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MÚSICA CLÁSSICA E CINEMA
A CONJUNÇÃO ENTRE DUAS ARTES UNIVERSAIS
                                                                                                                          por Junior Portella
 
             
       Nunca se viu uma relação tão intensa e bem-sucedida como a união entre duas artes universais e ubíquas: o cinema, com o seu comprometimento técnico e fantasia, e a música clássica, com sua capacidade de resgatar nos ouvintes emoções recônditas. note2.gif (5664 bytes)
       Em 1896, é criado pelos irmãos Lumière o cinema, que desde então tem se servido da música clássica para dar força dramática às sua histórias e instigar os sentimentos doclavesol.gif (21850 bytes) espectador. Mas foi a partir do expressionismo alemão, na década de 20, que tal relação entre cinema e música clássica tomou contornos mais visíveis.
        Na obra-prima do expressionismo, Fausto (1926), o diretor alemão Friedrich Wilhelm Murnau  conta a história do lendário alquimista e charlatão que viveu no século XVI. Fausto é um homem que, para alcançar o prazer e a sabedoria, vende sua alma a Mefistófeles, o próprio demônio. Para compôr o clima tétrico do filme e para ilustrar a tensão e o tédio crescente que abatiam o personagem principal, Murnau escolheu como trilha sonora a composição exuberante de Mussorgsky, Uma Noite no Monte Calvo. O resultado foi um espetáculo audiovisual inesquecível. Por ser um filme mudo e, portanto, sem diálogos, os acordes loquazes de Mussorgsky permitem compreender a loucura e o mistério que envolvem o Fausto de Murnau.
        Há inúmeros exemplos da importante contribuição deste gênero musical para a plenitude da Sétima Arte. O Fantasma da Ópera (1925), de Rupert Julia e Lon Chaney, une uma história de amor e tragédia às músicas de Bach, como Toccata e Fuga e Fantasia em Sol Menor. Nosferatu (1922), também de Murnau, mostra um conde atormentado por suas tendências vampirescas. Essa adaptação do livro Drácula, de Bram Stoker, apresenta um visual sombrio e estilo gótico, corroborado pela música de Camlille Saint-Saëns, Sinfonia no 3 em Dó Menor. Na ficção científica Metrópolis (1926), de Fritz Lang, Les enfants de Dieu e Jésus accepte la souffrance, do ciclo La Nativité, de O. Messiaen, ecoam o caos de um mundo à beira de um cataclismo e anunciam a opressão, a revolta e a redenção dos seres humanos.
        clavesol.gif (21850 bytes)  A proveitosa interação entre cinema e música clássica não ficou restrita apenas ao expressionismo alemão. Na década de 30, novas vanguardas européias surgiram e a relação umbilical entre aquelas duas artes tornou-se ainda mais enérgica. O filme brasileiro Limite (1931), de Mário Peixoto, influenciado pelas recentes experiências cinematográficas européias, amarra seu teor existencial às belíssimas composições de Villa-Lobos, Debussy e Prokofiev, cujas melodias acompanham as sensações dos personagens.
          Contudo, a magnificência da música clássica não se restringiu à ficção do cinema, mas se estendeu também ao universo dos desenhos animados. Em 1940, Walt Disney produziu o desenho animado musical Fantasia, antigo sonho de Disney de aliar a arte da animação ao poder de encantamento da música clássica e de abrandar toda a aparente jactância deste gênero musical. Assim, Disney procurou popularizar a música clássica, criando uma obra de imenso valor artístico, que conta com a perfeição de composições como Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, Suíte Quebra-Nozes, de Tchaikovsky, e Dança das Horas, de Ponchielli.
           31 anos depois, o diretor italiano Luchino Visconti, no intimista Morte em Veneza (1971), retratou a melancolia e a obsessão de um velho austríaco apaixonado por um jovem. Nesse filme baseado no livro de Thomas Mann quase não há diálogos e as emoções são freqüentemente reveladas pelos olhos dos personagens e pela trilha sonora visceral, composta pela 3a Sinfonia e 5a Sinfonia de Gustav Mahler. note2.gif (5664 bytes)
           No século XXI, ao olhar para os mais de 100 anos de história do cinema, naturalmente podem ser citados centenas de filmes que promoveram "a dramatização do próprio ato de ouvir", como diria Arthur Omar, e a sublimação da música clássica. É certo que a reunião entre duas artes sempre se mostrou muito profícua, mas a idéia única e visionária de harmonizar em uma só obra a música clássica e a cinematografia, além de auspiciosa, é emocionante, pois envolve o início de tudo: a inocência e a criação.
 
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