A
música profana
A trajetória
principal da música na primeira parte da Idade Média
tem sido definida pelo canto gregoriano e com um sentido mais amplo,
como se recorda, pelo controle da igreja. Não é propriamente
um controle intencionado, como se verificará em outras etapas
futuras, mas sim uma conseqüência lógica da organização
social dos povos. O latim ocupa o centro de umas preocupações
culturais das quais o povo se vai afastando com o nascimento das língua
vernáculas. E, no seio da própria igreja, nasce também
a inquietação criadora e a necessidade de variar, enriquecer
e ampliar esse único canto com que ela conta. A essas inquietações
junta-se uma necessidade imperiosa. Essas línguas vernáculas
vão afastando o povo dos ofícios, dado que o latim deixa
de ser língua comum, criando uma barreira para a sua participação
nos ofícios religiosos. E . por um lodo e por outro, surgem
novos campos para a música.
Não
é o momento idôneo para alterar as regras da música,
mas para criar novas formas relativas à organização
gregoriana. E o primeiro e mais fácil passo para a variedade
foi dado pelos instrumentos, que passaram a acompanhar a voz humana,
até então única protagonista do canto.
As
primeiras contribuições produzem-se na própria
liturgia. Os "melismas"eram cantados pelo povo sobre uma
só sílaba, o que dificultava extraordinariamente que
fossem recordados, sobretudo se tinham uma duração considerável.
Para consegui a "cumplicidade" fiéis, alguns homens
da igreja criaram as "seqüências", ou letras
novas, distintas do texto religioso, que os ajudaram a recordar as
linhas melódicas. Nasce assim a primeira aventura criadora,
à qual se seguirá uma conseqüência lógica.
Se se "inventam" letras para a música religiosa,
por que não inventar também novas músicas ? E
nascem as "prosas", com as quais surge a figura de um novo
compositor, também autor dos textos. Naturalmente, o canto
gregoriano também tinha contado com compositores, dos quais
alguns são conhecidos, tal como os livros sagrados tiveram,
em cada época, os seus correspondentes autores, mas o processo,
neste preciso momento, é diferente. Recupera-se, num sentido
lato, a figura do compositor, identificada quase sempre à do
poeta da música grega.
Esta
nova função de compositor-poeta será exercida
por três grupos principais de novos intérpretes "goliards",
jograis e trovadores, e virá a criar o primeiro corpus da música
profana, ao mesmo tempo que a música instrumental se vai introduzindo
nos serviços religiosos.
O processo
arranca, como se viu, de uma maior liberdade ou concepção
da música religiosa, através das "seqüências"e
das "prosas", para se vir a desenvolver, no campo popular,
com as "goliards". Conhecem-se com este nome os frades que,
tendo abandonado os seus conventos, pediam esmola e vagabundeavam
de uma região para outra. Durante a sua estadia nos conventos,
tenham recebido uma dupla formação: musical e literária,
e exploravam os seus conhecimentos por meio de um série de
canções, regra geral dedicadas ao vinho, à comida
e ao amor. Os textos estavam cheios de brincadeiras dirigidas ao clero,
à vida de convento e aos costumes religiosos. Dirigiram-se
a uma classe social muito concreta e dizia-se deles, também
chamados clerici vagante, que constituíram uma primeira evidência
de contra-cultura ou de cultura "underground". Perdeu-se
uma grande parte das canções dos "goliards",
mas chegaram até nós testemunhos dessas obras desde
o século. XI. O primeiro que foi localizado foi o manuscrito
de Munique, que procede da abadia de Beuron, e que foi conhecido com
o nome de Carmina Burana, datado do século XII. A atividade
dos "goiliards"estendeu-se até ao século XV.
No nosso século, compositor alemão Carl Orff fez uma
"recriação"do mencionado manuscrito, utilizando
alguns dos seus textos. A sua obra, que tem o mesmo título,
Carmina Burana cantiones profanae, foi estreada, em Frankfurt em 1973.
A importância dos "goliards" na evolução
da música é muito significativa, dado que a separaram
do mundo religioso e trocaram o cenário das igrejas pelos das
praças das aldeias.
