Argumento
O dia amanhece. O Silêncio anuncia uma alvorada tardia. Murilo, jovem de 16 anos, cruza o pequeno vilarejo com uma maleta até sentar-se na escadaria em frente à loja de sapatos. Pega seu violino e põe-se a tocar. Ao som do violino de Murilo, a cidade acorda e começa a funcionar. Os habitantes abrem as suas janelas e portas, as vendinhas e cafés atendem seus primeiros clientes. Na rua principal de paralelepípedos, vemos jovens que conversam, crianças que brincam, senhores nos bancos da praça e um entregador de jornais com sua bicicleta. Ele joga um jornal em direção à vitrine da loja de sapatos. O vendedor de sapatos agacha-se para pegá-lo.
Dentro de sua loja, o vendedor faz os últimos ajustes na prateleira de sapatos e na vitrine antes de começar o dia. Aos poucos, a figura do vendedor vai aparecendo para nós. Primeiro seus sapatos velhos e encardidos, depois suas mãos, seus suspensórios. Até que se senta atrás do balcão para observar as pessoas que passam pela sua vitrine, como se esta fosse uma janela para o mundo. Tem um ar jovial e lúdico.
Uma jovem delicada entra na sua loja, querendo experimentar os sapatos que ela viu na vitrine. Ao sentir os seus pés, o vendedor acerta o número que ela calça e oferece outro par de sapatos, que julga mais indicado para ela levar. Ela encanta-se com a sugestão e sai da loja radiante, com seus sapatos novos nos pés. Ele vira-se para a loja e percebe que a jovem esqueceu seu antigo par de sapatos no chão. Calmamente, ele pega o par e vai em direção a vitrine, alegando para o espectador que isso sempre acontece: as pessoas vão com seus novos sapatos, deixando os antigos para trás.
Vemos a seqüência do cotidiano do vendedor em cenas rápidas, onde ele nos conta como faz para atrair os clientes da loja e oferecê-los o par ideal de sapatos. Vemos uma mãe chegar a vitrine com seu filho de cinco anos, impaciente. Ela procura novos sapatos e sai satisfeita com um par que revela seu lado maduro e, no entanto, jovem. Vemos um menino de patinete, que chega derrapando. O senhor lhe oferece um sapato de sola grossa e resistente. Quem sabe ele resistirá ao tempo. Por fim, uma senhora idosa que é convencida pelo senhor de que não precisa de saltos desconfortáveis e leva uma sapatilha. Enquanto as cenas destes clientes passam na tela, elas são invadidas pela locução do vendedor de sapatos, que às vezes se dirige à câmera, buscando proximidade com o espectador. Ele diz que todo cliente primeiro chega a vitrine. A partir daí, ele começa a observá-los e elaborar o sapato perfeito para cada um, como quem elabora uma fórmula específica e pessoal. Presta atenção nos gestos, nos olhares e no modo como se comportam para criar o modelo, a cor ou a sola ideal. Ele diz que eles nunca entram de primeira, mas sempre retornam. Na segunda visita, ele já sabe o quanto calçam ao ver seus pés e lhes oferece o par de sapatos. Encantados, eles saem da loja, sem perceberem que deixaram seus antigos pares para trás. Estes serão tratados pelo vendedor para a produção de novos pares.
De súbito, aparece Helena na vitrine, mulher delicada de beleza exótica. Ele pára para admirá-la e conta ao espectador que ela é a única que sempre passa pela vitrine, mas nunca entra de fato. Decidido, ele vira-se para uma prateleira que contém diversos sapatos com o mesmo modelo e cor, mas diferente em numeração. Estes são os sapatos destinados a Helena. O vendedor já sabe qual é o par ideal para ela, porém nunca conseguiu ver seus pés pela vitrine. Mais uma vez ele tenta olhar os pés de Helena, mas a própria vitrine o impede. Ela sai andando e ele a perde de vista.
Um senhor bonachão e ranzinza entra na loja decidido em comprar sapatos novos. Alega que os sapatos dele rangem e fazem calos nos seus pés. O vendedor, por sua vez, não vê a razão dele trocar seus sapatos, uma vez que aqueles são ideais para seus pés. Como cúmplice dos sapatos, o vendedor diz que é tudo culpa do senhor, que anda por locais inapropriados e os agride. Propõe consertar os sapatos do senhor, que se aborrece com o fato de ter que deixar os sapatos no conserto e sair de meias pela rua. Como quem ensina uma lição, o vendedor apenas sugere que ele procure o melhor caminho para andar, para não sentir dor nos pés.
A tarde cai. O vendedor sai pela rua e repara em Murilo, que toca uma música com grande carga emocional no violino. Ele pára e observa seus pés descalços. Sorri, concluindo que aquele menino não precisa de sapatos para ser feliz, pois é livre e a música o completa. Ao atravessar a rua, percebe Helena, passeando com um grupo de amigas. Tenta olhar para seus pés, mas eles se confundem com os pés das demais meninas do grupo. Ele caminha em sua direção, até que se ouve um trovão. Nessa mesma hora, Murilo chega a um ápice emocional com sua música. Os transeuntes abrem seus guarda-chuvas, um de cada cor, e passam a andar mais apressados. O vendedor tenta ir atrás de Helena, mas a perde diante de pés que se misturam e guarda-chuvas coloridos.
