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CINEMA EUROPEU
DO PRECONCEITO AO EXISTENCIALISMO
                                                                 por Junior Portella
 
             
       Muitas vezes ouço pessoas dizerem que adoram cinema, mas não gostam de filmes europeus, embora simplesmente desconheçam o próprio cinema europeu e a sua razão de ser. É a velha história do preconceito ou "pré-conceito": a ignorância de algo que desde logo já nos causa ojeriza. Incomodado com o preconceito dessas pessoas, proponho-me a uma reflexão acerca das razões do cinema europeu, da sua estética e, principalmente, da sua profunda temática existencial e intimista, a fim de domovê-las do seu mau juízo e convidá-las a aproveitar o cinema produzido no Velho Continente.
        Diferente do cinema-indústria norte-americano, como diria Jacques Tati, o cinema europeu, seja ele moderno ou clássico, segue primordialmente uma linha de pensamento existencial e intimista, reforçado por uma estética por vezes sofisticada, como o cinema do inglês James Ivory ou de Hitchcock, porém sempre hermética e até mesmo claustrofóbica, apenas para lembrar os mestres Ingmar Bergman e Luchino Visconti, e realista ou naturalista, para citar Pier Paolo Pasolini e Pedro Almodóvar. Talvez seja por isso que os filmes europeus nos pareçam sóbrios e intelectualóides demais. Mas tal impressão pode mudar se percebermos a surpeendente filosofia existencial que o cinema europeu guarda em seu conteúdo.  
         A pedra filosofal do típico cinema europeu - digo "típico" para afastar qualquer eventual americanização que distorça essa reflexão - é a análise meticulosa, portanto não superficial, dos sentimentos e desejos inerentes ao comportamento humano, além da imersão em assuntos controversos e nada convencionais de cunho político, social, religioso, histórico, sexual  e  tantos outros. É o intimismo e o existencialismo enfocados por uma ótica que transcende o indivíduo; uma ótica universal.
        Longe de exortar a mediocridade, o cinema europeu apresenta uma estética peculiar, avessa à americanização do cinema mundial, abandona o maniqueismo e a hipocrisia, serve de instrumento para que atores possam dar vazão ao seu talento através de personagens intensos e solapa clichês, indefectíveis ao cinema americano. Por isso, pode-se dizer que o cinema europeu, sem tirar os méritos do cinema norte-americano, é de qualidade superior àquele produzido nos EUA, pois preza a originalidade, a inteligência, o realismo, a liberdade estética e, indubitavelmente, o tratamento existencial e filosófico dos argumentos por ele expostos. 
        Enfim, do drama existencial O Sétimo Selo, do sueco Bergman, passando pela tragicomédia italiana Amarcord, de Fellini, às sátiras sociais de Luis Buñuel, o cinema europeu sempre nos propõe um desafio à la Sartre: entender a essência e o sentido da condição humana. E é esse agradável desafio que eleva o cinema europeu ao status de cinema-arte universal.  
         É, portanto, preciso que conheçamos os caminhos do cinema europeu para que possamos nos desprender de pré-conceitos e emitir qualquer juízo de valor sobre ele, não cometendo assim nenhuma injustiça. Obviamente, é inadmissível que assumamos uma posição irredutível, baseada na visão mercadológica americana, contrária ao cinema europeu, sem ao menos termos um conhecimento prévio do assunto. Viva o cinema europeu! Viva o existencialismo!
          
 
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