No
confuso elo da progressão musical chegamos à figura
do jogral. Não há testemunhos que confirmem a sua presença
anterior ou posterior à dos "goliards", mas alguns
investidores inclinam-se por situá-los mais de um século
antes. A razão é simples. A falta de testemunhos faz
supor que a sua atividade foi anterior à conhecida e que, por
outro lado, a sua figura responde a uma tradição pagã.
É óbvio que parece efetivamente surpreendente que surgissem
quase sem antecedentes numa série de cortes medievais que protegeram
e cultivaram a música e outras diversões. Caracterizam-se
por duas aptidões complementares: o seu domínio da arte
musical e a sua habilidade no uso da palavra. Sucessor, antecedente
ou coetâneo do "goliard", jogral participa ativamente
nos mesmos objetivos, ou seja, em independentizar a música
do âmbito religioso e em procurar novos palcos para as suas
atividades. Ambos os propósitos os levaram à utilização
dos instrumentos e à mudança de temas nos seus textos.
Os recursos da sua profissão permitem-lhes ampliar o seu raio
de ação, da praça pública ao castelo ou
à corte, passando pele taberna. As suas habilidades abarcam
também as de ator, acrobata, etc, no sentido que hoje damos
a essa atividades circense.
O século
XII vai ser também palco do nascimento de outra figura da música,
a do trovador. A lenda criou uma imagem, em grande parte falsa, do
trovador que, na prática, era um cavaleiro, com formação
humanística e musical, que "exercia"como compositor
e poeta. A sua língua é sempre a vernácula da
sua terra e o seu "público", as cortes medievais
para as quais era convidado ou às chegava numa espécie
de peregrinação. O tema das suas canções,
o amor, um amor quase sempre ideal e impossível, que seria
mais tarde o dos livros de cavaleiros. Junto aos cantos amorosos,
os heróicos, a exaltação das grandes figuras,
reais e próximas, convertidas em lendas. Os feitos de Carlos
Magno, Roldão ou do Cid, os das figuras que rodeavam de uma
auréola as aventuras das cruzadas. Tal como hoje, e sempre,
os nomes que incitam à fantasia e ajudam, na vida cotidiana,
a sentir as experiências.
Assim,
amor e glória formam a trama de uns textos rimados, dos quais
são originais "uns cavaleiros-músicos-poetas. Na
longa relação de trovadores encontram-se os nomes de
reis, como Ricardo de Plantegenet, de nobres, como Guilherme da Aquitânia
e de personagens, de origem desconhecida que alcançaram a glória
de atuar nas cortes européias, tal como Marcabrú. E
esse caráter nobre da sua atividade permite-nos verificar que
também algumas mulheres alcançaram pleno reconhecimento
na sua atividade. Os jogos, os enfrentamentos improvisados, tanto
na música como nos textos, e as manifestações
mais eloqüentes sobre a mulher amada, constituem um amplíssimo
repertório do qual nos chegaram numerosos testemunhos, em muitos
casos com a correspondente notação musical, que foi
possível transcrever para a atual, apesar da dificuldade que
acarreta a ausência de referências rítmicas nos
originais.
Desde
os fins do século XI até ao termo do XIII, no qual a
cavalaria tem o seu declínio, tem-se referencia de 460 trovadores
nos países do sul da Europa, aos quais se devem juntar os do
norte, conhecidos como "minnesänger". Todos coincidem
na romântica exaltação do amor ou do heroísmo,
o que transcende a sua obra para além do simples entretenimento
ou diversão, características comuns aos "goliards"e
aos jograis, embora existam, naturalmente, algumas exceções.
De qualquer maneira, os três contribuíram para essa referida
independência da música do seu caráter religioso
e para criar um mundo de recreio espiritual que não estivesse
subordinado aos objetivos de louvar e glorificar a Deus que constituíam
a essência do canto gregoriano.
