CÁLICE (1973)

Uma obra de arte, ao mesmo tempo em que dialeticamente espelha seu momento histórico, coagula significados anteriores que tornarão possíveis uma compreensão racional e cria novos significados para os símbolos antigos, principalmente quando seu objetivo escapa aos limites sociais e toca o sofrimento humano universal. "Como beber dessa bebida amarga", nos pode tanto encaminhar para leitura de um drama pessoal, social ou humano. A ditadura, a vida asfixiante, a censura num Brasil amordaçado e carente de palavras ou a natureza humana dilacerada pedindo um socorro inútil, "tragar a dor engolir a labuta", da maldição divina no Gênesis dirigida a todos os homens até os sofrimentos de um compositor brasileiro em 1973. "Mesmo calada a boca resta o peito", resgata o coração humano para além das palavras, mas corta a via de expressão dos sentimentos. Prometeu novamente acorrentado divaga sem ter a quem gritar. Um povo está amordaçado, "silêncio na cidade não se escuta", no entanto esse silêncio é o rumor e não um grito de revolta e compreensão. Pede-se "outra realidade menos morta", mas é impossível porque há "tanta mentira, tanta força bruta". É terrível "acordar calado", mas na vida não há revolta, no dia claro só há mentira, e o poeta ou o povo que ele mira, só "na calada da noite" se dana. Ele quer lançar um grito, mas esse grito também já se tornou como a própria realidade, "desumano". Dizer "que é uma maneira de ser escutado" é partilhar do destino dos loucos, dos oprimidos, é ter cedido, sem querer, ao mundo que ele já não sabe como destruir. "Este silêncio todo me atordoa", não é o silêncio, mas ruído, o rumor de vozes incompreensíveis no burburinho da cidade. Ao mesmo tempo em que sonha a revolta, o poeta participa do mesmo torpor e impotência do seu povo: é impossível fugir da história: ela está por dentro, antes de estar por fora. Há uma espectativa que é "ver emergi o monstro da lagoa", mas esta espectativa é antes de tudo impotência. O monstro esperado não pode ser em essência diferente do monstro que os rodeia e devora. O monstro é um só: a espectativa diante da lagoa. "Pai, afasta de mim esse cálice/de vinho tinto de sangue", o poeta quer escapar da cruz (realidade, censura, repressão), mesmo sabendo que nem ele nem Jesus podem ou puderam escapar. É um grito inutilmente humano de sofrimento. Os dois, o poeta e o Cristo, sabem seu destino trágico: esperar que tudo se consuma. "De muito gorda a porca já não anda", devorando seus filhos e os esmagando sob os pés. A mãe pátria os imola. E seus instrumentos já estão enferrujados (de sangue?): "De muito usada a faca já não corta". E sua impotência é explícita, "como é difícil, pai, abrir a porta". Todos estão bêbados, "esse pileque homérico no mundo", e sem humanidade e abertura, "de que adianta ter boa vontade". A solução é irreal, "mesmo calado o peito resta a cuca": o mesmo peito que restava ainda na primeira estrofe aqui também já se dilacerou, mas a "cuca" não é revolucionária ou lúcida, mas "dos bêbados do centro da cidade". E esta "cuca" embriagada e narcisista dita a solução individualista: "quero inventar o meu próprio pecado/quero morrer do meu próprio veneno/quero perder de vez tua cabeça/minha cabeça perder teu juízo". A realidade induz ao poeta se perder de vez, "me embriagar até que alguém me esqueça".

Este poema ao mesmo tempo em que recria o medo e a opressão provocados pelo período ditatorial nos demonstra o quanto a impotência social preenche todo o tecido social e imaginário, não só o poeta sofre com o povo, mas também ele sofre do mesmo mal do povo. Cantar seus sofrimentos é cantar as dores da mãe terra e pertencer aos mesmos descaminhos. Impossível sonhar a fuga da história. Daí a arte ser um dos elementos fundamentais de compreensão da realidade social, porque é através dela que o inexpresso grita e fala, o que só está no peito e nos olhos toma forma humana e deixa sua marca. E pede socorro saindo do inanimado.


Letra da Música "Cálice"

Chico Buarque
Composição: Chico Buarque e Milton Nascimento

(refrão)
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

(refrão)

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

(refrão)

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

(refrão)

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguem me esqueça



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