A fotografia do curta-metragem ¨Impar Par¨ possui a função de dar um clima fantástico à história. A locação que abriga casas coloridas e a própria loja de sapatos abrem espaço para a liberdade criativa no âmbito fotográfico que visa favorecer clima lúdico. Para isso, a fotografia vai utilizar diversos recursos, como movimentos de câmera deslizantes, belos enquadramentos, utilização da câmera lenta, passagem de foco e uma iluminação impecável e densa.
Os enquadramentos ímpares
trabalharão diretamente com a luz do sol, valorizando a arquitetura do local
assim como fazia Edward Hopper em seus quadros, que retratavam o interior dos
Estados Unidos. Banhados pela luz do sol que derrama as cores sobre as telas,
os quadros de Hopper transformavam uma simples esquina ou um interior de uma
loja em algo realmente fantástico, com vida. Seguindo essa referência, a
intenção é que a cidade seja explorada pelos raios solares diante das fachadas
vermelhas, amarelas e azuis, formando sombras bem delineadas nos habitantes que
transitam pela rua. A loja em si, com janelas amplas, terá como principal fonte
a luz externa. A arquitetura receptiva vai permitir que essa fonte de luz
invada a loja e permita banhar os móveis, personagens, com atenção especial nos
sapatos que estão no mostruário. Á noite, durante as cenas em que a loja está
fechada e o vendedor arruma os sapatos de Helena, alguns pontos de luz
iluminarão a loja, buscando um clima de penumbra.
A movimentação e
enquadramentos terão participação crucial no filme. Quando a cidade acorda,
vemos planos gerais, revelando a rua principal como um todo. Para cada
peripécia do vendedor ou qualquer outra situação, os planos visam brincar com a
realidade do ponto de vista da ação. Assim acontece com os sapatos que, no
filme, são tratados como personagens. Exploraremos a subjetiva dos sapatos
enquanto a ação se desenrola, a fim de integrá-los como observadores pacientes
da cena em questão. A tranqüilidade da movimentação de câmera que acompanha os
acordes de Murilo se contrapõe com o travelling in frenético quando uma
situação inesperada acontece. Alguns enquadramentos que serviram de referência
para o curta estão no filme ¨Amelie Poulain¨, onde são explorados super closes
e detalhes para enfatizar a dramaticidade do enredo. A movimentação de câmera e
planos inusitados definirão, junto com a coreografia dos personagens, o ritmo
da trama e deixarão o curta fluir poeticamente.
A fotografia trabalhará juntamente com a direção de arte para criar um mundo mágico, quase artificial, nada realista, de modo a construir um universo impresso na película, de caráter fantasioso diferente do mundo monocromático em que vivemos hoje.