Polifonia
Se
tivermos em conta o sentido literal da palavra, ou seja, a idéia
da sobre posição de duas ou mais linhas melódicas
simultâneas que resultam de um conjunto uniforme e homogêneo,
deve dizer-se que os seus começos rigorosas se situam no organum
e no discantus. Mas também há um elemento posterior
e essencial que vai dar um novo sentido de verticalidade. Até
isto ficar estabelecido, essas linhas melódicas apresentavam-se,
por uma bi-tonalidade não intencionada. A definição
da tonalidade na qual as notas da escala se organizam em ordem hierárquica,
dependendo da que dá o nome à escala, dá um novo
sentido aos resultados verticais, provoca a homogeneidade rítmica
e melódica das diferentes vozes e desenvolve o papel e funcional
de baixo, sobre o qual se constrói a arquitetura dos acordes.
Compositores
como Josquin des Près, já mencionado, completam o novo
panorama criativo com o uso da imitação ou do canon,
que passa a ser o procedimento característico do estilo polifônico
gerador da sua coerência de forma. Pouco depois, na segunda
metade do século XVI, será o verticalismo harmônico
o que se vai impor, o que não teria sido possível sem
o estabelecimento prévio da tonalidade. Porque será
a tonalidade a origem das regras da harmonia, partindo de uma só
escala para cada nota, igual em todos os casos, com uma única
exceção: a das suas duas variedades, o tom maior e o
tom menor, com as suas diferentes posições dos semi-tons.
Abandonam-se, assim, os modos gregorianos, nos quais o caráter
era definido pela variável situação do semi-tom
no interior da escala.
Ao
longo desta etapa e tal como tinha sucedido na época anterior,
a evolução da música religiosa decorre de forma
paralela à da profana e, em ambos os casos, juntamente com
a instrumental. É um desenvolvimento, em parte similar ao que
se dá em outras artes, no qual a música se vai libertando
das ataduras e da rigidez do gótico para se aproximar do Renascimento.
SUrgem novas formas na música profana e na instrumental, mais
breve, menos grandiosas e que, por sua vez, influirão na altura
própria na música dedicada ao culto. Os limites de cada
etapa, tal como sucede sempre na história, não estão
completamente definidos e encontramos, como fundamento de todos eles,
a sombra da extraordinária descoberta que foi a da tonalidade
. De fato, trata-se de um fenômeno único que se apresenta
na música ocidental e do qual não se encontram equivalências,
nem sequer aproximadas, nas de outrs culturas.
Na
transição para o Renascimento, será também
a polifonia que terá um papel e protagonista dentro e fora
da música religiosa. Nesta última, com os três
grandes nomes que cobrem por completo o século XVI e entram
pelo XVII: Giovanni Pierluigi da Palestrina, de 1525 a 1594: Orlandus
Lasus, de 1532 a 1594, e Tomás Luis de Victoria, de 1545 a
1644. Representam ao mesmo tempo a tradição da Polifonia
desde as suas origens e a sua inclusão nas novas correntes
do Renascimento. No caso dos primeiros, tanto no que se refere ao
campo religioso como ao profano, no qual não se pode incluir
Victoria, que se seguiu no seu trabalho à música de
igreja. No profano, a concepção polifônica manisfesta-se
fundamentalmente com o madrigal, que se prolonga no tempo e atinge
também o representativo mundo do Renascimento. Juntamente com
ela, aparecem outras formas que ficaram mais unidas, quanto ao nome,
aos estilos de cada país, enquanto que o madrigal se estendeu
por toda a Europa. Na Itália, aparece a frottla, o ricercari,
a canzona, os rispeti e alguns outros, enquanto que, na Espanha, se
desenvolve o villancico, com uma dimensão que não se
limita à variedade. Natalícia que, às vezes,
se aplica ao mesmo.
Mas
o Madrigal vai ter o ponto de apoio de toda a polifonia renascentista,
em especial no campo profano, embora também no religioso e
com os madrigais "espirituais". É impossível
citar todos os compositores que cultivaram o madrigal, mas convém
seguir o rasto dos mais representativos, tal como podem ser Giuseppe
Zarlino, Andrea e Giovanni Gabrielli, Adrian Wlaert e Gesualdo da
Vnosa, na Itália, Clement Jannequin, na França, Mateo
Flecha e um sobrinho com o mesmo nome, que prolongam uma tradição
iniciada por Juan del Enzina, Juan Brudieu ou Francisco Guerrero,
na Espanha, William Byrd, John Dowland, Thomas Weelkes e Orlando Gibbons,
na Inglaterra, e Orlandus Lassus, já menciondo. na Alemanha.