Dia seguinte. Dona Mara, senhora espalhafatosa e cliente assídua da loja, percebe que o vendedor está cochilando. Acorda-o com um grito estridente e diz que precisa de novos sapatos para o baile de sexta-feira. O vendedor questiona os pares que ela já havia comprado semana passada, mas ela não lhe dá ouvidos e aponta aos sapatos destinados à Helena. Tentando desconversar, ele oferece outro par. Ela aceita a sugestão e leva-os na caixa. Ao sair, pergunta a ele quando vai trocar seus sapatos sujos e encardidos. Ele diz que ainda não é a hora certa. Ela discorda e se vai.
Pela vitrine, o vendedor assiste a cena em que dona Mara tromba acidentalmente com Helena, fazendo as coisas da bolsa de Helena caírem todas no chão. Imediatamente, sai da loja a fim de ajudá-la. Quando ele chega a frente da vitrine, ela já está andando. Ele percebe um batom caído no chão e o pega para lhe entregar. Ao abordá-la, deixa cair o batom mais uma vez, propositalmente. Murilo começa a tocar acordes de suspense no seu violino. O vendedor agacha-se ansioso diante dela, com o intuito de ver seus pés. No entanto, depara-se com uma saia longa que se arrasta pelo chão, que impossibilita a visão de seus pés. Levanta-se e lhe entrega o batom. Ela agradece e continua seu caminho. Desapontado, ele retorna a loja quando, de repente, pisa em algo que o faz escorregar. Olha para o chão e percebe uma placa de cimento fresco. Agacha-se para ver melhor e ao lado da forma que se desenhou de seu pé, está o desenho da forma de um pé feminino. Toca o chão entusiasmado e descobre que o número do sapato de Helena é trinta e três. Corre para sua loja em direção aos pares destinados a Helena e pega o de menor número. É um trinta e quatro.
Depois de muito pensar, decide ele mesmo reformar os sapatos. Naquela noite, passa as horas trabalhando nos sapatos de Helena, ajustando os de número trinta e quatro para um número menor.
Manhã do dia seguinte. Antes de Murilo tocar seus primeiros acordes, o vendedor aparece na rua de sapatos novos e lustradíssimos. Caminha ansioso em direção à casa de Helena. Passa por Murilo que está afinando seu violino. Murilo sorri ao ver o vendedor calçando sapatos novos. O vendedor chega ao portão de Helena, andando silenciosamente para não fazer barulho. Carrega algo nas mãos que não conseguimos ver. De súbito, a música matinal de Murilo começa a tocar. Como de praxe, a cidade acorda e o vendedor vê a janela de Helena se abrir. Temendo ser visto, ele deixa na porta o seu presente e sai apressado em direção à loja.
Helena aparece na porta e olha para os lados. Não vê ninguém. Ao olhar para o chão, percebe em frente à sua porta uma almofadinha toda enfeitada com um par de sapatos em cima. Acha gracioso e encanta-se com os sapatos. Olha para o canteiro e vê um pé de sapato masculino jogado no chão. Fica curiosa.
Vemos o vendedor entrar na loja ofegante. Quando se senta para descansar, percebe que está sem um pé de sapato. Assusta-se. Procura seus sapatos antigos para calçá-los, mas eles não estão na caixa em cima do balcão, onde deveriam estar. Fica abismado.
Helena aparece na rua, com a almofada em mãos e o pé de sapato masculino em cima da almofada. Pergunta para os habitantes se eles reconhecem o pé de sapato, mas eles negam. Ela pára para observar Murilo, que toca uma música doce. Como quem não quer nada, Murilo continua tocando, com a vara do violino apontada para a loja de sapatos. Helena vira-se em direção à loja e vê o vendedor saindo, com um pé descalço. O vendedor abre um sorriso ao ver que Helena caminha em sua direção. Olha para seus pés, mas desaponta-se ao vê-los calçados com outros sapatos e não aqueles que ele havia entregado como presente. Ela tira os sapatos novos da bolsa e os devolve. Triste, ele insiste para ela aceitar o presente. Ela reluta, dizendo que já tem os seus sapatos e que não precisa de novos. A última vez que ela experimentou sapatos novos, eles machucaram seus pés. O vendedor pede para calçá-los nos seus pés, alegando que aqueles sapatos são especiais e não vão machucá-la. Delicadamente, ele se afasta, deixando-o só, ajoelhado no chão. A música triste de Murilo invade a cidade. O vendedor, desolado, entra na loja de sapatos. Vemos Helena partindo no fim da rua.
De repente, um deslize.
Helena quase cai. Murilo pára de tocar observa a cena. Helena abaixa-se para
ver o que aconteceu. Seu salto quebrou-se. Ela pega o sapato e o salto e
vira-se em direção à loja. Abre um sorriso achando graça, tomando consciência
do fato que ocorreu. Permanece sorrindo olhando na direção da loja de sapatos.
Numa reviravolta da história em si, Murilo começa a tocar e dançar uma música
alegre. Nos fios do poste ao seu lado, estão pendurados os sapatos antigos do
vendedor. Murilo os teria pendurado para que o vendedor não os usasse mais.
Vemos a forma dos dois pés no chão da calçada, que antes no cimento fresco,
agora estão no concreto, sugerindo uma possível relação entre os dois que,
antes duvidosa, agora está concretizada.