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- CINEMA E DISCURSO PSICANALÍTICO
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por Junior Portella
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Quando em 1930 Freud concebeu seus estudos acerca do
"mal-estar da civilização", o mundo já estava acostumado a consumir um
fulgurante e recente produto da indústria cultural: o cinema, que mais de 50 anos depois
seria componente indissociável do imaginário do homem pós-moderno, o chamado homo
technicus, como quer Philippe Julien.
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Acompanhando as transformações sociais, o cinema tornou-se um dos principais, senão o
primordial veículo do discurso capitalista contemporâneo, qual seja, o consumismo como
forma de suprir a falta e alcançar a felicidade a partir de objetos momentaneamente
desejados. Com efeito, o cinema rompe a barreira entre o objeto desejado e o sujeito,
transcende as imagens, reveste-se de uma racionalidade própria e incorpora-se ao
Inconsciente humano, criando para o espectador uma falsa representação da realidade (a
alienação) e a idéia perigosa de que a todos é possível a satisfação plena de seus
desejos através do consumo de imagens que prometem a perfeição: o ideal de beleza,
profissão, parceiro, casamento, em suma, o tão festejado american way of life.
É a sublimação de um Ideal de vida, o qual não se pode alcançar.
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O cinema hollywoodiano, com sua linguagem e símbolos, tem a sua gênese baseada
justamente na ilusão do acesso à beleza, ao conforto, ao poder, à juventude, enfim, ao
ser ideal, o que desperta no espectador o desejo frenético de consumo das imagens,
levando-o ao gozo obsessivo, ao conseqüente desaparecimento do sujeito desejante e ao
aumento da sua alienação. A virilidade de James Bond, a sensualidade de Veronica Lake e
Sharon Stone, o glamour de Elizabeth Taylor e Audrey Hepburn, a rebeldia romântica de
James Dean, os amantes de Love Story, o "príncipe encantado" das
comédias românticas, a plenitude sexual, financeira e profissional dos
personagens masculinos, o ideal de Justiça de filmes como O Homem que Fazia
Chover, o ufanismo dos filmes de guerra, o charme da criminalidade em Crown,
O Magnífico, o discurso do poder de O Poderoso Chefão, todos são
objetos vendidos pelo cinema como correspondentes direto da felicidade, da realização
completa, do gozo infinito. Contudo, são na verdade meras diagramações de uma realidade
inexistente e não factível.
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Ora, tudo isso explica o insucesso entre o grande público de filmes que retratam
fielmente a realidade e transgridem o Ideal almejado: mostram o tédio nas relações
entre os sujeitos, as frustrações sexuais, profissionais e amorosas, a dor de existir, a
carência e a fragilidade do ser humano. Nessa linha, seguem-se os filmes alternativos, o
cinema underground ou marginal, o nacional, o noir, o independente, o europeu, o
asiático, etc. São estilos cinematográficos que causam repulsa ao espectador médio,
pois afastam o objeto do desejo e afirmam a falta. É a negação do gozo.
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Nessa dança das imagens, o ideal narcísico criado pelos elementos do cinema (fotografia,
trilha sonora, cenário, direção de arte, atores) faz novos adeptos, que consomem
indiscriminadamente todo o tipo de produto cinematográfico, na esperança de aliviar a
carência e alcançar o objeto perdido e sempre buscado, do qual se ocupava Freud.
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Portanto, da cadeia consumista, alimentada especialmente pelos grandes estúdios de
Holllywood, cujos interesses são puramente econômico-financeiros, resta para o cinema a
mediocridade e a banalização da sexualidade, da vida e da morte. É o mal-estar que toma
lugar: o cinema, como produto da cultura contemporânea, gera para o espectador a
impressão de que pode saciar a falta, porém tudo não passa de uma fantasia ou de um
vislumbre. Ao fim, o espectador não consegue ter para si a perfeição prometida e
exibida na tela, porque ela existe apenas no cinema.
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