Entretanto, prossegue a tradição polifônica religiosa,
representada na Alemanha por Heinrich Schütz e na Espanha, juntamente
com Victoria, pelos nomes de Cristóbal de Motales e de Francisco
Guerrero.
Renascimento
Ao considerar a existência do
Renascimento musical, estamos perante um dos freqüentes casos de imprecisão
terminológica. A influência de conceitos das outras artes e o desejo
de unificar as suas tendências levou ao uso de qualificações cuja
correlação é difícil de defender. No entanto, é um fato que se divulgou
um conceito, o de "música renascentista", com umas características
e coincidências no tempo que não é possível ignorar. Outra questão
é a da confirmação, ou não, da correlação com outras artes. No mundo
do pensamento e as letras, a descoberta da Antiguidade clássica é
efetivamente clara nos movimentos literários e filosóficos da passagem
do século XV para o XVI, mas na música, temos que esperar a chegada
do XVII para encontrar elementos modificadores da anterior tradição,
sobretudo no que se refere às formas.
Já comentamos como se apresentaram
estas modificações nas novas formas da música instrumental, mas inclusivamente
na mais característica, a música vocal, conservam-se no Renascimento,
as exigências da polifonia. A forma típica desses tempos, do Renascimento,
é o Madrigal, que se serve dos fundamentos estruturais e conceituais
da polifonia cultivada até finais do século XVI. Mas o importante,
nessa transformação que se dá nos fins do século XVI é sem dúvida,
a mudança de sentido do conceito da polifonia, Assim, o que antes
tinha sido um estilo, um mio de expressão que caracterizou uma época,
passou a ser uma fórmula ou uma possibilidade técnica com um sentido
muito mais amplo, com um posto na música vocal,com ou sem intervenção
de instrumentos. Ou seja, o que era um "estilo", passou a formar um
"gênero".
A alteração produz-se, efetivamente,
na transição do século XVI para o XVII e tem um nome muito concreto:
"melodia acompanhada". É um meio de expressão no qual se ouve o eco
das aspirações dos humanistas. Mas, para os historiadores da música,
o que noutras artes se entende por Renascimento, deve situar-se entre
o último terço do século XV e os últimos anos XVI. Nessa altura sucedem-se
várias e importantes transformações na música. ë o momento em
que a polifonia atinge o cume, em que, tal como já dissemos, o "Madrigal"
representa a unificação do poético e do musical, ao mesmo tempo que
aparece o sentimento da harmonia. Não interessa tanto a sucessão de
vozes, consideradas como predominantes, mas sim a malha criada por
essas vozes. E essa organização harmônica será o ponto de apoio da
melodia acompanhada, independentemente, por outro lado, do desenvolvimento
e da evolução dos instrumentos. E, embora estes dados não constituam,
por si próprios, uma definição das elementos, de um Renascimento musical,
conseguem fundamentar uma vitalidade e um espírito criativo.
Esse ímpeto assoma igualmente
na Reforma religiosa, que coincide com o Renascimento musical. Tem-se
dito que não é possível estabelecer entre esses fatos uma relação
de causa efeito, mas é evidente que coincidem no impulso. A melodia
acompanhada conduz ao nascimento da ópera, como gênero de mais amplos
horizontes e orientado para um público mais numeroso. Da mesmo maneira,
Lutero, que aceita o latim, procura no uso das línguas vernáculas
uma maior relação do povo com uma música religiosa. Na prática, uma
grande número de compositores dedicam os seus esforços criativos a
formar um repertório de canções religiosas, dentro de um movimento
que nasce na Alemanha, com a Reforma como ponto de partida, e que
se estende a outros países, em especial à França, no qual aparece
o corpo da música religiosa hugonote.
