IMPAR PAR

Conceito de Trilha Sonora

 

A trilha sonora no curta-metragem Impar Par, longe de ser apenas acessório dramático que enfatize determinadas sensações no espectador, como é comum, é força-motriz da narrativa, elemento que lhe confere impulso e vida, dialogando diretamente com os personagens e situações dramáticas representadas. Isso ocorre muito em parte pela opção de trazer a trilha para o terreno diegético, ou seja, colocá-la como parte atuante no filme, através de Murilo, o violinista.

Desse modo, em vez de termos uma música que nos chega de lugar algum, temos a materialização dela presente na tela. Vemo-la sendo feita e escutamo-la juntamente com os personagens, o que não é comum. Essa cumplicidade sonora imediata que se estabelece entre diegese e público, quase como um compartilhamento de uma sensação, trabalha absolutamente a favor do clima de encantamento que se pretende na história.

O Corifeu nas representações dramáticas clássicas gregas é o personagem que assiste ao desenrolar dos fatos, sem tomar parte neles. É ele quem narra a história e é dele que partem comentários ao longo da narrativa, sempre sob um ponto de vista externo. Murilo, em Impar Par, possui essa característica. Por ser um personagem mudo, no entanto, ele desempenha sua função exclusivamente através da música.

Murilo, com seu violino, é quem impulsiona a cidade a acordar e começar seu ritmo de vida. E é através de sua música, nessa primeira cena, por exemplo, que ele nos diz como vive esse vilarejo – de forma alegre, ritmada, doce e encantadora. E assim Murilo irá “conversar” com a platéia ao longo do filme, dizendo-nos quais são os momentos de perigo e os de tristeza, os de esperança e os de felicidade.

O personagem é uma construção absolutamente irreal segundo uma lógica verossímil dos acontecimentos. Não é de se esperar crível, sob uma ótica realista, um garoto que viva na rua e que toque um instrumento como violino. No entanto, dentro do tom narrativo do filme e, especialmente, dentro do universo em que se insere a persona do próprio Murilo, deslocado da realidade objetiva da própria trama, sua existência não somente é aceitável como nos é francamente encantadora.

Segue essa linha a escolha do instrumento. O violino em si possui uma ancestralidade que o torna, de certo modo, quase atemporal. Mesmo seu formato e uma certa solenidade que impõe a quem o toca, diferenciam-no, em significados mesmo visuais, do uso de um violão, por exemplo. Um violino é altivo e romântico – na tradição do Romantismo – como poucos instrumentos o são. Além disso, sua sonoridade também representa toda uma tradição romântica da música de concerto, além de possuir um enorme colorido dramático, podendo ir do picaresco ao lamurioso. Nada mais adequado, portanto, para o clima do filme.

As peças executadas por Murilo deverão costurar a tradição da música popular brasileira, de sambas e choros, por exemplo, à música dita clássica, território do violino por excelência. Para tal, as referências de repertório necessariamente passam por compositores nacionais que fizeram isso em suas obras, como Radamés Gnattali, Francisco Mignone e, exemplo máximo, Heitor Villa-Lobos.

Em termos de referências do repertório clássico, algumas composições de Mozart, como seus duos de violino e clarinete, por exemplo, e concertos para violino de Mendelssohn também servem de norte na busca dessa sonoridade. Já no repertório popular, a predileção recai sobre obras ditas “de raiz”, que busquem sintetizar um espírito brasileiro, como as de Ary Barroso e Jacob do Bandolim.

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