IMPAR PAR
Justificativa
Com a proposta de contar uma história plurisignificante que atingisse qualquer tipo de espectador, o curta-metragem explora seu encanto com um ar romântico e fabulístico. Com base nos contos de fada europeus e adicionando uma pitada de brasilidade, o enredo conta com diversos artifícios mágicos que leva nosso herói a encontrar a mocinha. É claro que ele passará por diversos obstáculos antes de encontrá-la, mas existirão pistas que a levarão até ele. No encontro final, algo inesperado que acontece prepara o espectador para uma reviravolta catártica, sugerindo o rumo da história e concluindo a moral do enredo em questão. A música do violino tocada pelo nosso cupido terreno dá o tom certo para a trama e nos faz embarcar num universo de magia e cores, repleto de música e movimento.
Para compor o ideal fabuloso, pensamos num lugar que não determinasse época e nem indicasse sua localização. Afinal, trata-se de uma história atemporal e universal, que tem como objetivo expressar sua moral através de seus simbolismos. Por isso ambientar o vilarejo em uma pequena cidade fictícia, onde ninguém imaginou que existisse e fosse longe e diferente dos aglomerados urbanos. A escolha foi a cidade de Joaquim Egídio, no interior de São Paulo, basicamente concentrada na rua principal de paralelepípedos, que abriga casas coloridas e arquitetura neocolonial. As cores das casas refletem a graça de seus habitantes que, com suas vestes igualmente coloridas, compõem harmonicamente o universo visual, colaborando com o clima de faz-de-conta.
Para isso temos o vendedor, personagem que pretende preencher o vazio de cada cliente propondo o sapato que seria ideal para cada um. Passa os dias observando as pessoas de sua vitrine, como se esta fosse uma janela para o mundo. Como um alquimista que elabora uma fórmula específica e pessoal, ele cria o sapato perfeito para o cliente, suprindo seu desejo de ser completado por um par. Os sapatos servem como metáfora das relações humanas contemporâneas. Dentro da magia da trama, cada um tem um par esperando para calçá-lo, mesmo que este ainda precise de ajustes ou de um certo tempo para se tornar confortável. Fala da dificuldade de vínculo afetivo entre as pessoas e a repressão de sentimentos que nos impede de concretizar relações. Nos mostra o quanto uma relação profunda e concreta está além da efemeridade das relações superficiais e relações mal resolvidas. Embora otimista, o curta busca transmitir a idéia de que o par ideal pode encaixar perfeitamente nos seus pés, porém não chega a ser eterno se não for bem cuidado.
O curta propõe uma brincadeira relacionando o “par” de sapato com o “par” amoroso. Na verdade, os pares se comportam de diversos modos de acordo com a pessoa. Existem aqueles que, de cara, já servem como uma luva, depois se desgastam facilmente. Ou aqueles que apertam um pouco a princípio, mas logo se tornam confortáveis. É como o par de sapatinhos de cristal de Cinderela, fábula com a qual o curta conversa. É lindo, pequeno e perfeito... mas totalmente propício a trincar e se desintegrar pela fragilidade de sua composição. No curta, o vendedor propõe à Helena justamente o contrário: sapatos que reluzem enquanto à beleza e são resistentes ao tempo. Não tem saltos, uma vez que eles só dificultariam o andar naquela rua de paralelepípedos do vilarejo. Tudo isso nos remete a relação que o vendedor quer construir com Helena: forte, estável e segura. Por isso quer lhe entregar o par de sapatos. Estes simbolizam, de maneira sutil, a entrega de seu coração, o próprio vendedor se oferecendo para ser seu par.
Ele passa toda história querendo descobrir o quanto ela calça, pois ele já conhece o par perfeito para ela e pensa que tem todos os números. Mas se surpreende ao descobrir que seu número é trinta e três, que ele não dispõe na sua loja. Sem dúvida um número atípico para o modelo adulto feminino, assim como Helena é uma pessoa única e especial. Cabe ao vendedor ajustar o par trinta e quatro da maneira como pode para torná-lo confortável para Helena. Exemplificando, é como nós nos abstermos de certas coisas para conseguir outras, ou seja, moldarmos nossa personalidade a fim de se ajustar à personalidade do outro. Nem toda relação é perfeita, nem toda personalidade é compatível com a do próximo – como o par trinta e quatro que ele tinha em mãos, que não poderia se encaixar nos pés de Helena. Foram necessários ajustes para ser compatível e começar uma relação.