Como resumo deste período, antecedente
do nascimento da melodia acompanhada, ou monodia, pode dizer-se que
coincidem, nas diversas escolas, as tendências para usar a voz, os
instrumentos e as suas possibilidades de combinação, como partes
independentes de um todo que as pode englobar parcial ou totalmente.
Barroco
Ao finalizar o Barroco, sucede
algo similar ao que representa na música a idéia do Renascimento.
O estilo Barroco, que responde a uma concepção pictória e arquitetônica,
translada-se, novamente, para a música sem fundamento. Tal como sucedeu
no Renascimento, as possíveis características musicais do Barraco
definem-se posteriormente e são uma justificação do uso desse terno,
mais do que uma definição do mesmo. Pode dizer-se que, em ambos os
casos, foram as correntes da música e, sobretudo, o extraordinário
progresso dos meios de difusão e dos suportes dos registros musicais,
os fatores que impuseram esses termos. A mensagem das casas discográficas
precisava da utilização de uma terminologia que fosse familiar a um
amplo setor do público, mais conhecedor das diversas tendências e
escolas da arte e literatura do que da música.
No entanto, também no Barroco
é possível encontrar uns elementos que justificam o uso desse termo,
partindo de conceitos de outras artes. Verificou-se uma certa relação
entre o estilo concertante da música e o estilo barroco na arquitetura
e nas artes plásticas. A alternância de vozes e instrumentos foi a
resposta musical à idéia de contraste que caracteriza a arte do barroco.
O uso de vozes solistas, coros - inclusivamente duplos e triplos coros,
a organização de instrumentos por famílias e a sua combinação e número
crescente, definem, sem dúvida, a tendência para o grandioso que responde
à imagem tópica e típica da arte barroca.
Essa tendência para o que a
música poderia vir a ter de espetáculo, num movimento paralelo no
tempo ao da monodia acompanhada e, claro está, ao da ópera, une diretamente
o Renascimento com o barroco. Os chori spezzati, enfrentados
como dois elementos dispares do conjunto, marcam a trajetória da música
em São Marcos de Veneza, primeiro com Adrian Willaert e depois com
Gabrieli. Um caminho que leva, sem interrupções, às Paixões de Johnn
Sebastian Bach, aos grandes oratórios de Haendel e à estabilização,
com todas as suas variantes, do novo gênero que surge nos fins do
século XVII: a ópera. E, em todas essas formas e gêneros, torna-se
clara a preocupação comum por tudo o que é dramático. De certa maneira,
parece que o dramatismo, possível de por em cena ou não, é consubstancial
com a idéia do Barroco. Assim acontece na pintura, em Rembrandt, por
exemplo, na tragédia francesa, com as obras de Corneille e Racine
e na Espanha, com Calderón de la Barca, entre outros numerosos exemplos.
Na música, a idéia da monodia
acompanhada afirma o uso do "baixo continuo", que passa a ser uma
das características da música barroca, embora junto a ela coexistam
outras manifestações musicais que não recorrem a este sistema de notação.
Sistema esse que permite uma completa improvisação harmônica, dado
que a "interpretação"dos indicativos que implica o baixo contínuo
depende do intérprete, valha a redundância. Desenvolvem-se sob o seu
império, as modas de adornos e elementos acrescentados que, na arquitetura
simbolizarão também a idéia do "barroco". E, se tivermos em conta
o longo processo da sua imposição, verificamos que surge quando ainda
está vigente o Renascimento , no século XVI, e, isso sim, que se prolonga
até começos do século XVII, quando o Renascimento já só é uma recordação
e uns testemunhos.
Por isso se tem dito que o Barroco
leva até às suas últimas conseqüências os impulsos de renovação que
tinham nascido no renascimento. Na música, à margem de identificações
mais ou menos rebuscadas com as outras artes, verifica-se que se produz
um movimento com as
mesmas conseqüências: a música
coral religiosa expande-se desde a polifonia até às manifestações
do que viria a ser o fundamento sa música sinfônica-coral, enriquece-se
monodia, produzem-se primeiras experiências do melodrama e da favola,
nasce o sentido da expressão melódica de Alessandro Scarlatti.
