- Amor, ódio e
sensualidade, essa é a trágica e perigosa combinação do aclamado longa de Stephen
Frears, Ligações Perigosas, baseado na peça de Christopher Hampton, o qual fez
uma releitura do famoso romance de Chordelos de Laclos. Muitas foram as versões
cinematográficas do romance de Laclos, tal como o dispensável Segundas Intenções,
porém a de Frears se mostra sempre superior, seja em relação à profundidade
dramática, seja na fidelidade da adaptação para as telas.
- Da narrativa
teatral à soberba direção de arte (vencedora do Oscar), Frears buscou um viés
barroco-romântico para contar a história de traições promovidas por dois nobres
desprezíveis, cujo maior prazer sexual é urdir contra seus amantes. Movidos pela inveja
ou por ressentimentos, os personagens de Glenn Close e John Malkovich invadem a
intimidade, satisfazem os desejos e descobrem os segredos de seus pretendentes, para
conquistá-los, iludi-los e então os dispensar, magoando seus amantes profundamente e os
fazendo sofrer por sua própria ingenuidade.
- Disso tudo,
algumas indagações podem ser levantadas: o tratamento dispensado pelos protagonistas aos
seus pares seria vilania pura e simples ou o reflexo de seu passado amoroso? Com um
roteiro de tantos meandros e o academicismo de Frears, não se permite uma análise
simplista, qual seja, maniqueísta da essência de todos os sentimentos implícitos e
explícitos no filme, os quais mostram a fraqueza da personalidade humana. Basta observar
cada gesto meticulosamente executado pelos espetaculares Glenn Close e John Malkovich, os
olhares perscrutadores, diálogos e o ambiente fílmico (figurinos, fotografia, trilha
sonora, cenário) para afirmar que sentimentos muito mais impenetráveis se escondem
atrás da vilania aparentemente sem razão dos protagonistas.
- Embora se
passe na França do século XVIII, a trama é atemporal. A sensualidade e a dificuldade de
amar não são indefectíveis daquele período histórico, pois tais inquietações
acompanharam o homem até a pós-modernidade. Parece que Chordelos de Laclos teve
uma antevisão do homem pós-moderno e Stephen Frears soube explorá-la muito bem.
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