- Tudo se pode
esperar de um filme de Lars von Trier. Essa máxima se confirma com a mais nova obra do
diretor dinamarquês, Dançando no Escuro, que oscila ente o gênero musical e o
dramático com uma desenvoltura perfeita e incomparável. É a desesperadora história de
Selma que dá a deixa para que von Trier faça um filme magnífico.
- Mesmo
praticamente cega devido a uma doença congênita, Selma, uma ingênua imigrante tcheca
que vive nos EUA, trabalha como operária em uma fábrica de produtos de alumínio e vende
grampos de cabelo a fim de juntar dinheiro para a operação do seu filho, portador da
mesma doença que ameaça retirar toda a sua visão. Dividida ente a árdua batalha
diária e o seu sonho de infância de trabalhar em um musical, Selma esconde a cegueira de
todos e consegue alcançar o valor da operação, mas ela se envolve em um evento
inesperado com um policial e sua mulher, donos do trailer no qual ela mora de aluguel, o
qual muda para sempre as vidas de Selma e de seu filho.
- Com
inéditos e belos números de dança, Dançando no Escuro está longe de ser
classificado como um musical convencional e alegre, não apenas por seu final chocante.
Desde a cinegrafia até a forte temática do filme, nada lembra os típicos musicais da
Metro ou aqueles adaptados direto da Broadway para Hollywood. A sua história se desenrola
naturalmente, sem aquelas cantorias cansativas, porém a música tem lugar quando Selma
resolve fugir da sua sufocante realidade e sonha estar cantando e dançando como nos
musicais que assistia quando era mais jovem. Quase cega, Selma apenas sente o mundo
através dos sons da fábrica, ou do trem, ou da tubulação de ar ou até mesmo de um
lápis escrevendo no papel. Para ela, esses sons são música pura; música para libertar
os corações oprimidos.
- Não
há como negar o talento de von Trier, um cineasta sensível que tem o dom incrível de
retirar de uma história aparentemente trivial vasto material para criar um filme
que possa emocionar, revoltar e instigar o espectador. Contudo, Dançando...
talvez não seria tão espetacular se não fosse a especial contribuição de Björk
(indicada ao Globo de Ouro e vencedora do prêmio de melhor atriz em Cannes) no papel de
Selma. Apesar de todo seu estrelismo, a cantora islandesa, responsável pela composição
e interpretação da trilha sonora, encanta com os seus gestos sutis que parecem ser
meticulosamente ordenados e a sua voz belíssima faz crescer uma sensação de calma e
desprendimento. E o que dizer da francesa Catherine Deneuve no papel de Kathy, a fiel
amiga de Selma? Simplesmente ótima, sem aquele glamour e arrogância que a acompanharam
durante toda a sua carreira. Em um filme de von Trier tudo pode acontecer!
-
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes e indicado ao Oscar de melhor canção, Dançando
no Escuro é um filme sobretudo poético, provocador e inteligente, que passa uma
mensagem otimista: nada pode te impedir de fazer algo, se você acredita em você mesmo e
se dispõe a fazê-lo de corpo e alma. No caso de Selma, ela se sacrificou pelo seu filho,
acreditou nela mesma e conseguiu o seu objetivo, mesmo não podendo enxergar. Afinal, como
diria Selma, "não há nada mais para se ver; eu já vi tudo". Até no escuro é
possível ser feliz!
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