Romantismo
Se bem que já foi dito, convém
esclarecer como se produz o desenvolvimento do conceito romântico
na música e as diferenças com o seu equivalente literário. Para um
filósofo como Emmanuel Kant, que divide as artes na sua Crítica
da Razão, a música ocupa o nível inferior na compreensão, depois
das artes da palavra e inclusivamente das plásticas. Não vamos entrar
em considerações sobre a exatidão destas afirmações, mas, na evolução
da música, tem
grande importância não ser este
o primeiro caso em que o literário está à frente do musical, pelo
menos no tempo. Assim, as idéias que conformam o Romantismo literário
situam-se aproximadamente entre 1765 e 1805, enquanto que nessas datas
a música se encontra em pleno desenvolvimento do classicismo com a
obra de Haydn, Mozart e inclusivamente Beethoven. Quem analisou estes
três compositores e os definiu como integrantes do " Estilo Clássico
" foi o crítico Charles Rosen, que deu esse título ao seu livro sobre
o assunto.
No entanto, a aparente confusão
está bem justificada na evolução da música na Alemanha, em que aparece
a influencia da nova corrente do nacionalismo. Uma corrente que se
junta com o movimento que se conhece como Sturm und Drang (
Trovoada e Tensão ), depois da publicação em 1776 da obra com esse
título de Friedrich Klinger. A veemência será o espírito que define
o seu caráter pré romântico. E essa expressão dos sentimentos
de forma apaixonada aparece ocasionalmente nas obras de Haydn, de
Carl Ph. E. Bach. e outros, pelo que foi assim assimilada nos princípios
de Klinger e, em conseqüência, ao nascimento do Romantismo musical.
Na prática, ainda terá de se produzir a obra de compositores como
Carl Maria von Weber, Franz Schubert e, como já se comentou Ludwig
van Beethoven, para se poder falar de Romantismo. A sua origem real
situa-se à volta de 1830, com as primeiras obras importantes de Robert
Schumann, na Alemanha, e com a Sinfonia Fantástica de Hector
Berlioz na França.
Enquanto na literatura se abriam
novos caminhos à expressão, a música continuou a viver o seu "atraso",
aderida à produção romântica. Nasce o "poema sinfônico", no qual a
criação musical se submete à linha argumental do tema literário escolhido
pelo compositor, e desenvolve-se extraordinariamente a canção, o "lied".
Somam-se novos poetas à lista dos mais musicais, mas essa lista continua
fundamentada nos grandes nomes da transição do século XVIII ao XIX,
à cabeça dos quais, sem dúvida, está Goethe. Há uma exceção: Shakespeare,
mas tinha acontecido a sua recuperação no mesmo período. E será este
poeta quem vai servir de estímulo para uma das primeiras demonstrações
de romantismo: a abertura para o "Sonho de uma noite de Verão", de
Felix Mendelssohn, datada de 1826. Coisa que aparece curiosa visto
que Mendelssohn significa, em parte, a representação das formas clássicas
no novo século.
Salvo as exceções, como Berlioz,
nascido em 1803, a primeira geração de compositores românticos nasce
cerca de 1810, com Schumann, Chopin, Mendelssohn, Wagner e Verdi,
assinalando apenas os mais representativos. Entre as coincidências
que se produzam nas suas trajetórias, lugar importante é ocupado pela
sua dedicação à que se pode chamar, com um critério muito geral, "crítica
musical". No caso de Schumann, por exemplo, porque nos seus primeiros
anos hesitou entre música e literatura, no de Berlioz, porque exerceu
como crítico e finalmente, no de Wagner, porque encontra no ensaio,
assim como nos sue libretos para ópera, o meio de comunicação das
suas idéias estéticas, que ilustram as páginas musicais.
E as orientações românticas,
na expressão exaltada dos sentimentos, manifestam-se em todas as formas
musicais já existentes, às quais se acrescentam algumas novas, como
o poema sinfônico já mencionado, a transformação da ópera, a partir
de uma sucessão de árias, duos, etc., num conceito de "continuo" e
de ação, num texto, na própria música e num amplo repertório de pequenas
formas instrumentais.
Também muda o âmbito de influência.
