própria música de Murilo. Com uma decupagem minimamente detalhada, cada seqüência comporta muitos planos e, buscando uma atmosfera fabulística, diversifica bastante quanto aos enquadramentos.
O diferencial do filme é o tratamento dos sapatos como personagens principais. Por sempre estarem presentes nas cenas e manterem uma relação muito próxima com o vendedor, optou-se por elaborar quadros com a subjetiva dos sapatos, quando outros personagens referem-se a eles. Com a personificação dos sapatos e exprimindo seus respectivos pontos de vista, o curta realça a fábula que está sendo contada.
É muito importante que os personagens comportem-se de maneira diferente ao modo de falar usual quando conversam ou se expressam no decorrer da trama. No filme, busca-se um vilarejo que além das cores, disposição e narrativa singular, tenha um ritmo de fala característico. Algo que, dentro na narrativa do curta e com a expressividade dos atores, torne-se natural para os olhos e ouvidos do espectador.
Enfim, confio na direção de arte e fotografia para criar o clima fantasioso que se espera. Um universo mágico de anilina, onde os sapatos servirão como metáfora das relações humanas contemporâneas e as cores servirão de contraponto ao universo monocromático de hoje em dia. E confio no trabalho dos atores para a construção dos respectivos personagens e para criação de uma comunidade que espelha tal universo.