Já, Helena, tem medo de mudanças. Sempre passa na vitrine, curiosa com os novos pares que ela tem a oferecer. Mas nunca entra de fato. Falta-lhe coragem, ousadia. Tudo vai sugerindo que ela deve aceitar os novos sapatos. São encantadores, o vendedor é doce e tem boas intenções. Mas ela resiste até o final. No próprio diálogo, ela dá inúmeras desculpas para não aceitar o vendedor como par. Mas precisou que lhe quebrassem o salto - uma intervenção mais forte, mítica -, para que ela entendesse que o melhor para ela era voltar à loja. O curta enfatiza que todos nós aprendemos com vivência. E o mais experiente é o vendedor de sapatos. Ele sabe o que está propondo para Helena. Quando ela não aceita, sente-se balançado. Será que ele estaria certo? Mas no final estava. Por isso que a história acredita no amor e na perseverança. Diversos foram os obstáculos que o vendedor passou para saber o quanto Helena calçava, mas ele não desistiu. Fala também do modo especial de tratar as coisas. Ele bem que podia simplesmente chegar para ela e perguntar o quanto ela calçava. Mas então acabaria com o encanto, a surpresa, aquilo que nos faz apreciar a vida. Com uma relação é a mesma coisa. A poesia é essencial. Ela que dá a graça, ela é a fórmula mágica para um bom relacionamento.
Com os pares dos outros clientes, trata-se da mesma coisa. O senhor quer comprar sapatos novos, alegando que os deles estão rangendo e provocam calos. O vendedor aponta que provavelmente eles estão assim por causa do próprio andar do senhor. Surgem indagações: que mal você tem feito ao seu par? Por que eles rangem, ou melhor, reclamam? Por onde você tem andado, o que tem feito de mal para ele? O vendedor ainda propõe um conserto. Mas tome cuidado, ele avisa. O senhor sai de meias, resmungando. Agora ele vai sofrer nos pés aquilo o que tem feito ao seu par.
Assim como ele, existe dona Mara, que é um reflexo das pessoas que não se preocupam com nenhum vínculo amoroso, vive com diferentes pares e os troca toda hora por qualquer um. Gostam de exibir-se e se escondem atrás de maquiagens que nos impedem de ver os sentimentos reais. É por isso que ela mente quanto ao número de seu sapato. Vive de imagem.
Murilo, por sua vez, sobrevive de música. Não usa sapatos, é livre. A intenção foi justamente relacionar o jovem com liberdade, criador de seu próprio rumo, repleto de música na vida. O próprio vendedor não se sentiu no direito de calçá-lo. Por que o faria? Tão belo, cheio de vida, pulando descalço pelas pedras, resistindo a dor e ao mesmo tempo protegido naturalmente das coisas externas. E sua música? Esta sim, atua como combustível para os demais da cidade. É a vontade de viver e disposição do jovem que fazem as pessoas saírem de suas casas, enfrentar mais um dia, viver de emoções, se aventurar. O jovem incentiva os demais com sua música e ritmo de vida, propondo para todos da vila dançar conforme a canção.
A seqüência do cotidiano é a que mais permite ao espectador inúmeras leituras. O vendedor narra a vida das pessoas em geral. Elas olham sempre pela vitrine. Nunca se atiram de cara. Esperam ter certeza para depois, quem sabe outro dia, voltar e entrar na loja e pedir por um par. É a barreira que se estende entre os humanos e os impede de relacionarem-se naturalmente. Depois ao entrarem, não sabem o que querem, precisam de uma consulta amiga ou alguém disposto a lhes darem um “empurrãozinho” – no caso, o vendedor. Então se atiram de vez, se encantam, ficam cegos e apaixonados. Acabam deixando para trás seus velhos pares, já não se interessam mais por eles. Quem sabe eles voltarão para buscá-los? Difícil. Mais fácil eles procurarem por outros novos.
Quanto ao título, além de chamar a atenção em relação à sonoridade – no título, a palavra par ecoa da palavra ímpar -, brinca com a idéia do que é ímpar e do que é par. No caso, alguém ímpar como o vendedor só poderia se unir com outro alguém ímpar como Helena. A soma dos dois é um par. Qualquer ímpar que se adiciona a outro, torna-se um par. E os dois juntos – Helena e o vendedor – formam um belíssimo par ímpar, único. Além do óbvio, que retrata os números pares e ímpares dos calçados.
Impar Par. Despretensioso, o curta visa, através da sua poesia, exaltar o lirismo e a beleza das pequenas coisas. Vai contra a maré de histórias que atuam como protestos sociais ou políticos e até mesmo daquelas que prezam a estética do grotesco e perverso, que acabam por transbordar violência física e psíquica. Com o foco principal no ser humano, seus desejos e emoções, o curta se aprofunda nas relações humanas e, de modo encantador, busca um sorriso de identificação na alma do espectador mais amargo.