Ao mesmo influência as literaturas não alemãs se abrem à influência
de Goethe, a sede do Romantismo desloca-se para Paris que, pelo menos,
detém o centro de influência de Viena. Diz-se que o espírito fáustico
invade a música a partir das propostas do poeta alemão. Um dos primeiros
incluídos no novo grupo será, como já se comentou, Hector Berlioz
com a sua "Sinfonia Fantástica", ou o virtuosismo de Paganini, com
a carga diabólica tomada da literatura. E o mesmo acontece com List,
húngaro mas triunfador na Alemanha e principalmente em Paris, cuja
influência chegará, inclusivamente, ao pós-romantismo.
Enquanto isto acontece, na Alemanha
unem-se duas tendências, sem dúvida com um ponto comum: as respostas
por Mendolssohn e por Schumann, com uma preocupação pelo cenário que
herdaram de Carl Maria von Webwe, mas que não encontra eco positivo
até à chegada de Wagner. Mendelssohn representa o nexo entre o classicismo
e o romantismo, assim como a atualização das exigências formais do
passado com a sua atualização da obra de Johann Sebastian Bach.
No outro lado está efetivamente,
Robert Schumann, exemplo excepcional do compositor literato, que sente
a música e a exprime em função da sua carga literária. A sua influência
na expressão romântica é mais importante do que poderia parecer à
primeira vista. O mundo de Schumann interessa-se mais pela expressão
dos sentimentos que pela sua descrição. A idéia de "impressão"literária
projetada na música vai estar na essência do poema sinfônico, que
se desenvolve plenamente na última etapa do romantismo, entre outros,
com Liszt, mas será a partir de 1848. A origem do poema sinfônico,
como forma com entidade e definição próprias, é consequ6encia da abertura
do concerto com fundamento literário, que tem em Beethoven com obras
que vão desde "As criaturas de Prometeo", de 1801 até à "A Consagração
do Lar", de 1822, passando por "Coriolano"ou "Egmont".
Acabado esse primeiro período,
o romantismo entra numa nova época, a segunda, que começa a partir
da Revolução de 1848. A evolução dos conteúdos musicais, dos meios
de expressão, fixa as suas características. Não se tratava tanto de
criar novas formas mas de renovar as possibilidades da linguagem.
Diz-se que começa um novo mundo com a estreia de "Tristão e Isolda",
de Wagner. COm Wagner chega, efetivamente, uma primeira "descomposição"
da tonalidade, através dos acordes equívocos que podem fazer parte
de algumas tonalidades bem distantes. No extremo, especialmente na
música francesa, aparecem as tensões harmônicas, alteradas, que enriquecem
muito especialmente a nova música para piano. Mas a recuperação da
obra de Johann Sebastian Bach, depois da reaparição em Berlim e Leipzig,
graças ao esforço de Menelssohn, da "Paixão Segundo São Mateus", faz
surgir outro foco de influências que se reflete em compositores como
Johannes Brahms e depois em Cesar Frank e Max Reger. Neste processo,
mantem-se como elemento romântico principal o interesse pelas essências
racionalistas.
Dessa mistura de tendências
nasce uma terceira etapa do romanticismo que reúne, e significa para
todos os efeitos, um pós-romanticismo. Caracteriza-se pela preferência
pelos grandes conjuntos sinfônicos e corais, pelas grandes massas
sonoras e pela aspiração de chegar a uma combinação de tendência está
presente na última ópera de Wagner, "Parsifal", e nas últimas sinfônias
de Bruckner, como antecedentes do sinfonismo mahleriano e straussiano,
que marca praticamente o fim do pós-romanticismo. E, para além dos
epígonos, dos quais existem exemplos em todos os países europeus,
aceita-se que o seu fim começa com a Primeira Guerra Mundial. É o
momento no qual se consumam as rupturas iniciadas nos últimos anos
do século XIX, com o cromatismo, que começa em Wagner e que leva ao
atonalismo, formulado, primeiro como aumento dessa ruptura e depois
como teoria organizada, por Arnold Schönberg, e confirmado pela segunda
Escola de Viena.