Um vendedor de sapatos fissurado por pés. É assim que o protagonista desta história aparece na trama; romântico inveterado, ele acredita no amor e cultiva a relação e a comunicação entre as pessoas favorecendo o amadurecimento e as pequenas transformações internas de cada um dos personagens.
A estética do filme será desenvolvida justamente com o objetivo de evidenciar os aspectos típicos desse homem, tornando acessíveis aos olhos do espectador parte do mundo em que o “vendedor” cheio de habilidades habita.
A loja de sapatos é o ponto de encontro de todos os personagens, portanto, o local onde as características visuais estarão explícitas. A proposta é tornar a loja um lugar acolhedor, para que todas as pessoas que passem pela vitrine sintam-se instigadas a entrar e as que estão dentro sintam-se bem vindas e à vontade enquanto são “analisadas” pelo vendedor.
O estabelecimento no qual a trama transcorre, irá representar uma extensão da casa do personagem principal, fazendo com que ele domine e sinta-se completamente seguro em seu território.
No interior da loja prevalecerá sempre uma atmosfera aconchegante e arrojada, romântica e sutil do ambiente. Os materiais melhor apropriados para transmitir tais sensações do lugar são: madeira, tecidos pouco brilhantes, cores quentes, papéis de parede padronizados, flores, alguns objetos kitsch, como a maçaneta da porta ser um sapato.
Em seu exterior, teremos a vitrine apresentando tipos variados de sapatos, peças exóticas que atrairão a atenção de quem transita pela pequena ruazinha de paralelepípedos. Um toldo simples de linhas retas e cores cruas pode auxiliar a destacar a lojinha das demais casas ao redor, coloridas e construídas a partir da arquitetura neocolonial situadas em Joaquim Egídio.
O interior e o exterior desse ambiente caracterizam-se por ser uma única e específica locação, não existindo assim problemas com a descontinuidade das tomadas. A mesma, sofrerá inúmeras alterações visuais com a intenção de encher os olhos do espectador que encontrará diversas referências estéticas retratadas frame a frame.
A história não define uma época específica, fato que possibilitará a arte, explorar objetos e conceitos de períodos diferentes e marcantes da história. Poderão ser adotados alguns fundamentos do impressionismo, como por exemplo, representar sombras luminosas e coloridas ao invés de sombras pretas, contrastadas e chapadas. Os contrastes de luz e sombra podem ser obtidos de acordo com a lei das cores complementares. Assim, um amarelo próximo a um violeta produz uma impressão de luz e de sombra muito mais real do que o claro-escuro, tão valorizado pelos pintores barrocos. As cores e tonalidades não devem ser obtidas pela mistura das tintas na paleta, pelo contrário, devem ser puras e dissociadas.
Princípios do surrealismo também estarão representados, explorando as questões relacionadas aos temas fornecidos pelo inconsciente e subconsciente : o acaso, a loucura, os sonhos, as alucinações, o delírio e o humor.
A base da paleta de cores, será composta de cores quentes, primárias afim de remeter a idéia de ambiente onírico, surreal, numa viagem ao imaginário. Paradoxalmente a este conceito, podemos dizer que o ambiente apresenta uma certa aparência rústica, preservando algumas características naturais da locação, como a parede de tijolinhos à vista, tábuas de madeira anexas ao teto com pé direito alto, escada e corrimão feitos de madeira com tons próximos ao betume.
Existem algumas referências bastante interessantes no filme “Chocolate”, em que a protagonista também desvenda os mistérios de habitantes de uma vila européia. Os mesmos, aparentemente frios e inflexíveis deixam-se levar pela maneira carinhosa como a personagem os recepciona, fazendo com que sintam-se acolhidos e revelem traços mais doces de suas personalidades, após provarem suas maravilhosas receitas personalizadas, regadas com as mais diversificadas variações do cacau.
Outra referência, é o filme “O Fabuloso Destino de Amèlie Poulin” que narra a história de uma jovem romântica e sonhadora e o seu dia-a-dia. Sensível, ela se preocupa com a vida daqueles que estão à sua volta. O filme consegue tratar cada um de seus personagens com profundidade, mostrando o que há de melhor em cada um deles. Amèlie relaciona-se com muitas pessoas em seu dia, da mesma maneira que o vendedor de sapatos de “Impar Par”: Helena, a mulher por quem ele se apaixona, jovem, delicada, simpática e reservada que disfarça sua fragilidade e vive em busca de algo que ela mesma desconhece. As sandálias frágeis de salto revelam essa insegurança que ela procura esconder. O figurino de Helena tenderá para o estilo romântico e bastante feminino. As cores predominantes serão rosa, roxo e lilás e a mesma abusará do uso de saias, vestidos e cachecóis. Detalhes como aplicações de renda e estampas de algumas peças ajudarão na caracterização.
Murilo, o garoto que toca violino e embala as histórias que observa. Vive descalço, transmitindo ao espectador uma sensação de liberdade e expressão puras, sem censura do que presencia. O figurino refletirá esse descompromisso com regras e padrões. O menino estará com as barras da calça enroladas, camisa de manga curta clara e chapéus divertidos e que darão um colorido especial ao personagem.
O senhor, que aparece na história procurando por novos sapatos, traçando um paralelo com a sua própria vida, expõe a sua curiosidade de experimentar coisas novas, usará suspensórios, camisa e calças escuras. Seus sapatos antigos serão fechados e bastante tradicionais e ao contrário do que o espectador prevê, ele surpreenderá a todos saindo descalço da loja, fato que permitirá maior liberdade dos movimentos dos pés e representarão a quebra de antigos padrões.
Dona Mara, que diferentemente do senhor, troca os seus sapatos semanalmente, não se apegando muito aos inúmeros pares que possui, utilizará bastante o vermelho, o preto e o verde. Suas roupas serão extravagantes e exageradas e os sapatos sempre de salto com cores fortes e chamativas.
A Jovem ingênua e delicada procura uma solução para os seus singelos sapatos “boneca”, o vendedor lhe oferece sapatos mais ousados coerentes com a fase da vida que a personagem atravessa, de plenas transformações. A menina encanta-se com essa possibilidade e descobre outras maneiras de explorar seu potencial.
Dessa maneira, a loja funciona como uma espécie de divã, em que todos os personagens podem expor suas necessidades e dúvidas, pois sabem que sairão de lá com uma resposta para seus “questionamentos” e insatisfações deixando para trás as suas incertezas. O vendedor é mais que um simples atendente; atrás da vitrine o personagem será praticamente um alquimista, que estuda as pessoas para achar a fórmula perfeita para cada um dos clientes que passam por ele, tirando os sapatos da condição de coadjuvantes, eles têm vida no filme e ponto de vista contemplativo.
O curta nos dará a possibilidade de desvendar o ritmo da vida nessa cidadezinha tão atípica e as excentricidades desses personagens em seus mínimos detalhes.